As Cinco Patinhas

AS CINCO PATINHAS

um conto de Samael Darcangelo,

para a professora Raquel Parrine,

por sua dedicação ao gênero policial.

 

Capítulo Um – O Último Chá em Petrolina

O repicar distante dos sinos da Igreja do Sagrado Coração de Jesus fez-se ouvir na aconchegante sala-de-estar do número 60 e tantos da rua Bahia. O gato que dormia numa grande e macia almofada onde se lia “The Boss” achou aquele som, como sempre, um incomodo. Já para Elisabet, aquele som significava que tudo estava em ordem em Petrolina. Afinal, era parte da ordem natural que os sinos tocassem pontualmente às 17:45, avisando que faltavam quinze minutos para o começo da missa vespertina.

A professora de Filosofia aposentada, elegantíssima em seu chambre de seda, já estava preparando sua segunda xícara de chá de capim-limão. Apesar da erva ser uma escolha bem brasileira, Elisabet orgulhava-se de manter a tradição inglesa do chá das cinco, porém servido um pouco atrasado para lembrar a todos seus amigos que Petrolina era cidade brasileira.

Ao menos num ponto, Elisabet e o gato concordavam: os sinos tinham um tom agudo irritante. De longe, os vitrais e a arquitetura neogótica da Igreja do Sagrado Coração eram a sua principal atração, o ruído dos sinos, porém… No mínimo, faziam a professora recordar uma fúnebre citação literária que ela gostava de repetir com a xícara em punho, imaginando-se dentro de um antigo filme hollywoodiano. E foi o que ela fez. Tomando cuidado para não erguer o dedo mindinho (afinal, ela era uma dama), ergueu a xícara e recitou solenemente:

– Por quem os sinos dobram?

Em resposta, para desespero do gato, foi a campainha da casa que tocou. Pela janela entreaberta, Elisabet percebeu que era o carteiro, trazendo encomenda de SEDEX. Intrigada, ela recebeu a encomenda, um embrulho grande, parecendo uma dessas caixas de ventilador, porém, estranhamente leve, leve demais até mesmo para um desses ventiladores de plástico vagabundos que são vendidos hoje em dia. Era como se a caixa estivesse cheia daqueles pasteis de vento vendidos para incautos no Bodódromo.

Ela pensou que pudesse ser encomenda de seu marido, mas o nome do destinatário não deixou dúvidas: “Elisabet Gonçalves Moreira”. Seu nome ali, no borderô dos Correios, apenas isso e nada mais.

Após despachar o carteiro, a professora de filosofia colocou o pacote sobre a mesa de jantar, ao lado de sua xícara de chá ainda fumegante, e, com a testa franzida, começou a desembrulhá-lo. Ao livrar-se do papel pardo, deparou-se com uma caixa cheia de pontos de interrogação onde estava escrito em inglês: “Tannen’s Magic Mystery Box”.

Havia um pequeno bilhete sobre a caixa. Numa caligrafia do tipo “mãe, fugi da escola!”, lia-se:

“Cara Elisabet;

A verdade está aqui dentro.

                                   D.”

Elisabet abriu um sorriso, finalmente compreendendo o que se passava. Murmurou para si mesma:

– Só pode ser coisa de… Será possível? Mas ele é louco! Ha, ha, ha, ha! HAHAHAHAHAHAHA!

Ansiosa, ela abriu a misteriosa caixa e… Nada!

Não, esperem! Inclinando-se sobre a caixa recebida, Elisabet notou que havia algumas palavras rabiscadas no fundo. Quase enfiando a cabeça lá dentro, ela conseguiu ler: “A curiosidade matou a patinha”.

De repente, a professora percebeu que estava ficando mais leve, como se a gravidade estivesse abandonando o planeta. Contudo, não era a gravidade que estava de partida. Elisabet tentou se apoiar na mesa, mas tudo o que conseguiu foi desabar ao chão, levando a xícara de porcelana consigo. Aquilo foi demais para o gato.

“Ah inferno pra ter cão! Vou armar minha rede é na cozinha!”

E o gato partiu para a cozinha, enquanto que Elisabet, de olhos arregalados, terminava de partir desta para outra, se melhor ou pior, é questão que algum outro professor de filosofia, vivo, terá que especular.

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 Capítulo Dois – Raquel Scully & Fox Parrine

No Brasil, quando uma série bizarra de crimes é cometida e deixa a Polícia Civil embasbacada, chamam a Polícia Federal. E, quando essa série de crimes ultrapassa as fronteiras do racional, ao ponto dos policiais não fazerem ideia nem que quem devam torturar em busca de informações, a Polícia Federal então aciona uma dupla de investigadores especializada naquilo que se convencionou chamar de “pensar fora da caixa”.

Por isso, menos de 24 horas após a primeira morte ocorrida em Petrolina, os detetives Raquel Scully e Fox Parrine já estavam com a batata-quente nas mãos. Os dois pareciam não pertencer ao mundo real, sendo mais provável que tivessem saído ou de um seriado americano ou de alguma universidade brasileira. Suas habilidades sequer eram similares.

Raquel, uma morena pernambucana de 28 anos, cabelos compridos, fartos e encaracolados, era a praticidade e o racionalismo encarnados e bem representados na sua segunda pele, ou uniforme, como preferirem, composta por botas e jaqueta preta de couro e um jeans claro e justo como a Lei de Deus.

Por sua vez, Fox Parrine, que devia seu nome ao fato da mãe ser funcionária de um tabelionato, era um gaúcho com a mesma idade de Raquel, mas a semelhança parava por aí. Alemão de corpo esguio e alto, olhos azuis e barba sempre por fazer, sua personalidade ficava muito bem definida pelas roupas que vestia. Calças largas de xadrez feitas com fibra de bambu reciclável, casaco decorado com lhamas feito por índios bolivianos e alpargatas confortáveis cuja renda da compra havia sido revertida para a ONG “Amigos do Ibirocai”.

Fox acreditava em terapias holísticas, extraterrestres, política econômica nacional e homeopatia. Onde Raquel optava pelo racional, Fox embarcava na maionese. Por algum estranho motivo que só o destino (ou a audiência) explica, a parceria entre os dois funcionava.

Raquel já estava no escritório da Polícia Federal em Porto Alegre desde cedo, lutando bravamente contra o frio do inverno que estava começando e aguardando a chegada do “Como-Sempre-Atrasado” Fox. O caso que estava em suas mãos era espinhoso e tinha tudo para se tornar o próximo a ocupar quase todo o espaço dos noticiários nacionais. Raquel lia os resumos que lhe haviam sido entregues, erguendo as sobrancelhas.

Até aquele momento, nada menos do que cinco mulheres já haviam morrido em decorrência de terem recebido, pelos Correios, uma misteriosa caixa cheia de pontos de interrogação. Ao que tudo indica, uma vez aberta a caixa, a vítima morria em seguida. Contudo, até aquele momento, não havia sido detectado nenhum dispositivo ou animal venenoso que pudesse estar dentro da caixa e provocar a morte.

O remetente havia utilizado um nome e endereço em São Paulo mais falsos que promessas de político, de modo que, de concreto, havia apenas o texto dos bilhetes, dando a entender que o autor dos homicídios conhecia suas vítimas. As equipes de análise forense ainda estavam trabalhando nas autopsias, mas o tempo era fator fundamental, pois mais caixas poderiam estar chegando a outros destinatários naquele exato momento.

Raquel sorvia o último gole de seu café quando o detetive Parrine, esbaforido, entrou correndo na sala. Ela sequer o cumprimentou:

– Já não era sem tempo, detetive! Acabei de receber direto de Brasília a lista com o nome das vítimas identificadas até o momento e…

Fox a interrompeu, puxando um bilhete que parecia ter sido escrito em papel de pão do seu bolso. Ele limpou a garganta e listou:

– Elisabet Gonçalves Moreira, Heluiza dos Santos Bri, Joanile Guimarães Verdugo, Ana Luiza Vianna Valente do Couto e Maria Carolina Reichmann Rodrigues.

– Hein? Brasília já tinha lhe enviado esses dados?

– Não, Raquel, não recebi nenhuma documentação oficial. Essa lista foi entregue para mim agora a pouco pelos Correios. O remetente é um vidente carioca…

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Capítulo Três – Corra, Parrine, Corra!

Tempo era fundamental naquele caso, deste modo, menos de três horas após a entrada dramática de Parrine, os detetives já estavam dentro de um táxi no Rio de Janeiro, dirigindo-se para a Avenida Treze de Maio, no centro, onde, segundo constava no endereço do remetente, atendia o vidente Samael Darcangelo.

Enquanto o taxista lutava para atravessar a Cinelândia e se aproximar do local solicitado no endereço, Fox Parrine mal continha a sua excitação no banco de trás do veículo. Pela quarta vez, releu a carta recebida:

“Prezado detetive;

Ontem à noite, antes de dormir, fitando a água cristalina vertida dentro de uma bacia de prata, vi acontecimentos terríveis. Vi a Caixa de Pandora ser aberta. Vi mulheres caindo mortas em Petrolina e em São Paulo. Vi um gato ser incomodado em seu sono. Vi o terror que estava por vir. Vi tudo isso e ainda mais!

Sei que não acreditarás em mim, então, seguem os nomes de parte das vítimas dos horrores que vi: Elisabet Gonçalves Moreira, Heluiza dos Santos Bri, Joanile Guimarães Verdugo, Ana Luiza Vianna Valente do Couto e Maria Carolina Reichmann Rodrigues.

Sugiro que apresse-se, detetive! Sei que teu criador te deu uma mente aberta e capaz de acreditar que há algo no universo além do que crê nossa vã filosofia. Corra, Parrine, Corra!

Com afeto;

Samael Darcangelo”

A carta estava datada em 17 de junho, portanto, cinco dias antes das mortes. Era de uma infelicidade só explicada pela lerdeza dos Correios que a carta tivesse chegado às mãos de Fox somente um dia após terem sido feitas as primeiras vítimas.

Observando os pedintes espalhados ao redor da Cinelândia, enquanto refletia sobre o conteúdo, Fox comentou com sua parceira:

– Edifício Darke, número vinte e três da Avenida Treze de Maio. Foi esse o endereço que o vidente colocou no cartão de visitas que remeteu junto com o bilhete. Mal posso esperar para falar com um autêntico médium… Imagine as possibilidades se a polícia puder contar com o auxílio de alguém capaz de enxergar o futuro?

Raquel não estava impressionada.

– Olha, sobre esse cartão… “Samael Darcangelo, vidente, ‘maximum’, cartomante, quiromante, piromante e mágico amador. Faço despacho na encruzilhada, trago seu amor e o sinal da TIM de volta. Atendo a domicílio”. Sabe, Fox, é melhor irmos com calma aqui. Está me parecendo um pouco com charlatanismo, sabe?

O congestionamento ao passar pelo Teatro Municipal era tão grande que Raquel e Fox decidiram desembarcar ali mesmo e percorrer o resto do caminho a pé. O antigo edifício Darke estava espremido entre dezenas de outros, todos recheados de pequenas lojas de comércio típicas dos grandes centros.

No sobrepiso da galeria principal do edifício, quase que escondida num canto, os detetives acharam uma plaquinha sobre uma porta onde se lia:

“Samael Darcangelo, O Cartomante. Entre, por sua livre e espontânea vontade”.

Os detetives atravessaram as cortinas de contas e entraram.

A abafada e minúscula sala estava recheada com os mais diversos símbolos religiosos. Tinha de tudo ali: máscaras africanas. Estátuas de Buda, Ganesha, doutores da peste e até de carnaval veneziano. Terços, runas, cartas de tarot, enfim, um sem número de quinquilharias espalhado pelos cantos, tudo com muita cara de lojinha de R$ 1,99.

Porém, no fundo da sala, em uma pequena mesa onde o vidente deveria atender, ao lado de uma bola de cristal, estava uma pequena TV ligada, conectada a um aparelho de DVD.

Havia um vídeo pausado na tela. A imagem parecia muito com a de um desses vídeos do Anonymous que anda infestando a internet. Sob um fundo difuso, um sujeito vestido de capa preta e mascarado estava pronto para falar. A única diferença é que, ao invés da máscara de Guy Fawkes utilizada nesse tipo de vídeo, o sujeito utilizava uma máscara do…

– Mas, mas, mas… Aquele ali não é o…Pato Donald?!! – exclamou Raquel

Sem imaginar uma única resposta decente, Fox limitou-se a dar de ombros e apertar o botão Play. O Pato Donald começou a falar:

– Seja bem-vinda, minha cara Raquel! Eu, logicamente, não estaria na profissão em que estou se não soubesse que você viria até aqui hoje. Peço que me perdoe por não poder atendê-la no momento, pois estou ocupado, trabalhando em um conto onde pretendo sacanear alguns pós-modernistas que conheci neste semestre. Aliás, já te contei que, entre as minhas muitas habilidades, também atuo como escritor amador de vez em quando?

“Bom, mas vamos ao que interessa! Vi o nome das vítimas e vi mais. Vi que o assassino que estão caçando é alguém de recursos ilimitados. Ele é um adversário poderoso e não ousará em mover montanhas se isto for necessário para comprovar o seu ponto-de-vista.”

“Vejo e sei que haverá mais mortes antes do final, portanto, tenham cuidado! Isso é tudo o que posso lhes dizer neste momento. Boa caçada!”

E o vídeo terminou ali.

– E agora? – perguntou Fox, desconcertado.

– Agora, meu caro, vamos nos hospedar no hotel com WiFi mais próximo daqui. Temos coisas demais sobre as quais refletir e tempo de menos!

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Capítulo Quatro – Jack, Jon & Jin

No saguão do hotel Windsor Asturias, Raquel falava sem parar em seu iPhone e também digitava furiosamente em seu Macbook, enquanto que Fox preferia refletir sobre os últimos acontecimentos no American Bar do hotel. Segundo ele, quando um caso estava muito complicado, só mesmo com um auxílio dos amigos Jack, Jon e Jim.

O que estava ocorrendo poderia mudar a forma como as investigações eram conduzidas no mundo inteiro, mas, antes de mais nada, era preciso desvendar o caso, agarrar o assassino, e provar que isto só havia sido possível graças a uma ajuda muito além da Ciência. Uma ajuda vinda de alguém que simplesmente viu o futuro!

“Chupem, Ciências Duras!” – pensou Fox enquanto erguia seu copo em um brinde silencioso.

Ele não pode completar o drinque. Mesmo ao longe, a voz de Raquel trovejou:

– FOX! É aí que você se enfiou? Venha depressa! Creio que o caso está resolvido!

Os detetives voltaram correndo até o saguão. Raquel explicava tudo em linguagem apressada:

– Estou há mais de três horas alternando entre pesquisas na internet e telefonemas! Nossas equipes forenses começaram a enviar os resultados. As vítimas morreram por terem inalado subitamente grande quantidade de gás cianeto de altíssima concentração.

– Cianeto?

– Sim! As caixas eram revestidas de plástico, formando um tipo de bolsa de contenção cheia com esse gás. A vítima, atraída pelo recado macabro escrito no fundo das caixas…

– “A curiosidade matou a patinha”. – lembrou Fox, não conseguindo conter um arrepio.

– Isso! A vítima quase enfiava a cabeça dentro da caixa e inspirava uma dose letal do veneno.

– Caramba!

– E não é só isso! Estive tentando estabelecer uma relação entre as vítimas. Ora, se todas elas conheciam o assassino, então que tal se elas também se conhecessem umas as outras?

– Mesmo morando em lugares tão distintos como São Paulo e Petrolina?

– Essa é uma dificuldade. Porém, em tempos de internet, ora… Não seria justamente esse o catalisador desses relacionamentos distantes? Foi por aí que iniciei as pesquisas. Tive que apelar até para determinado setor da Casa Branca especializado em monitorar conversas via e-mail e Facebook

O detetive Parrine ficava horrorizado com esses métodos de investigação “tipicamente imperialistas”. Preferindo não saber dos detalhes, cortou as explicações de Raquel:

– E o resultado disso?

– Elas se conheciam, Fox! Todas elas frequentaram, durante este semestre, um curso de Ensino à Distância cujo tema era Literatura Policial!

“E tem mais! Consegui acesso ao curso em questão, promovido pela UNIVASF, e estou há duas horas lendo todas as mensagens postadas no fórum do curso.”

Raquel parou para respirar. A cabeça de Fox, não se sabe se pelo uísque, ou se pela quantidade de informações e energia vindas da pernambucana, girava mais que a Roda Viva de Chico Buarque. A detetive Scully continou:

– No primeiro fórum, foi proposta uma Caixa de Tannen, contendo um mistério. Uma caixa cheia de pontos de interrogação que conteria “não se sabe o que dentro dela”. Trataram das maravilhas do mistério acerca de seu conteúdo e a maioria por lá afirmou que não abriria uma caixa dessas, preferindo manter o suspense do que revelar seu conteúdo. No entanto, teve um certo Rodnei-Rodnei afirmando que aquilo era balela e que todos abririam a Caixa!

– Rodnei-Rodnei?

– Não me pergunte! O nome provavelmente é apenas Rodnei. Deve ter sido alguma falha da criadora do curso que, depois disso, se esqueceu de corrigir. Se ela soubesse o quão perigoso é esse infeliz, teria tomado providências para consertar o erro rapidamente!

– Espere aí, você está dizendo que esse Rodnei é o assassino?

– Claro! Fox, é um crime de afirmação! Esse lunático quis demonstrar que todas as moças que o humilharam no curso, dizendo que não abririam a tal caixa, na verdade abririam se recebessem uma caixa dessas na vida real! E foi o que ele fez! Mandou a morte para cinco pessoas que ele jamais havia visto pessoalmente, apenas para provar um ponto-de-vista!

– Que bando de gente louca esse que lê romance policial! Mas, como vamos botar a mão nesse cara?

– Calma que ainda não acabei! No fórum, a cada semana discutia-se sobre uma obra do gênero. Logo após a Caixa de Tannen, debateram sobre A Carta Roubada de Allan Poe e…

– Eu lembro dessa estória! – interrompeu Fox, confessando sem querer que também era um “louco” do grupo que lê romances policiais – Trata-se daquela onde o bandido prevê as ações da polícia, mas o detetive particular acaba vencendo-o por ser mais malandro!

Raquel franziu a testa.

– Um pouco mais de foco, por favor! Logo a seguir, debateram A Cartomante, de Machado de Assis! A CARTOMANTE, Fox, percebe?

A cara de ponto de interrogação do companheiro, fez Raquel prosseguir:

– Um conto de Machado de Assis onde os personagens visitam uma cartomante que atende na Rua da Guarda Velha!

– E..?

– Rua que hoje virou a Avenida Treze de Maio!

O queixo de Fox Parrine desabou:

– Raquel! Então, é isso! Está tudo interligado! O ciclo se fecha, graças às visões de nosso vidente Samael!

A detetive ergueu-se do sofá com cara de “Jesus, Misericórdia!”. Correndo em direção a porta do hotel, ela gritou para Fox:

– Venha! Vamos fazer uma nova visitinha ao senhor Samael Darcangelo, ou melhor, ao senhor Rodnei-Rodnei! Creio que ele não vai gostar de nos ver! Mas, antes, vamos passar na delegacia para pegar uma proteção extra!

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Capítulo Final – Mais Um Bueiro

No lusco-fusco do final de tarde, já na entrada da galeria do Edifício Darke, Raquel sacou a sua 9mm. Fox ainda estava deprimido, assimilando a ideia de que ainda não fora dessa vez que encontrara algo além da Ciência.

– Tem certeza de que é necessário, Raquel?

– Pelo amor de Deus, Fox! O homem é traiçoeiro! Todo cuidado agora é pouco. Os reforços já estão isolando o perímetro, mas faço questão de por as mãos eu mesma nesse “vidente de meia tigela”. Tome, coloque a sua máscara!

Raquel havia se precavido. Sabendo que o assassino lidava com gás letal, trouxera máscaras anti-gases apropriadas e armas de grosso calibre da delegacia. O vidente não escaparia com mais alguma artimanha.

Chegaram em frente à entrada da salinha onde atendia o suposto cartomante. Ajeitando suas máscaras e, com Raquel de arma em punho, atravessaram as cortinas.

Lá dentro, tudo parecia como antes, até mesmo a TV ligada com um vídeo pausado na tela. Uma ligeira diferença na posição do “Pato Donald” indicava para a detetive que se tratava de um novo vídeo.

E, no lugar onde antes havia uma Bola de Cristal, estava agora uma Caixa de Tannen…

Fox, novamente, porém com muito mais cuidado, apertou o botão Play.

“Minha querida Raquel!

Vejo que você desvendou o mistério, afinal!

Não foi uma obra-de-arte? Sim, sim, eu sei que houve algumas mortes, mas o que é isso comparado à beleza de uma estória bem contada?

Imagino que agora você queira, mais do que nunca, colocar as mãos no artista responsável por essa criação, não é mesmo?

Bem, é o seu dia de sorte! Dentro dessa Caixa de Tannen, juro por minha honra, existe, entre outras coisas, um papel contendo meu nome completo, uma confissão dos crimes por mim assinada e meu atual endereço. Comprometo-me a ficar nesse endereço até às 20:00 desta noite.

No entanto, recomendo cautela! Sabe o que dizem sobre a curiosidade, minha cara?”

Raquel respirou fundo. Felizmente, o assassino não contava que o seu gás letal já havia sido descoberto. Contando com as máscaras, os detetives podiam abrir a caixa e virar o jogo. Ela começou a cortar o lacre que matinha a tampa fechada.

Fox, suando bicas, cochichou:

– Raquel, sabe aquele conto da Carta Roubada?

– Isso é hora, Fox?

– Pois então! Não consigo deixar de pensar que, naquela estória, o bandido previa os passos da polícia…

– Sim, e daí? – Raquel começou a erguer a tampa da caixa.

– Bom, e daí que se esse Rodnei, Samael, sei lá… Enfim, se esse maluco andou prevendo que chegaríamos aqui com máscaras e…

Raquel terminou de erguer a tampa, acionando o mecanismo detonador da barra de explosivo C4 que havia sido armado dentro da caixa.

A explosão foi ouvida a dois quarteirões de distância, mas os transeuntes cariocas de final de tarde limitaram-se a imaginar que se tratava de mais um bueiro explodindo pela região.

Do bilhete escrito por Samael, que também estava dentro da caixa, restou apenas um pedacinho da parte final, onde, apesar dos chamuscados, se podia ler o seguinte:

“…

Um destino tão funesto / Se não é digno de Raquel, / É digno de Parrine.

D.”

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Primeiro Resultado

Eis o primeiro resultado da brincadeira dos contos em dupla. Digamos que eu e minha amiga Luciana Bertini conseguimos a grande proeza de unir criacionistas e evolucionistas: ambos devem ter ficado indignados com o conto. 😉
 
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VUOSHHH NU
por Luciana Bertini e Samael
 
 
Capítulo I – No Bar
por Samael
 
Samael, o nerd, espetou uma azeitona com o palito que segurava nas mãos. Olhou por alguns instantes para ela com uma cara desconfiada e, por fim, decidiu que valia o risco. André, o novato na UFRJ, suspirou aliviado, pois, ao menos enquanto mastigava, Samael dava uma folga para os ouvidos de quem tinha a duvidosa honra de escutar suas teorias mirabolantes.
 
Ambos estavam tomando cerveja e roendo alguns aperitivos em um dos mil e duzentos quiosques existentes na Barra da Tijuca. Se por acaso você é um et, talvez lhe interesse saber que a Barra da Tijuca fica no Rio de Janeiro, Brasil. O convite para um happy hour – já eram quase dez da noite – partiu do mineiro André que, apesar de ter chegado à cidade naquele semestre, já tinha fama de ser um notório boa-vida, do tipo que procura fazer amigos influentes para conseguir vantagens e um pouco de mordomia grátis.
 
Samael era o pior tipo de nerd que pode existir: o nerd cheio da grana e ultra convencido de seus próprios talentos. Acostumado pelo pai desde cedo a olhar para as mentes dos pobres mortais como quem analisa a mente de uma cobaia, Samael quase não tinha amigo nenhum dentro da Universidade e, apesar de ter a mesma idade de André – 26 anos -, Samael já estava perto de concluir o Doutorado em Física, enquanto que o outro fazia o primeiro semestre de Turismo na universidade.
 
A azeitona foi digerida mais rapidamente do que André gostaria e logo Samael estava voltando a carga, com seu blá-blá-blá interminável:
 
– Muito pitoresco este lugar! Realmente, é a primeira vez na vida que visito um legítimo bar de pé-sujo, não é assim que dizem?
 
– Bem, na verdade, quiosques da Barra não são propriamente barzinhos de quinta…
 
– Entendo, entendo, é um lugar para um povo, digamos, chinelo-mais-sofisticado. – cortou Samael – Mas está agradável aqui. Faz com que eu recorde um pouco minhas últimas férias na Riviera. Se retirarmos o povinho e deixarmos apenas o mar e esse calçadão até que dá para o gasto….
 
A conversa rapidamente evoluiu para “como remover o povo da favela do Canta Pavão” que ficava próxima dali e, seguindo um curso não muito natural, desembocou na possível mineração em asteroides, com Samael listando as rochas e respectivas composições que poderiam ser obtidas dos corpos celestes. André tentava acompanhar tudo sem bocejar, mas desistiu de tentar entender algo lá pela metade da explicação e se concentrou em terminar seu copo de Bohemia Weiss. Afinal de contas, sair para tomar um chopinho com um ricaço tem lá suas vantagens…
 
– … Mas o melhor de tudo seria poder viajar à velocidade da luz para trazer esses minérios para cá. Pense só! Os astronautas não envelheceriam nem um ano sequer!
 
– Opa! – André quase engasgou com a cerveja. Finalmente, uma chance de falar! – Peraí que disso eu entendo um pouco. Tenho uma amiga conterrânea que faz pesquisa lá no laboratório de Física da UFRJ, a Strix, você certamente deve conhecer…
 
– Hmpf… Claro que conheço, esforçada, mas mediana. Nada além disso.
 
– Bom, ela me parece genial – André ignorou a careta que Samael fez e prosseguiu – Pois ela me deu uma aula outro dia sobre viagem no tempo. Inclusive, se não me engano, ela deve estar fazendo alguns testes hoje à noite, lá no pé da Canta Pavão, olha o perigo! Nunca vi uma garota tão empolgada com uma bobagem dessas…
 
– Bobagem? Que bobagem?
 
– Ora, ela discutiu comigo quase uma hora inteira, jurando que é possível viajar no tempo! Sabe, aquele lance de De Volta para o Futuro?
 
– Não vejo porque o seu espanto. A viagem no tempo é uma possibilidade real que eu defendo desde o tempo em que estava no segundo grau!
 
– Ah! Qualé! Você também?
 
– Eu, Einstein e meu pai, entre outros notáveis de menos vulto! Alias, neste momento, papai está em Londres dando uma série de palestras sobre a possibilidade de quebrar o continuum espaço-temporal. Mal posso esperar para me juntar a ele em janeiro próximo, quando o gigantesco Colisor de Hádrons do CERN for finalmente ligado em sua potência máxima!
 
– Ora, pois para mim essa história de viagem no tempo é pura balela. Se é possível viajar para o passado, você poderia me provar isso facilmente…
 
– Não o entendo, André Lopes…
 
André não podia perder essa chance. Percebendo o ar atônito de Samael, ele prosseguiu, triunfante:
 
– É elementar, meu caro. Se algum dia, no futuro, você tiver condições de viajar para o passado, então volte exatamente para cá, nesta hora e neste lugar e apareça aqui do nosso lado para dizer que é possível viajar no tempo! Ou aparece aqui agora e diz isso ou, então, nunca pode viajar no tempo! Touché!
 
Como por um passe de mágica, uma voz surgiu ao lado dos dois debatedores, dizendo:
 
– É possível sim!
 
Era André Lopes, vestido com a mesma roupa branca de pai-de-santo, quem falava. Em sua testa havia muito suor e, do lado esquerdo do rosto, algo que parecia uma ferida ainda suja de sangue.
 
O André sentado na cadeira saltou meio metro para trás, caiu no chão e rastejou sobre o traseiro mais alguns metros antes de falar, com os olhos esbugalhados:
 
– Gahhhhhhh! Que diabo é isso!
 
Samael estava perplexo, mas anos vendo seriados como Star Trek o treinaram para agir como um bom Dr. Spock. Por isso, aparentando calma, ele dirigiu-se ao André que estava de pé.
 
– Quem é você? O que faz aqui?
 
Ofegante, André II respondeu:
 
– Não há tempo! Não há tempo! Venho do futuro, nem eu acredito ainda que isso aconteceu, mas precisamos correr para evitar a tragédia!
 
O André original levantou-se do chão e se aproximou lentamente do segundo. Esticou um dedo e foi se aproximando do rosto do outro. Quando o tocou, saltou novamente para trás e gritou, esquecendo-se que havia dito mais cedo que era ateu:
 
– Valei-me nosso Senhor Jesus Cristo! Eu não estou sonhando!
 
Samael cortou:
 
– Deixe de bobagens, homem! Não vê que estamos perdendo tempo? Por favor, André do futuro, explique-se…
 
Retomando o fôlego, o visitante prosseguiu:
 
– Vocês precisam vir comigo, ainda dá tempo de evitar o desastre. Strix vai ligar o equipamento em (consultou o relógio) menos de 45 minutos. Vamos!
 
Já correndo em direção ao carro, seguido por André I e Samael, André II prosseguiu:
 
– Eu, você e ela estávamos lá no momento em que seria feito o experimento. Ela estava tão frenética com os preparativos que se esqueceu das normas de segurança. Foi quando bandidos invadiram o local… Foi confuso, houve luta. Na confusão, a máquina foi ativada e eu corri para o feixe de luz e, então, tudo ficou calmo, todos desapareceram, percebi que eu estava sozinho no meio de um mato sem cachorro, literalmente! Gastei um tempo precioso antes de perceber que eu havia voltado quase duas horas no tempo! Só pode ter sido obra de Deus!
 
– Eu sou ateu! – lembrou André I.
 
André II nem lhe deu bola e prosseguiu:
 
– Agora temos que chegar lá em (nova consulta ao relógio) 40 minutos, antes que os traficantes invadam!
 
Eles já estavam dentro do carro de Samael, um potente BMW. Concentrado na ação, ele fez uma pergunta que era óbvia para si mesmo:
 
– Não entendo porque você, André, viajou no tempo para vir nos avisar. Teria sido mais lógico e mais produtivo se EU tivesse vindo.
 
André II suspirou e respondeu:
 
– Acontece que os caras que fizeram esse corte no meu rosto são os mesmos que te mataram… Sério, não faz nem meia hora que eu vi você levar um tiro no peito. Meus pêsames por antecipação!
 
Samael pisou fundo no acelerador. Os pneus cantaram e eles partiram rumo ao pé da favela Canta Pavão.
 
 
 
Capítulo II – Ensimesmando-se
por Luciana Bertini Strix ajeitou os óculos, que teimavam em escorregar por causa do suor no rosto. Ela não tinha tempo para apanhar um pano ou toalha para enxugar-se. Toalha não havia mesmo e pano… espirrou instintivamente ao pensar na sujeira do lençol que usara para cobrir o equipamento roubado do Instituto de Física. “Emprestado”, corrigiu-se mentalmente.
 
“Devolvo em algumas horas e ninguém vai perceber”.
 
Tinha pouco tempo, é verdade, mas também todo o tempo do mundo. Se sua ideia funcionasse, poderia preparar o discurso para o Prêmio Nobel antes mesmo de ser indicada. E poderia repor o equipamento antes de ser indiciada por furto. Se não funcionasse…
 
Bobagem. Ela sabia que funcionaria por um motivo muito simples: não era sua primeira vez.
 
Lembrava-se claramente daquela manhã de sábado quando, aos 8 anos, uma moça de óculos aproximou-se mancando do balanço em que brincava no parquinho, sentou-se ao lado dela e comentou casualmente que:
 
1) Era uma boa ideia usar aparelho nos dentes;
2) Coca-Cola é a fonte de todo mal, melhor fugir dela;
3) A fórmula para a viagem no tempo era moleza (e cochichou-a em seu ouvido).
 
Conselhos preciosos. Seus dentes eram perfeitos, não tinha nem sombra de celulite e havia construído uma máquina do tempo antes de completar 25 anos. É verdade que, a princípio, não sabia que a moça do parquinho era ela própria. Mas os anos foram passando e a cada dia ela ficava mais parecida com a estranha.
 
Uma semana atrás, mais ou menos, perdeu o equilíbrio quando consertava a lâmpada da cozinha e caiu da escada. Não se machucou muito, mas precisou enfaixar o pé. Quando entrou manquitolando no quarto, de volta do hospital, e viu seu reflexo no espelho, percebeu que finalmente havia se transformado na estranha. Em si mesma. Enfim.
 
Por isso estava ali. Desde que compreendera que a estranha era ela, aquele momento se tornou uma obsessão. Esperou anos por ele, não para saber se funcionaria, mas para descobrir o que viria depois. Tinha a impressão de que só então a sua vida iria começar.
 
E era aí que entrava André. Sim, porque Strix tinha planos para o futuro e eles incluíam o Nobel, lógico, mas depois disso… Pensou no estudante de Turismo e em como seria viajar com ele. Para o Sul, para o Pantanal, para a Bahia, conhecer lugares diferentes, a história deles, conseguir bons descontos em hotéis, claro, beijar, dançar. Ela não havia tido muito tempo para essas coisas, sempre ocupada com experimentos e livros. Seus planos não tinham relação com viagem no tempo. Não mais. Não se importava mais com as implicações, com patentes, com a possibilidade de mudar a história da humanidade. “Quem liga pra humanidade?”, pensou. “Eu quero nadar pelada com o André em Fernando de Noronha!”.
 
Olhou para o relógio. 0h01. André estava atrasado. Certo, ele não prometeu que viria logo, disse que iria beber alguma coisa com um “possível investidor” e que apareceria por ali mais tarde. Investidor! Ela sabia bem que o rapaz considerava o projeto da máquina do tempo uma grande bobagem, mas não era contrário a procurar alguém com grana para investir.
 
– Ah, dane-se! – disse em voz alta. E ligou a máquina.
 
Uma luz muito branca iluminou o cilindro do Instituto de Física e o feixe de luz partiu.. Strix apanhou o aparelho que lhe permitiria ativar o feixe novamente e regressar ao presente, pensando se iria primeiro ao parquinho dar as dicas para a versão dentuça e pequenina de si mesma ou se pularia para 20 anos no futuro. Acabou  escolhendo o passado e deixando o futuro para sobremesa.
 
Entrou no feixe de luz. O clarão foi tão grande que Strix viu a favela toda iluminada por um segundo, antes de perder a consciência.
 
0h01. Saiu do feixe. Piscou. Estava de volta.
 
Strix começou a rir de alegria, estava livre, agora era dona da própria vida, “André e os golfinhos que se preparem!”, pensou, “vou abrir uma Coca-Cola para comemorar”. Apanhou o refrigerante que havia comprado especialmente para a ocasião e deixado na caminhonete.
 
“Bum!”.
 
– Uai… – disse Strix olhando intrigada para a garrafa de refrigerante recém-aberta. Outro “bum”, carro freando, mais “bum”.  André, aquele babaca do Samael (“Não acredito! Era ele o investidor?”) e André saíram correndo de um automóvel. Strix esfregou os olhos. Poderia jurar que tinha visto dois André, mas claro que não era possível. Não estava entendendo nada. Os três rapazes estavam correndo em sua direção, atrás deles vinha o que parecia ser a torcida do Flamengo, uma massa que ela não conseguia definir. Foi tudo tão rápido. Um tiro acertou Samael no peito. Uma coisa quente atingiu o braço de Strix e o controle do feixe caiu no chão. André gritou algo, à sua esquerda, enquanto André agitava os braços mais adiante, perto do feixe de luz. “ São mesmo dois?”, pensou, antes de ser derrubada por outro tiro.
– Ah! – murmurou Strix, compreendendo. E tudo ficou escuro.
 
André e André, agora lado a lado, prenderam a respiração e ficaram escondidos atrás de um arbusto até os bandidos irem embora. Levaram o cilindro, claro. Levaram o carro de Samael e a caminhonete de Strix. Não levaram os corpos.
 
Os amigos estavam mortos. O cilindro havia sumido e o controle jazia esmigalhado no chão. Ele estava só no mundo, consigo mesmo.
 
André chorou em seu próprio ombro até amanhecer.
 
 
Capítulo III – Dio Mio
por Samael
 
O sol raiava quando os Andrés tiveram seus soluços interrompidos por um som meio arfante, meio borbulhante:
 
– MMmmmmfffffarghhhhh.. cof… cof…. cof…
 
Olharam, ambos aflitos, ao redor, e perceberam que o som vinha de Samael, ainda tombado na mesma posição ao lado de Strix. Correram até ele e viraram o corpo, retirando a boca de Samael do contato com o solo terroso. André I exclamou:
 
– Samael! Você ainda está vivo?
 
Muito debilmente, cuspindo terra e sangue, respondeu o outro:
 
– Não, Pedro Bó! Eu morri, fui para o inferno e fui condenado a escutar perguntas idiotas pelo resto da eternidade! Cof.. cof… argh!
 
André II bradou:
 
– Rápido! Vamos levá-lo para um hospital!
 
– Cof… cof… puáááárgh… Não… Adianta… mais… TALVEZ se vocês tivessem vindo checar meu pulso um pouco antes, tipo umas… cof… cof… quatro horas atrás, ainda desse tempo… Agora estou no fim… Puarghhhh! Mas, antes… Vocês devem salvar o continuum.. O continuum… Continuum…
 
– To be continued? – Perguntou o primeiro André, atônito.
 
Samael só não revirou os olhos, primeiro porque detestava livros da Stephanie Meyer, segundo porque sentia que muito em breve iria revirá-los pela última vez na vida.
 
– CONTINUUM! Um paradoxo temporal está se formando… Vocês devem ir em busca do cilindro… Um de vocês deve entrar nele e iniciar uma jornada no… tempo… Façam isso ou o continuum do universo estará…  argh! Condenado!
 
André I olhou em volta e percebeu o controle esmigalhado. Sua pergunta era óbvia, Samael também reparou no controle quebrado e respondeu:
 
– O que entrar na cápsula será lançado sem controle pelo tempo afora… Provavelmente nunca vai parar de saltar no espaço-tempo… Sem… Controle!
 
– Mas como vamos achar o cilindro?
 
– Vocês acharão… E, você, André I, vai conseguir entrar nele… Confie em mim, tenho um bom palpite duplo nessa história…
 
Dizendo isso, Samael forçou um riso enigmático, revirou os olhos e se empirulitou de vez.
 
Momentos mais tarde, na saída da favela, os dois Andrés, correndo feito loucos, acharam o cilindro jogado ao lado da estrada, no meio do mato. Pelo visto, os bandidos, ao perceberem que o “saque” era só um monte de fios e placas sem nada de precioso ou de compreensível, haviam abandonado a aparelhagem.
 
Era o que havia sido previsto. André I se despediu de si mesmo, entrou no cilindro, trancou a porta e aguardou… Uma forte luz branca apareceu e, enquanto André II se desvanecia, André percebeu que a viagem temporal estava iniciando.
 
VUOSHHHHHHHH!
 
André surgiu no meio de um deserto desconhecido. Teve que se virar como podia e caminhou semanas, até sua barba cresceu, antes de avistar um aglomerado de pessoas. Todas elas estavam vestidas em túnicas simples e algum tipo de confusão estava ocorrendo no local. André não entendeu patavinas do que estava sendo dito, mas a confusão toda era porque não havia alimento para todos, apesar do grande número de pessoas ali reunidas.
 
Todos abriram passagem para o andarilho em trajes completamente diferentes e André entendeu qual era o problema e gritou, mesmo sem se dar conta que ninguém o entendia:
 
– Jesus Cristo! Vocês não percebem que esse pão aí está sem fermento? – e, tirando dezenas de pacotinhos de fermento em pó Royal de dentro do bolso, algo que André, por superstição, sempre levava consigo…
 
<Caramba, Samael! Fermento em pó Royal no bolso?! Aí você apelou de vez!!!>
<Pô! Se a Globo pode encher suas novelas de merchandising porque eu não posso fazer um jabazinho aqui no conto também?>
 
André acrescentou fermento a massa e, como por milagre, o pão cresceu e passou a ser suficiente para alimentar toda a multidão. O povo, maravilhado, começou a se ajoelhar diante dele. Alguns mais entusiasmados queriam tocar o “homem-santo”, logo, André estava praticamente sem roupas, envolvido no meio de um turbilhão de novos fãs.
 
Um dos novos fieis perguntou para outro:
 
– Quem será era esse homem-santo?
– Olha, eu acho que ouvi ele dizer um nome quando falou pela primeira vez…
 
Tímido e já pelado, nosso heroi, que não estava entendendo lhufas, já ia tentar explicar alguma coisa quando…
 
VUOSHHHHHHHH!
 
A jovem menina Strix, cinco anos, estava visitando o mar pela primeira vez. E que primeira vez! Fernando de Noronha e, ali, na praia da Baía dos Golfinhos, ela podia apreciar os “bichinhos-lindos-mais-fofos-do-mundo” nadando para lá e para cá no mar azul.
 
VUOSHHHHHHHH!
 
Eis que surge do céu um homem barbudo e pelado e caí na água, em meio aos Golfinhos. Strix ficou olhando atônita aquela cena, enquanto o peladão nadava até a praia e saia da água, arfante.
 
O pai de Strix apareceu na hora e gritou, tapando os olhos da filha:
 
– Mas o quê que ocê tá fazeno aqui, seu taradão????
 
– Pai…
 
– Qui é, fiá?
 
– Somos mineiros, não Chicos Bentos… Não é esse nosso sotaque!
 
– Oxente, minina! Esse escritô não sabe fazê sutaque mineiro, não… Afe!
 
André nem perdeu tempo tentando se explicar, simplesmente começou a correr, enquanto o pai de Strix corria atrás com um pedaço de pau na mão.
 
VUOSHHHHHHHH!
 
Zico estava na marca do pênalti. Ele havia entrado em campo há pouco tempo e o jogo contra a França estava complicadíssimo, mas, eis que a sorte lhe sorrirá e, graças ao pênalti recém marcado e que agora ele iria cobrar, o Brasil poderia garantir sua vaga nas semifinais.
 
O galinho respirou fundo e começou a correr em direção a bola. Como de costume, ergueu os olhos para escolher o canto onde iria chutar e…
 
VUOSHHHHHHHH!
 
O que é aquilo? Um peladão correndo atrás da linha do gol? Mas que diab…
 
VUOSHHHHHHHH!
 
André surgiu no meio do nada. Nada mesmo, nem chão, nem ar, nem tempo… Ele só conseguia pensar:
 
“Ei! Acabo de sacanear o Zico!!! VASCO DA GAMA-MA-MA-MA!!!”
 
“Hmmm, onde estou? Caramba, não tem nada nesse lugar! Não é nem mesmo “um lugar”. E parece tão instável! Acho que até mesmo a minha simples presença aqui é suficiente para causar uma grande explos…” CABBBUMMMMMMMMM
 
VUOSHHHHHHHH!
 
Quase incontáveis vuoshhhhs depois, eis que viemos parar numa casa tranquila de subúrbio em Belo Horizonte, onde a bela vestibulanda Strix dorme um sono profundo.
 
Na calada da noite, o homem, felizmente há muito já vestido, que ali estava olhando para ela, parecia uma assombração saída de alguma história barata de ficção científica.
 
Ele ficou por longo tempo apreciando os cabelos cacheados de Strix e o lento movimento que a respiração da garota provocava no fino lençol de linho. E, então, ele começou a falar num tom baixo:
 
– Eu sei que você não vai acordar, Strix. Farei todo meu discurso de despedida e você não vai abrir os olhos. Sei disso porque já estive no amanhã de manhã e te vi ir para a escola. Sei disso também porque coloquei um pouco de sonífero no copo de água que você bebeu antes de dormir….
 
“E eu sei disso e de tantas coisas mais! No início dessa minha jornada insana, sem saber quando, onde e por quanto tempo eu iria parar em algum lugar, tudo o que me ocorria a cada deslocamento temporal era tentar me aproximar de você, a Inventora, para que você me ajudasse a sair desse pesadelo”.
 
“Que perguntas essas minhas, não? De onde vim? Para onde vou? Quanto tempo eu tenho? – Não te parecem familiares? Que respostas você teria para me dar, afinal?”
 
“Foi por estar sempre te procurando que te vi crescer e se tornar essa pessoa maravilhosa que você é. Vi todos teus esforços em Química, alias, nessa ocasião eu estava disfarçado de teu professor. Achei que alguns ensinamentos que aprendi com aquele russo barbudo te seriam úteis…”
 
“Eu te vi criança, adolescente, jovem, adulta… Eu te vi em todos os momentos, mas, nessa altura, eu já sabia que você não poderia me ajudar. Nessa altura eu já sabia que o preço para evitar um paradoxo no continuum (Samael adoraria saber que aprendi essa) é que, enquanto eu existir, estarei para sempre saltando”.
 
“Então, tudo que pude fazer foi te observar. Eu te odeio porque sei que um dia você será responsável pelo fim do meu futuro e nada posso fazer para mudar isso. Eu te amo porque você me permitiu estar em todos os lugares e em todos os tempos.”
 
“Assim que o próximo vuoshhh ocorrer, simplesmente não vou tentar mais manter minha consciência – o “eu” que está navegando pela linha do tempo – e simplesmente estarei e não estarei em todos os lugares e em todos os tempos possíveis desde o Início até o dia de sua morte, Strix.”
 
“É esse o preço para evitar o Paradoxo.”
 
Se aproximando da garota e, delicadamente dando um beijo em sua testa, André se afastou, dizendo por fim:
 
Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam…. E ainda tive tempo de passar essa ideia de diálogo para o Ridley Scott!”
 
“…Mas eu jamais verei um dia sequer além do tempo em que você viveu neste universo, Strix. Considero isto como uma benção. Hora de morrer.”
 
VUOSHHHHHHHH!
 
———————————————– FIM ?

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BENTO PARA NÃO-BENTANSOS

BENTO PARA NÃO-BENTANSOS
por Rodnei (Sam) & Lisa
 
1. Onde se hospedar:
 
Existem hotéis para todos os tipos de bolsos. Sugerimos os seguintes:
  • Para quem quiser gastar pouco, sem se meter em frias: Vinocap ou Primavera, ambos no centro da cidade.
  • Hospedagem normal: Dall’Onder, Dall’Onder Vittoria ou Viverone, todos localizados na “Planalto”, região nobre da cidade e também onde fica a via gastronômica.
  • Para bolsos recheados, que querem uma experiência única no Vale dos Vinhedos (não sobra dinheiro para uma segunda): Spa do Vinho, Villa Michelon ou Casa Valduga.
 
 
2. Onde se alimentar:
 
Comida é assunto sério nas terras bentansas. Comida de verdade, sabem? Certa vez, uma amiga vegetariana quase morreu de fome ao visitar a região pela primeira vez. O negócio por lá é a famosa mistura de massas e carne de gado. Na região conhecida como Planalto existem muitas opções de restaurantes e pizzarias (e até um Subway). Vamos destacar os nossos preferidos:
  • Mamma Gema – bom e com grande variedade no cardápio.
  • Sbornea’s – esse é um absurdo! Você não vai conseguir comer tudo o que eles tem de opção no cardápio! Rodízio de panquecas!.
  • Restaurante Manjericão – pratos elaborados para bolsos recheados.
  • Churrascaria Ipiranga – a melhor da cidade.
  • Pizzaria Piacenza – nossa favorita. Muita variedade nos sabores, massa fininha para não empanturrar.
  • Dolce Gusto – essencial para o café da tarde, defronte à Igreja em formato de pipa. Lisa recomenda as quiches. Alias, por que não aproveitar e visitar uma Igreja de formato tão peculiar?
  • Bene Mangiare – se você quiser apenas um buffet ao quilo de confiança e com comida excelente.
  • Cantina Canta Maria – pratos típicos italianos. Porém, convém evitar em feriados, pois fica muito, muito cheia e pode render uma espera prolongada por uma mesa.
  • Cantina Di Paolo – essa é obrigatória, pois trata-se do melhor galeto do país! Ganhou trocentas vezes o prêmio da Quatro Rodas. E a sopa de capeletti é ainda mais especial.
 
Dica: Lisa informa que aquilo que os bentansos chamam de torrada, o resto do país conhece por misto-quente.
 
E eu recomendo uma “carta de vinhos” para escolher algo adequado para acompanhar essa alimentação toda:
  • Talento e Desejo da Salton
  • RAR da Miolo
  • Barbera da Reserva da Cantina
  • Peverella da Salvati & Sirena
  • Elos da Lídio Carraro (todo mundo fala do premiado Malbec/Cabernet, mas minah dica é experimentar o Touriga Nacional/Tannat. pois dúvido que alguém já tenha experimentado um vinho com aroma de jasmim.

 

 
3. Para curtir a noite:
 
  • Botequim São Bento, Bar Queens, House Beer e o Ferrovia Cult são boas opções para um encontro com amigos. Dessas, nossa preferida é a House Beer.
  • Boulevard Classic e Bangalô são os locais onde ocorrem as grandes festas da cidade.
 
4. Onde Ir e O que Conhecer:
 
Obviamente, na terra do Vinho, o que mais se tem para se conhecer são vinícolas. Na hipótese um tanto quanto absurda de alguém que não curta vinho vir a Bento Gonçalves, temos o prazer de informar que a maior parte das vinícolas produz suco de uva integral. Alias, sempre é preciso alguém para ser “o motorista da rodada”, acreditem, será necessário.
 
Se você ficar na cidade apenas UM DIA:
  • Tome o café da manhã mais reforçado que puder. Vai ser necessário…
  • Ainda pela manhã, tipo lá pelas 10:00, vá até a Vinícola Salton. Ela é recente, feita por designers italianos e totalmente pensada para agradar o turista. As lindas pinturas nas paredes representam típicos colonos que, na verdade, são funcionários famosos da empresa. mas o maior atrativo é, se você chegar na época da vindima, a possibilidade de ver as caixas de uva sendo entregues, e a uva ser processada. Tudo isto visto de cima, pois a estrutura para o turista foi feita “pelo alto”, de modo que você vê o engarrafamento todo do vinho. Bem interessante. Na degustação final, não deixe de provar o Talento e o Desejo. Ah, sim, eles tem um vinho licoroso e uma receite de um cálice dele, mais um pedaço de mamão e mais uma bola de sorvete. Delicioso.
  • Saindo da Salton (já com o motorista que não gosta de vinho ao volante), ao invés de voltar para o centro da cidade, continue descendo a RST-470, sob o pretexto de visitar a ponte do Rio das Antas. Ok, vale a pena dar uma olhada na ponte, local onde motociclistas malucos costumavam atravessar pelos arcos! Mas o grande lance está na direita, cerca de um quilômetro antes da dita ponte. A Pousada e Cachaçaria Bucco! Eles fabricam uma aguardente que venceu as mineiras em um concurso de degustação cega. Realmente vale a pena provar a caipira que o guia do local prepara, com orgulho, para o turista.
  • Hora do almoço! Dirija-se ao Vale dos Vinhedos e almoce no Mamma Gema.
  • Visite o Vale dos Vinhedos. Vinícolas para todos os gostos. Grandes como a Miolo e a Casa Valduga. Em estilo nobre como a Cave de Pedra, em estilo mais simples, porém com vinhos premiados, como a Lídio Carraro e a Alma Única. Enfim, se sobrar tempo, tem antiquários, loja de biscoitos e outras de produtos coloniais para conhecer por lá. Ah! Tem também uva que você mesmo colhe debaixo do parreiral. Antes que pense que é coisa de amador, a Casa Brandelli que oferece essa uva tem seu parreiral controlado por um doutorando da UFRGS, que dosa a quantidade água que as uvas recebem, etc.. Enfim, não são só os japoneses que sabem aperfeiçoar frutas.
  •  Enfim, de noite, recomendamos o jantar na Casa Di Paolo. Galeto e, se estiver frio, sopa de capeletti. Nossa, fico com água na boca só de lembrar.
 
Se você ficar na cidade DOIS DIAS:
  • Faça tudo que está escrito no primeiro dia. Talvez você note que não viu tudo o que queria ter visto no Vale dos Vinhedos. Não se sinta envergonhado, pois poucos são os que conseguem passar da quinta vinícola sem começar a chamar Jesus de Genésio. Neste caso, há tempo de voltar lá completar o roteiro.
  • A churrascaria Ipiranga é a dica para um bom almoço “pós-ressaca”.
  • No segundo dia, comece visitando os Caminhos de Pedra. Lá tem poucas vinícolas, mas vale à pena conhecer o atendimento da Salvati & Sirena. As demais casas são temáticas, então você poderá escolher ou conhecer todas: Casa da Ovelha, Casa do Tomate e da Gasosa (não perca o sorvete de tomate! Ah! E a apresentação tipicamente italiana da senhora dona do local é muito boa. Nada como ver gente que tem orgulho do que faz), Casa das Pequenas Frutas, Casa do Artesanato, Casa do Tecelão, Casa da Erva-Mate (muito interessante um moinho antigo que prepara a erva na base da roda da água).
  • Jante no Canta Maria.
 
Se você ficar na cidade TRÊS DIAS:
  • O passeio de Maria Fumaça pode ser incluído neste terceiro dia.
  • A vinícola Aurora e seu túnel que cruza por baixo da avenida é um relativamente no centro da cidade que vale a pena conhecer.
  • De noite, lanches leves na House Beer podem ser uma boa ideia. Mas, se você AINDA não enjoou de vinho, visite o Sbornea’s.
5. Coisas de Cidade Grande
Por fim, ao lado de Bento Gonçalves, existe Caxias do Sul, uma cidade do tamanho de Florianópolis. Quem quiser mais agitação pode escapar da terra do vinho e ir visitar os shoppings Iguatemi Caxias (grande) e São Pelegrino (elegante). Se optarem pelo São Pelegrino, ao lado do centro caxiense, não deixem de conhecer a Igreja de São Pelegrino, uma obra-prima.
 
Espero que esse fabuloso guia tenha ficado prático e seja de grande utilidade para todos os que se aventurarem pelas prósperas e queridas terras bentansas! 😉
 
Produzido em Julho de 2012
 

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Contos em Dupla

Então, conforme o explicado na lista ACBR, a brincadeira é simples. Segue abaixo o primeiro capítulo de um conto. Quem quiser continuar, basta escrever o próxim o capítulo e passá-lo para mim.
 
Mais tarde eu publicarei o primeiro resultado dessa maluquice! 🙂
————————
 
Capítulo I – No Bar
por Samael
 
Samael, o nerd, espetou uma azeitona com o palito que segurava nas mãos. Olhou por alguns instantes para ela com uma cara desconfiada e, por fim, decidiu que valia o risco. André, o novato na UFRJ, suspirou aliviado, pois, ao menos enquanto mastigava, Samael dava uma folga para os ouvidos de quem tinha a duvidosa honra de escutar suas teorias mirabolantes.
 
Ambos estavam tomando cerveja e roendo alguns aperitivos em um dos mil e duzentos quiosques existentes na Barra da Tijuca. Se por acaso você é um et, talvez lhe interesse saber que a Barra da Tijuca fica no Rio de Janeiro, Brasil. O convite para um happy hour – já eram quase dez da noite – partiu do mineiro André que, apesar de ter chegado à cidade naquele semestre, já tinha fama de ser um notório boa-vida, do tipo que procura fazer amigos influentes para conseguir vantagens e um pouco de mordomia grátis.
 
Samael era o pior tipo de nerd que pode existir: o nerd cheio da grana e ultra convencido de seus próprios talentos. Acostumado pelo pai desde cedo a olhar para as mentes dos pobres mortais como quem analisa a mente de uma cobaia, Samael quase não tinha amigo nenhum dentro da Universidade e, apesar de ter a mesma idade de André – 26 anos -, Samael já estava perto de concluir o Doutorado em Física, enquanto que o outro fazia o primeiro semestre de Turismo na universidade.
 
A azeitona foi digerida mais rapidamente do que André gostaria e logo Samael estava voltando a carga, com seu blá-blá-blá interminável:
 
– Muito pitoresco este lugar! Realmente, é a primeira vez na vida que visito um legítimo bar de pé-sujo, não é assim que dizem?
 
– Bem, na verdade, quiosques da Barra não são propriamente barzinhos de quinta…
 
– Entendo, entendo, é um lugar para um povo, digamos, chinelo-mais-sofisticado. – cortou Samael – Mas está agradável aqui. Faz com que eu recorde um pouco minhas últimas férias na Riviera. Se retirarmos o povinho e deixarmos apenas o mar e esse calçadão até que dá para o gasto…
 
A conversa rapidamente evoluiu para “como remover o povo da favela do Canta Pavão” que ficava próxima dali e, seguindo um curso não muito natural, desembocou na possível mineração em asteroides, com Samael listando as rochas e respectivas composições que poderiam ser obtidas dos corpos celestes. André tentava acompanhar tudo sem bocejar, mas desistiu de tentar entender algo lá pela metade da explicação e se concentrou em terminar seu copo de Bohemia Weiss. Afinal de contas, sair para tomar um chopinho com um ricaço tem lá suas vantagens…
 
– … Mas o melhor de tudo seria poder viajar à velocidade da luz para trazer esses minérios para cá. Pense só! Os astronautas não envelheceriam nem um ano sequer!
 
– Opa! – André quase engasgou com a cerveja. Finalmente, uma chance de falar! – Peraí que disso eu entendo um pouco. Tenho uma amiga conterrânea que faz pesquisa lá no laboratório de Física da UFRJ, a Strix, você certamente deve conhecer…
 
– Hmpf… Claro que conheço, esforçada, mas mediana. Nada além disso.
 
– Bom, ela me parece genial – André ignorou a careta que Samael fez e prosseguiu – Pois ela me deu uma aula outro dia sobre viagem no tempo. Inclusive, se não me engano, ela deve estar fazendo alguns testes hoje à noite, lá no pé da Canta Pavão, olha o perigo! Nunca vi uma garota tão empolgada com uma bobagem dessas…
 
– Bobagem? Que bobagem?
 
– Ora, ela discutiu comigo quase uma hora inteira, jurando que é possível viajar no tempo! Sabe, aquele lance de De Volta para o Futuro?
 
– Não vejo porque o seu espanto. A viagem no tempo é uma possibilidade real que eu defendo desde o tempo em que estava no segundo grau!
 
– Ah! Qualé! Você também?
 
Eu, Einstein e meu pai, entre outros notáveis de menos vulto! Alias, neste momento, papai está em Londres dando uma série de palestras sobre a possibilidade de quebrar o continuum espaço-temporal. Mal posso esperar para me juntar a ele em janeiro próximo, quando o gigantesco Colisor de Hádrons do CERN for finalmente ligado em sua potência máxima!
 
– Ora, pois para mim essa história de viagem no tempo é pura balela. Se é possível viajar para o passado, você poderia me provar isso facilmente…
 
– Não o entendo, André Lopes…
 
André não podia perder essa chance. Percebendo o ar atônito de Samael, ele prosseguiu, triunfante:
 
– É elementar, meu caro. Se algum dia, no futuro, você tiver condições de viajar para o passado, então volte exatamente para cá, nesta hora e neste lugar e apareça aqui do nosso lado para dizer que é possível viajar no tempo! Ou aparece aqui agora e diz isso ou, então, nunca pode viajar no tempo! Touché!
 
Como por um passe de mágica, uma voz surgiu ao lado dos dois debatedores, dizendo:
 
– É possível sim!
 
Era André Lopes, vestido com a mesma roupa branca de pai-de-santo, quem falava. Em sua testa havia muito suor e, do lado esquerdo do rosto, algo que parecia uma ferida ainda suja de sangue.
 
O André sentado na cadeira saltou meio metro para trás, caiu no chão e rastejou sobre o traseiro mais alguns metros antes de falar, com os olhos esbugalhados:
 
– Gahhhhhhh! Que diabo é isso!
 
Samael estava perplexo, mas anos vendo seriados como Star Trek o treinaram para agir como um bom Dr. Spock. Por isso, aparentando calma, ele dirigiu-se ao André que estava de pé.
 
– Quem é você? O que faz aqui?
 
Ofegante, André II respondeu:
 
– Não há tempo! Não há tempo! Venho do futuro, nem eu acredito ainda que isso aconteceu, mas precisamos correr para evitar a tragédia!
 
O André original levantou-se do chão e se aproximou lentamente do segundo. Esticou um dedo e foi se aproximando do rosto do outro. Quando o tocou, saltou novamente para trás e gritou, esquecendo-se que havia dito mais cedo que era ateu:
 
– Valei-me nosso Senhor Jesus Cristo! Eu não estou sonhando!
 
Samael cortou:
 
– Deixe de bobagens, homem! Não vê que estamos perdendo tempo? Por favor, André do futuro, explique-se…
 
Retomando o fôlego, o visitante prosseguiu:
 
– Vocês precisam vir comigo, ainda dá tempo de evitar o desastre. Strix vai ligar o equipamento em (consultou o relógio) menos de 45 minutos. Vamos!
 
Já correndo em direção ao carro, seguido por André I e Samael, André II prosseguiu:
 
– Eu, você e ela estávamos lá no momento em que seria feito o experimento. Ela estava tão frenética com os preparativos que se esqueceu das normas de segurança. Foi quando bandidos invadiram o local… Foi confuso, houve luta. Na confusão, a máquina foi ativada e eu corri para o feixe de luz e, então, tudo ficou calmo, todos desapareceram, percebi que eu estava sozinho no meio de um mato sem cachorro, literalmente! Gastei um tempo precioso antes de perceber que eu havia voltado quase duas horas no tempo! Só pode ter sido obra de Deus!
 
– Eu sou ateu! – lembrou André I.
 
André II nem lhe deu bola e prosseguiu:
 
– Agora temos que chegar lá em (nova consulta ao relógio) 40 minutos, antes que os traficantes invadam!
 
Eles já estavam dentro do carro de Samael, um potente BMW. Concentrado na ação, ele fez uma pergunta que era óbvia para si mesmo:
 
– Não entendo porque você, André, viajou no tempo para vir nos avisar. Teria sido mais lógico e mais produtivo se EU tivesse vindo.
 
André II suspirou e respondeu:
 
– Acontece que os caras que fizeram esse corte no meu rosto são os mesmos que te mataram… Sério, não faz nem meia hora que eu vi você levar um tiro no peito. Meus pêsames por antecipação!
 
Samael pisou fundo no acelerador. Os pneus cantaram e eles partiram rumo ao pé da favela Canta Pavão.

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Tormenta de Empadas

Para os que pensam em começar a ler As Crônicas de Gelo e Fogo, preparei um texto especial.

Segue um trecho de uma “Tormenta” para quem quiser conhecer o estilo, hmmm, como direi? Vagaroso, um tanto quanto pornográfico, cheios de comilanças e de imensas árvores genealógicas que George R. R. Martin adora usar em seus livros! Divirtam-se!

 

Prólogo

O Marujo Lopes e sua caravela, a Lamento de São Januário, estão chegando a Westeros. A intenção do gajo é tornar-se o primeiro dono de uma rede de padarias no continente medieval. Portanto, preparem-se para a Tormenta de Empadas. “Agora sim é que vai ser uma verdadeira guerra pelos tronos“. 

 …

Capítulo 2.468: Tyrion

O anão Tyrion Lã Nister® mordiscou um pedaço de lombinho com ervas-finas besuntado na manteiga negra e disse para o poderoso Lorde Twin:
 
– Pai, tem algo que me incomoda aqui…
 
– O que é? – cortou Lorde Twin, enquanto mordiscava um palitinho de queijo Gruyere com figo seco.
 
– Bem… É que… Veja, eu sou o clichê do “feio por fora, bonito por dentro”, além de, supostamente, ser também o mais inteligente do pedaço. Mas, mesmo assim, não consigo explicar isso: Westeros tem 8.000 anos de história, pai!
 
– Sim, mas… E daí? – perguntou o patriarca, agarrado a uma costeleta de vitelo temperada com limão e sálvia.
 
– Oito mil anos, pai! Dava para sair do Baixo Nilo e chegar na lua num tempo desses! Só que nós seguimos aqui, encalhados na era medieval! Como é que pode uma coisa dessas? Não fomos capazes nem de descobrir a pólvora!
 
– Ora, deixe de tolices e prove o empanado de javali, meu filho! E ande logo que o Eunuco Semvarys já está para chegar com as notícias sobre a guerra! Vamos tratar do que é importante!
 
Como que por encanto, o informante dos Lã Nister® apareceu em cena todo esvoaçante. Lorde Twin o cumprimentou e rapidamente perguntou sobre o andamento das batalhas no oeste. O eunuco parecia abatido ao responder:
 
– Infelizmente, senhor, não trago boas notícias. Sor Teio levou suas tropas e arriscou tudo ao tentar cruzar o Vau de Mor…
 
– Ele tentou cruzar o Vau de Mor?!? – Lorde Twin quase engasgou com um pedaço de codorna recheada – Esse confiou demais no seu taco, não acha, Tyrion?
 
– Bom, acho que, pelo menos… Ele tinha um taco para confiar, né, pai? – disse o anão, cutucando Lorde Twin com o cotovelo.
 
Houve uma pausa para risinhos maliciosos. Semvarys, impávido, ficou com uma perfeita cara de tacho afivelada na cabeça, esperando seus chefes se recomporem.
 
Assim que parou de rir, Lorde Twin ponderou:
 
– Sor Teio deveria ter deixado esse trabalho para Sor Tudo!
 
Sor Teio e Sor Tudo eram primos, vassalos dos Lã Nister® porque, quatrocentos anos atrás, Sor Tilégio, cujo escudo era um trevo de quatro folhas verde sobre um fundo rosa, era o tio do primo do cunhado… blá, blá, blá… Esaú era irmão de Jacó, blá, blá, blá, que gerou Abraão, que gerou Noé…. Blá, Blá, Blá… e então casou com a prima da sobrinha de um Lã Nister®.
 
– Agora é tarde para pensar nisso, pai! – disse Tyrion e, na sequência, tentando encontrar algo de bom em que se apoiar, perguntou:
 
– Semvarys! Pelo menos nos diga que temos boas notícias no front leste!
 
 Desculpe, mas a verdade vinda do leste é ainda pior! Sor Vete derreteu quando percebeu a chegada de Sor Rento e seus 278 cavalos!
 
Sor Vete era o sétimo filho do sétimo cunhado da… blá, blá, blá… Dona Canô, mãe de Bethânia, irmã de Caetano, amigo de Gil, pai de Preta… blá, blá, blá… da terceira prima do sogro de um Lã Nister®, portanto, vassalo.
 
Lorde Twin estava nervoso:
 
– Não! Não! Não!!! Mas, pelo menos, Sor Dina e Sor Rateiro apareceram para acudir?
 
– Eles até tentaram, meu Lorde, mas até a retaguarda de Sor Rento estava protegida por airbags!
 
– Tá vendo, pai? Eu disse que provocar o leste era cutucar a onça com vara curta!
 
– Bom, filho, antes cutucar com vara curta do que com vara nenhuma! HAHAHA! Hein? Hein? Que tal essa? Hein? Hein? HAHAHA!
 
Os Lã Nister® ficaram rindo por mais alguns minutos, enquanto o informante, alvo dos trocadilhos, fazia uma cara de couve-de-bruxelas.
 
Enxugando as lágrimas dos olhos, Lorde Twin voltou a falar sério:
 
– Tyrion, perdemos batalhas importantes! Só resta uma opção, que é nos capitalizarmos ainda mais para então contratarmos reforços mercenários.
 
– Mas, pai! Já vendemos toda lã colorida que era possível vender! Não tem mais escudo com figuras exóticas e combinação de cores esquisitas para ser criado. Toda casa já tem seu brasão e até as ovelhas já viraram churrasco nessa altura!
 
 – Ora, Tyrion, assim, com essa falta de visão, você nunca vai me substituir. Não percebe que podemos fazer um bom dinheiro caso nossos ferreiros comecem a preparar elmos com furos na testa?
 
– Elmos com furos??? – as sobrancelhas de Tyrion se ergueram tanto que ele quase deixou de ser anão – Mas… Que raio de ideia é essa?
 
– Pense, anão, pense! Se essa guerralhada toda continuar por mais tempo, será um verdadeiro Festim de Cornos e…
 
– Perdão, pai, acho que o senhor quis dizer “Festim de Corvos”…
 
– Eu sei o que eu quis dizer! É Festim de Cornos, mesmo! Pense! Todos esses Sores longe de seus castelos por meses e meses a fio. Todas essas esposas ao leo… Não tarda muito e Sor Ricardão pinta na área! Não tenho dúvidas! Elmos com furos na testa vão ser a única opção de nossos Sores medievais!
 
Ao pronunciar a última palavra, o ânimo de Lorde Twin arrefeceu um pouco e, franzindo o sobrolho, ele disse:
 
– Alias, falando em medievais, tem algo me incomodando…
 
O anão e o eunuco ficaram em silêncio enquanto o poderoso Lã Nister® meditava. Por fim, Lorde Twin desabafou:
 
– O que incomoda é essa sacanagem de um exército usar airbag em plena era medieval!
 
Foi a vez do eunuco, para surpresa de todos, bater na mesa e gritar:
 
– E sabem o que incomoda a mim, mais do que tudo?
 
Perplexos, pai e filho Lã Nister® ficaram de boca aberta, esperando a conclusão de Semvarys. O informante fez um certo suspense, enquanto pesava as palavras e, por fim, revelou o que lhe afligia:
 
– Sacanagem mesmo foi esse nome que o Meistre Mussum pôs em mim!
 
 
 
Continua em Festim de Cornos

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O Anarquista

Permitam que eu compartilhe com vocês uma cena pitoresca ocorrida neste último domingo.

Lá estava eu, na grande casa em Fraiburgo, acordando numa manhã silenciosa. Alias, todas as manhãs são silenciosas por lá, inclusive, a maior agitação que vi foi no ano passado, quando o Fluminense ganhou o título e houve uma carreata de três carros passeando pela cidade e fazendo um buzinaço.

 
Fui para a cozinha, preparei um café e me sentei à mesa (ahá! Acharam que eu ia escrever “na”?). Fiquei bebericando o café e escutando o que o silêncio tinha para me dizer. Foi aí que apareceu Nino, o gato conhecido como Canalha Amarelo.
 
Antes do Nino, eu não sabia que gatos também podiam ter a cara “amassada” por conta de horas ininterruptas de sono. Bem, foi com essa cara que o meliante adentrou no recinto. Primeiro, ele se dirigiu a um dos cantos da cozinha. Parou e deu um miado grunhido, assim, meio entrecortado, que eu só posso entender como um resmungo.
 
Depois, ele foi para o outro canto, sempre comigo o observando. Parou e deu mais um grunhido. Então, finalmente, se aproximou do potinho da água e parou bem perto dele.
 
“Vai beber, pobrezinho, deve estar com sede!” – eu pensei, já me recriminando por não ter trocado a água assim que acordei.
 
Então, Nino deu mais um grunhido, seguido por uma patada no pote, virando o mesmo e espalhando água pelo chão. Como se nada tivesse ocorrido, o gato resolveu imitar Jesus Cristo e se pôs a caminhar sobre a água, molhando as patinhas e seguindo viagem rumo à sala.
 
Eu fiquei lá, de xícara pousada na mesa e de boca aberta, vendo as pegadinhas de lama se formando e indicando o caminho que o Canalha Amarelo havia tomado.
 
Desde então, tenho tentado decifrar a atitude do rebelde sem causa, mas só cheguei a uma conclusão: Esse gato é um anarquista!Imagem

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Rio, centro…

Logo após cumprir todas as minhas obrigações relativas à execução de my old friend, restou-me um dia livre para passear pelo Rio de Janeiro.

Estávamos, eu e Lisa, hospedados no Hotel Íbis em frente à Praça Tiradentes, na região central da cidade. Durante o fim de tarde de domingo, ficou por conta da Lisa elaborar, com ajuda do Google Maps, nosso roteiro de passeios para o dia seguinte.

Antes, porém, minha com sorte cismou que deveríamos conhecer os agitos da noite carioca, uma vez que estávamos ao lado dos Arcos da Lapa, região onde a vida cultural fervilha.

Quem faz a fama, deita na cama – é o que mais ou menos diz o ditado. Pois, então, ao sair do hotel para irmos até uma casa noturna chamada “Scenarium”, eu estava num estado de alerta que parecia o Capitão Nascimento incorporando Chuck Norris!

Antes da viagem, ainda em Floripa, montei o meu “Kit Rio”. Foi uma ideia típica de gênio que consistiu em comprar uma carteira nova, pequena, discreta e de couro. Nela, pus minha carteira de motorista que serve como comprovante de CPF e de Identidade, um cartão de crédito e o dinheiro.

Enquanto que essa carteira discreta ficou camuflada em um bolso interno da calça, minha gigantesca, estufada e antiga carteira ficou no bolso tradicional, cheia de trocados e com alguns cartões de plástico muito valiosos, tais como o do Clube Angeloni. Complementando o disfarce, coloquei nela minha carteira de identidade do Pato Donald. Pronto: Kit Rio preparado para assaltos.

Qualé, rapaziada? Malandro é malandro, mané é mané… Quem disse que gaúchos não podem bancart os ishhpertos de quando em vez?

Bueno, então, voltando aonde eu estava. Aonde eu estava mesmo? Peraí, deixa eu ver…Ah, claro, estávamos indo para o tal Scenarium. Minha cabeça corria o risco de cair no chão, desatarraxada do pescoço, de tanto que eu a estava girando para todos os lados. Qualquer um que se aproximasse, pensava eu, era a deixa para uma luta corporal, o que permitiria que a Lisa escapasse na corrida.

(Super mouse o seu amigo, vai salvá-la do perigo…)

Felizmente, nada aconteceu nas três quadras que percorremos. Sim, essa era TODA a distância que nos separava do local  da festa!

Lá chegando, uma surpresa desagradável. O tal Scenarium devia (talvez ainda deve) ser um lugar da moda. Isso significava uma fila de pelo menos quarenta pessoas aguardando para entrar!

Toda a extensão da rua estava tomada por barzinhos e percebemos que, ao lado do local aonde queríamos ir, havia um outro, menos cheio, chamado Santo Scenarium. Foi um achado espetacular! Um casarão antigo, repleto de estátuas e quadros sacros. Ali, no meio desse ambiente santificado, rola o samba de raiz e você nem precisa ir muito longe para dar um golinho de sua cachaça preferida para o santo. Foi uma noite muito agradável.

No dia seguinte, Lisa pegou seu roteiro  googolizado e partimos para explorar as atrações do centro do Rio. Logo de saída, alguma quadras adiante, apareceu um escorredor de espaguete gigante.

“Olha, Sam! Aquela é a Catedral de São Sebastião. É considerado o prédio mais feio do Rio!”

Eu olhei aquilo e tive que concordar. Estava prestes a dizer algo como: “é um conjunto arquitetônico muito pesado e…”, só que Lisa cortou meus pensamentos com uma dessas perguntas afirmativas que as mulheres fazem quando na verdade não estão fazendo uma pergunta e sim dando uma ordem:

“Vamos lá conhecer?”

Ok. É o prédio mais feio do Rio, vamos lá conhecer… (e o passeio começava a se transformar numa aventura pelo País das Maravilhas).

Visto o interior da catedral, que até que nem era tão feio – apenas lúgubre e mal iluminado, chegou a hora da minha guia me levar para um outro ponto da cidade. E anda para lá, anda para cá, parecia que o Real Palácio de Literatura Portuguesa (ou alguma coisa assim) estava muito, muito longe. Tive a impressão que estávamos chegando em Niterói, quando a Lisa exclamou:

“Chegamos na praça!”

“Ufa!” – eu disse – “Caramba! Que longe! Em que praça estamos?”

“Na Praça Tiradentes!”

“Ah, bom, na Praça Tirad…” – Espere um minuto!

Sim, sim. É exatamente isso que vocês estão pensando. Minha guia imprimiu o mapa certo, apenas saímos andando para o lado errado.

Então, com o barco de volta à sua rota, fomos explorar o centro do Rio.

Eu tenho uma opinião sobre essa cidade tão cantada em prosa e verso: é a capital do país.

Não importa que lunáticos tenham inventado Brasília lá no meio do deserto. Não importa que São Paulo tenha poder econômico suficiente para colocar o Rio no bolsinho do colete. Tudo o que importa é que o coração do país pulsa nessa cidade e ela acaba refletindo o que há de melhor e o que há de pior no Brasil. Tudo junto, misturado, bem como somos em nossa essência.

Alias, lá estava eu, acho que no fim de tarde da segunda-feira, visitando os domínios de my old friend. Logo que entrei em território inimigo, fui para a sacada e fiquei olhando a paisagem e vendo a história que aquele cenário tinha para me contar.

Lá longe estava um morro cheio de barracos. Do outro lado, imponente no alto de uma montanha, uma igreja enorme, parecida com o Castelo de Greyskull. No meio do caminho, algum idiota estava construindo um prédio enorme, provavelmente um shopping, que, se continuasse a crescer, encobriria a vista daquela igreja deslumbrante.

Como que lendo meus pensamentos, o Senhor daquele espaço se materializou ao meu lado e começou a explicar:

“Ali é o Morro do Alemão. Desse outro lado, lá no alto, você pode ver a Igreja da Penha. Aquele shopping que está subindo ali é da Universal”.

Sabem, acho que da sacada de sua casa, my old friend pode ver claramente TUDO o que está acontecendo no Rio hoje em dia. É de arrepiar.

Ok, me perdi de novo, onde é que eu estava mesmo? Ah, sim! Eu e Lisa, na rota certa, chegamos ao centro propriamente dito.

Tinha de tudo lá. Casarões caindo aos pedaços ao lado de lojas que eu só costumo visitar em sonhos. Entramos em uma chamada O Lidador. Gente! Na placa estava escrito “Desde 1927”, ou algo antigo assim. É uma loja de bebidas e iguarias finas, daquele tipo que ainda tem as escadas para o vendedor subir e pegar o produto que você quiser lá do alto. Eu só tinha visto isso em novela de época.

O licor de Rosas italiano foi logo adquirido e, mesmo sem ter em estoque a tão procurada Angostura, a vendedora SABIA do que se tratava e até informou que vendera a última garrafa no mês passado.

Depois do Lidador, veio o Arlequim. Uma maldade, minha gente, uma maldade! Uma loja inteira de CDs e DVDs clássicos! Organizados por Diretor! Tinha o Fellini, o Kubrik… Tinha seções de Blues e Jazz. Minha única queixa foi não achar a prateleira do Sérgio Leone! Gronf…

Pausa para o almoço. Como é fácil achar um bom restaurante português que sirva um Bacalhau às Natas decente no centro do Rio. Pena que também se acha muita coisa que não deveria estar ali. Por exemplo: a visão do inferno.

Agora eu sei o que vai estar me esperando no inferno se eu não me comportar!  Foi numa das esquinas do centro do Rio que eu as vi. As três fúrias, ou melhor, as três gordonas de microshortinho, dançando funk de modo libidinoso, agarradas ao poste da esquina. Brrrr… Juro que vou me comportar bem e tentar ir para o céu!

Então, chegamos a Livraria da Travessa. Mais compras! Não pude resistir à “Platão e um Ornitorrinco Entram Num Bar…” – mas essa é outra história…

O Real Gabinete de Leitura Portuguesa (não, ainda não é assim…) foi um dos primeiros lugares que conhecemos na expedição, mas, por incompetência de minha parte, ficou aqui quase no final do email. Um lugar imponente e indispensável  como roteiro para turistas que são ávidos leitores. Tinha um povo lá, lendo esquecidos tomos de artes imemoriais e fazendo anotações enigmáticas. Quase pirei imaginando o que estavam tramando!

Também li em painéis espalhados pelo Gabinete alguma coisa que um tal Alexandre Herculano escreveu no século passado. Era sobre política. Bom, digamos apenas que Herculano está mais atual do que nunca.

De volta ao centro do Rio, foi a vez de descermos até as margens da Baia de Guanabara. Ok, estou ousando aqui, mas acho que aquele mar na nossa frente, com Niterói do outro lado DEVE ser a famosa Baia. Por ali, a visão mais empolgante ficou por conta de uma espécie de castelo na beira do mar. Estávamos perto do local onde se pegam as balsas para o outro lado e o tal castelo estava distante, à esquerda.

Infelizmente, nem o São Google nos ajudou a descobrir que raio era aquilo. Pior que estava inacessível para uma visita (naquela altura da caminhada, qualquer coisa além de duzentos metros estava longe demais).

Na volta para o hotel, encontramos o Escritório do Pixinguinha! Um bar, claro, com uma estátua homenageando o compositor. Fotos, fotos, claro.

Ah! Falando em fotos, quero fazer uma denúncia: Lisa perdeu uma foto histórica!

Lá estava eu, posando ao lado da vitrine da Confeitaria Colombo, esperando Lisa tirar uma foto. Nisso, passou por mim um senhor, óculos de aro redondo, barbona castanha meio encaracolada…

Comecei a acenar para a Lisa, querendo dizer: “Rápido, rápido, tire uma foto!”

Cheguei a dar uns passos para o lado, tentando seguir o barbudo, mas Lisa não se tocou. E, assim, perdeu-se a foto histórica mostrando o encontro casual de Samael com Machado de Assis, ambos ao lado da Confeitaria Colombo!

Por fim, passamos por uma mulher vendendo um determinado tipo de fruta numa banquinha. Eu comentei com a Lisa:

“Essa daí sim que é a legítima MULHER-PERA!”

“Sam, do que você está falando?”

“Ora, da mulher vendendo peras ali atrás…”

“Aquilo são goiabas.”

“Bah! Não seja absurda!”

Falei as palavras erradas e fiz a Lisa empacar.

“Vamos voltar!”

Topei a parada e resolvi apostar:

“Vale um capuccino. Vamos lá ver as peras da mulher!”

Gente, eu devia ter suspeitado desde o princípio que, pelo aspecto, a vendedora não podia ser a Mulher-Pera. O diálogo que se seguiu foi mais ou menos assim:

“Boa tarde, minha senhora. Que frutas são essas?”

A mulher me olhou com uma cara que só faltou me perguntar em voz alta onde eu havia pousado do disco-voador:

“São goiabas.”

Depois dessa, só me restou juntar a bagagem no hotel e abandonar a Cidade Maravilhosa. Porém, como diz o Anonymous Gourmet lá da minha terra, uma coisa eu posso garantir:

“Voltaremos!”

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