Lavando a alma

A cena inicial mostra um plebeu buscando abrigo da chuva que cai torrencialmente. Para se abrigar, o Plebeu se dirige a um templo em ruínas.
 
Lá dentro, já se encontram dois homens: o Lenhador e o Sacerdote.
 
LENHADOR: Não entendo… Simplesmente não entendo. (pausa) Não entendo em absoluto. Simplesmente não entendo.
PLEBEU: O que se passa? O que é que você não entende?
LENHADOR: Nunca ouvi uma história tão estranha.
PLEBEU: Porque não me fala sobre ela? (voltando-se para o outro homem) Parece que temos um sábio sacerdote entre nós.
SACERDOTE: Não, nem mesmo o famoso e sábio sacerdote do templo Kiyomizu ouviu uma história tão estranha como esta.
PLEBEU: Então você sabe algo sobre esta estranha história?
SACERDOTE: Este homem e eu vimos e ouvimos por nós mesmos.
PLEBEU: Onde? 
SACERDOTE: No jardim do tribunal.
PLEBEU: O tribunal?
SACERDOTE: Um homem foi assassinado.
PLEBEU: Só um? E então? Perto desta porta, você encontrará pelo menos cinco ou seis corpos  não reclamados.
SACERDOTE: Tem razão. Guerra, terremotos, vendavais. Fogo, fome, a praga… ano após ano, não se vê outra coisa a não ser desastres.
SACERDOTE: E os bandidos nos atacam toda noite. Eu vi tantos homens sendo mortos como insetos, mas jamais havia ouvido uma história tão horrível quanto esta.
SACERDOTE: Sim. Tão horrível. Agora, posso finalmente perder minha fé na alma humana.
SACERDOTE: É pior do que os bandidos, a praga, a fome, o fogo ou a guerra…
PLEBEU: Olhe aqui, sacerdote. Chega com esse sermão! Estava interessante, pelo menos enquanto eu me resguardava da chuva. Mas se é um sermão, prefiro escutar a chuva.
 
O Plebeu arranca algumas madeiras do Templo e começa a preparar uma fogueira para se aquecer. O Lenhador se aproxima:
 
LENHADOR: Escute-me. Talvez você possa me dizer o que significa. Não entendo nenhuma das três.
PLEBEU: Que três?
LENHADOR: Bem… l
he contarei algo sobre elas.
PLEBEU: Acalme-se e conte-me sem pressa. A chuva não vai parar por agora…
 
A câmera mostra novamente uma tomada externa do templo em ruínas. Uma placa caída indica o nome do lugar: RASHÔMON.
 
 
Hola, pessoal!
 
Definitivamente, 1950 foi um ano mágico na história do cinema. Enquanto que Hollywood produzia clássicos como "Crepúsculo dos Deuses" e "A Malvada", do outro lado do mundo um diretor chamado Akira Kurosawa também utilizava todos os recursos cinematográficos a sua disposição para expor e esmiuçar a alma humana.
 
Rashômon é um filme que conta uma mesma história quatro vezes. Porém, nunca parece ser a mesma história, pois cada narrador a conta de um modo diferente, de acordo com seus interesses. A ruína do templo, a chuva que cai sem parar, tudo isso é simbólico, serve para refletir externamente a decadência da qual tomamos conhecimento ao escutarmos o Bandido, a Esposa e o Samurai. Esses são os três personagens que contam suas respectivas versões sobre uma tragédia ocorrida no meio da floresta.
 
Cada um deles é filmado de frente, contando o que aconteceu para juízes "invisíveis". Não se escuta a voz das perguntas feitas pelos "juízes". Na verdade, cada um dos envolvidos parece estar contando o que aconteceu diretamente para a câmera, se bem que eles nunca chegam a olhar diretamente para ela. Parece querer evitar o contato "olho no olho" com aquela câmera que…
 
< Samael para e pensa sobre o que está acontecendo. Seu poderoso cérebro raciocina um pouco e ele quase grita quando percebe que, na verdade, o juiz do tribunal é… ELE MESMO! >
 
 
Bom, ao fundo dos dois quadros, vocês podem perceber o Lenhador e o Sacerdote testemunhando tudo. Resta pouco a dizer sobre o filme, mas quero acrescentar que poucas vezes um final de história mexeu tanto assim comigo. É um final que me remeteu diretamente ao Livro O Senhor das Moscas, pois no fundo, Rashomon e esse livro de William Golding abordam o mesmo tema. As duas obras são um manifesto desesperado de amor pela humanidade. Nós temos escolha! Existe esperança! Ou acreditamos nisso ou trilhamos o caminho que nos levará de encontro ao Senhor das Moscas.
 
Numa época triste como essa, onde todos os Grandes parecem estar partindo e onde o que mais se prolifera no mundo tem um cheiro horrível de podridão e decadência, numa época assim, assistir Rashômon foi como lavar minha alma.
 

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1 comentário

Arquivado em Entretenimento

Uma resposta para “Lavando a alma

  1. Unknown

    foi para minha lista de "quero assistir" :o)aaaaaah, o aviso que mandou pra lista chegou bem na hora que estava atualizando o blogmark lá do batata: isso que é timing!!

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