O Conto Perdido

Hola, Pessoal!
 
Boas novas! Boas novas! Boas novas! Boas novas! Boas novas! Boas novas!
 
A arqueóloga Lisa Balsini localizou o meu Conto Perdido!
 
Para quem não sabe, esse conto era talvez a história mais polêmica que eu já escrevi na vida, envolvendo alguns personagens de uma lista de fãs da Agatha.
 
Agora que o precioso conto voltou as minhas mãos, aproveitei para fazer uma revisão completa nele (suspiraram de alívio, hein? 😉 ) e tenho o prazer imenso de apresentá-lo.
 
Trata-se de um conto de três capítulos. Após terminar de ler o segundo capítulo, quem quiser bancar o detetive deve parar de ler e tentar responder para si mesmo: "qual vai ser o final da história?". Quem descobrir, pode considerar que me derrotou! 😉
 
Bom divertimento para todos!
 
Abraços;
Samael
 
P.S. – quem gostar da história, por favor escreva dizendo que adorou!
P.P.S. – quem não gostar da história, por favor, escreva um e-mail dizendo que adorou!
P.P.P.S. – para quem nem vai ler o conto, um recado na secretaria-eletrônica: "Seven Days"
 

 

A Garota Sem Nome
um conto de Samael Darcangelo
 
 
Lista dos Personagens:
 
Samael – o leonino.
Strix – a irmã emotiva.
May – a irmã fria e racionalista.
Dr. Tiago Hastings – o velho psiquiatra.
Garota Sem Nome – todo homem sabe quem ela é, muito embora ela nunca possa ser exatamente descrita. Para Poe, ela se chamava Lenore. Para o Flávio Dickson, ela tem olhos cinzentos. Para uns, ela nasceu em uma ilha, para outros, ela fala estoniano. Enfim, o que mais importa na Garota Sem Nome é que ela existe.
 
 
Capítulo Um – O Insano
 
O céu estava nublado. Pesadas nuvens deixavam a paisagem com um ar plúmbeo. As condições do tempo refletiam perfeitamente as aflições que estavam atormentando a mulher que olhava pela janela. Ela não tinha mais do que quarenta anos, embora poucos dissessem que tinha menos que isso. Seu corpo era esbelto, cabelos e olhos castanhos, cerca de 1.70m de altura e o vestido rosa que ela usava valorizava imensamente suas curvas naturais. Enquanto ela estava ali, fitando a casa alaranjada a poucas dezenas de metros de distância, um pensamento mal formado veio à sua mente:
 
“Será que estamos agindo corretamente?”
 
Não! Ela não podia pensar assim! Ela era Strix Darcangelo e não se deixaria levar pela dúvida. Decidida, Strix dirigiu o seu olhar para dentro da mansão. Procurou focalizar sua mente nos detalhes da ampla sala onde estava. Reparou nos livros empoeirados na estante, reparou nas cortinas puídas e nas manchas amarelas que estavam aparecendo no teto. Olhou também para suas mãos e se perguntou mentalmente: “Há quanto tempo eu não vou a um salão de beleza decente?”. Imbuída de uma nova determinação, Strix afastou as nuvens cinzentas da dúvida que tentavam cobrir sua mente.
 
“Sim! Aquilo era necessário! Necessário antes que a decadência se tornasse um destino inevitável. May estava certa!”
 
Aliás, lá estava May! Sentada na poltrona em frente ao Dr. Tiago Hastings, falando e assumindo o controle da situação. Strix recordou como sua irmã era inteligente, eternamente racional. Algumas pessoas julgavam que May era apenas uma balzaquiana fria, mas esse não era o pensamento de sua irmã. Para Strix, May era a garantia do pensamento lógico, a garantia de que havia uma saída para as cortinas puídas e para a poeira nos móveis.
 
“É melhor eu prestar atenção naquilo que minha irmã está dizendo. Preciso colaborar!”
 
May Darcangelo era dois anos mais jovem que Strix, porém seu olhar era muito mais penetrante. O verde de seus olhos parecia aumentar enquanto ela falava. A única demonstração de que a bela mulher estava nervosa era o constante ajeitar de uma mecha de cabelos castanhos, que volta e meia insistia em cair sobre seus olhos amendoados.


Ela falava com um velho amigo da família Darcangelo, o sexagenário Dr. Tiago Hastings, um psiquiatra da cidade grande.
 
– Mais uma vez, devo agradecer por sua visita, Dr. Hastings. Gostaria que os fatos fossem diferentes, mas infelizmente a realidade é uma só. Meu pobre irmão não anda bem. Ele está ficando insano!

O velho psiquiatra acomodou-se na poltrona e ajeitou seus óculos. Olhou por sobre as lentes para May e então respondeu:
 
– Minha querida! A Psiquiatria é um ramo da Medicina muito complexo. Para um leigo, às vezes é fácil confundir sintomas que são apenas stress e cansaço com algum tipo de insanidade. Diga-me, o que a leva a crer que o seu irmão esteja enlouquecendo?

Strix intrometeu-se na conversa, falando apressadamente:
 
– Tudo começou alguns meses atrás, doutor! Sempre tivemos um padrão de vida elevado e vivíamos bem e felizes nesta casa. Como o senhor sabe, Samael cuida dos negócios que eram de nosso pai e nunca deixou faltar nada por aqui. No entanto, de uma hora para outra, ele começou a dispensar os criados! Veja os móveis como estão! E não parou por ai! Ele começou a vender os carros! Imagine que estamos reduzidos a uma simples BMW preta. Nós tentamos avisá-lo que ele estava enlouquecendo e…

May fulminou a irmã com um severo olhar e a interrompeu:
 
– Você está muito exaltada, Strix. Acalme-se e deixe que eu termino a explicação.
 
Voltando-se novamente para o Dr. Hastings, May continuou a narrar os fatos:
– O senhor é amigo de Samael há anos. Sabe como nosso irmão sempre foi estranho. Aquelas manias de cheirar sempre as últimas páginas de livros, jornais e revistas. Aquele hábito de agitar garrafas de uísque no escuro, jurando que um dia alguma delas vai brilhar! Aquela fobia que ele sente de livros muito grossos… enfim, o senhor sabe que ele sempre foi cheio dessas esquisitices!
 
O Dr. Hastings comentou:
– Sim, eu já conhecia essas manias, mas…

– Sim! Eu sei o que o senhor vai dizer, doutor. O problema é que de uns tempos para cá, mais precisamente desde que completou seu quadragésimo aniversário, Samael tem piorado. Esse pão-durismo repentino e absurdo do qual a May estava falando! Lembre-se de que ele é o dono da maior empresa exportadora de café aqui de Barbacena! Mesmo assim, ele dispensou nossos criados, vendeu os carros e só fala em economia, como se tivesse descoberto agora, na idade do lobo, o significado dessa palavra!

May retomou o fôlego e continuou:

– Há três semanas começou o que eu e minha irmã consideramos o mais grave de tudo. Ele está tendo alucinações!

O Dr. Hastings moveu-se mais para a beira da poltrona e exclamou:

– Alucinações! Como assim? Descreva-as!

Strix escondeu o rosto entre as mãos, visivelmente abalada. May atendeu o pedido do doutor:
 
– Em uma de suas sandices econômicas, meu irmão colocou a casa laranja ao lado da nossa mansão para alugar. Um mês atrás, uma jovem estudante se mudou para lá. Sabe como é, uma garota da capital que veio tentar o Vestibular por aqui. Ela não tem mais do que dezessete anos. O senhor entende? Na primeira semana, ela promoveu algumas festinhas com amigas, coisas de jovens, nada que nos incomodasse. Pude notar que ela passa a maior parte do dia estudando…
"Só que meu irmão começou a dizer que a garota, que ele apelidou de Garota Sem Nome, estava flertando com ele! Ocorre que a janela do quarto dele dá vista exatamente para a casa laranja! Ele disse que ao ler na sacada de seu quarto, via essa garota lançando olhares para ele. O tonto chegou a comprar flores! E foi bater na porta da casa dela, mas ela sequer o atendeu, claro!"
– Trata-se de uma moça muito honesta e bem-educada! – afirmou Strix – e é uma grande bobagem meu irmão ficar chamando-a de Garota Sem NOme. Bastaria olhar no contrato de aluguel da casa para saber que ela se chama…
 
– Querida, Strix! – esbravejou May – se você ficar me interrompendo para contar detalhes inúteis, eu jamais conseguirei colocar o doutor a par dos fatos essenciais!
 
Strix calou-se, baixando os olhos. May continuou sua narrativa:
 
– Então, tudo ficou pior. Samael passou a afirmar que a "Garota Sem Nome" dançava envolta em véus pelos campos de nossa propriedade! Sempre à noite! Ele passou a chegar em casa do trabalho e praticamente trancar-se no quarto, imediatamente. Imagine que um dia ele chegou em casa com um potente binóculos! E equipado com visão noturna, ainda por cima!
 
"E o pior de tudo! Agora, nesta última semana, ele está dizendo que a tal Garota Sem Nome está aparecendo no seu quarto para fazer a tal Dança do Ventre! Doutor… ele realmente está louco!"

O psiquiatra estava pensativo. Os fatos narrados eram graves. Ele perguntou:

– Onde está Samael, agora? Tenho que examiná-lo. Realmente, alucinações desse tipo podem requerer tratamento urgente.

May respondeu, levantando-se:
 
– É exatamente isso que queremos, doutor! Curar nosso irmão! E também salvar o patrimônio de nossa família. Se ele não estiver em condições de continuar dirigindo as empresas… bem, eu e minha irmã teremos que assumir tudo enquanto ele se recupera!

– Certamente, minha cara! Certamente! Mas deixem-me ver Samael e fazer uma avaliação de seu quadro clínico.
 
Strix indicou, de modo triste:

– Vamos subir ao segundo andar. Nesta hora, ele já está trancado no quarto, como de costume…

Enquanto subiam, May teve um acesso horrível de tosse. O clima estava tenso.

 

Capítulo Dois – A Serpente Que Dança
 
Alheio ao teor da conversa que estava sendo mantida no andar de baixo, Samael espreguiçava-se diante do espelho. Ele havia acabado de sair do banho e vestia apenas a calça de seu pijama e um par de chinelos de pano. Depois de examinar bem a sua aparência, vagou pelo quarto e deu duas voltas na fechadura da porta. Estava quase na hora do crepúsculo e em breve ele sabia que iria haver ação.

Ele ajeitou seus cabelos castanhos em frente ao espelho, notando através de seus olhos negros, com prazer, que a beleza de antigamente ainda não havia abandonado seu corpo leonino.
 
Seus pensamentos eram indagatórios:
 
“Por que ele nunca havia se casado?”
 
“Talvez porque eu nunca encontrei a mulher certa” – pensou Samael, respondendo a sua própria questão e rindo muito da resposta clichê.
 
“Alias, minhas irmãs também parecem não ter tido sucesso em suas buscas.” – acrescentou Samael, deliciando-se com tal pensamento malicioso.
 
Ele olhava para a imensa cama de casal na qual dormia sozinho. Ficou imerso em seus pensamentos por mais algum tempo. Então sentiu um suave sopro em sua nuca. Virou-se rapidamente! Lá estava ela, entre ele e a porta para a sacada, sorrindo como sempre.

Sem dúvida, era uma bela garota. Seu corpo esguio exalava um aroma delicioso, instigante. Era como se fosse um convite para Samael: “Venha! Venha!”
Ela não dizia nada. Não, a Garota Sem Nome nunca havia pronunciado sequer uma palavra. Naquela noite, Samael notou que além de estar envolta em véus laranjas, a garota trazia consigo uma écharpe azul. Os pés bem torneados da bela estavam descalços. Samael olhou fascinado para a correntinha que a garota usava no tornozelo esquerdo. Reparou nisso enquanto ela erguia a perna até a altura do peito dele e o empurrava para a cama.

Ele ficou olhando extasiado, enquanto a Garota Sem Nome dançava sensualmente para ele. Normalmente, a garota evitava qualquer tentativa de aproximação maior por parte de Samael. Aliás, em certa ocasião, na qual ele havia decidido se aproximar a qualquer custo, uma lata de spray de pimenta imediatamente apontada na direção de seus olhos o havia convencido a manter desde então uma distância regulamentar imposta pela Garota Sem Nome. Ele podia olhar, ele devia olhar, mas não podia tocar.
 
Normalmente, a dança acabava com a garota lhe vendando os olhos com um pano de seda negro e desaparecendo logo a seguir. Porém, dava para perceber que dessa vez seria diferente. A Garota Sem Nome se aproximou dele, colocou-lhe a venda nos olhos e desta vez amarrou uma de suas mãos na cabeceira da cama com a écharpe. Aquilo era uma novidade! E mais novidades estavam reservadas para aquela noite. Antes que desse por si, Samael percebeu que toda a roupa que estava vestindo já havia sido subtraída de seu corpo.
 
"E agora? O que vai ser?" – pensou Samael.
 
O silêncio foi sua resposta. Após ter tirado as roupas do leonino, a Garota Sem Nome havia se afastado e Samael não conseguia escutar mais nada. Instantes depois, ele ouviu um clique, algo suave, algo como o girar de uma chave. Ouviu vozes, vozes cada vez mais próximas… sentiu que a porta do seu quarto estava sendo aberta e…
 
– AAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
 
Foi Strix quem gritou, horrorizada.

O Dr. Hastings e May adiantaram-se para dentro do quarto. Lá estava Samael, deitado em sua cama, com uma das mãos envolta em uma echarpe azul e vestido com a roupa com a qual viera ao mundo. May berrou:
 
– O que é isso?
 
Tirando a venda de seus olhos e se desvencilhando da écharpe azul, Samael respondeu, confuso:
 
– Onde ela está? Onde ela foi?

O Dr. Hastings encontrou a calça de pijama de Samael caída aos pés da cama e a arremessou para ele, dizendo:

– Calma! Calma, amigo! Não tem ninguém aqui além de nós. Você teve apenas uma alucinação. Coloque logo essa calça e recomponha-se!

Samael vestiu o pijama rapidamente e começou a caminhar de um lado para outro, agitado.

– Não! Não! Ela estava aqui agora mesmo! Ela! A garota da casa laranja! A Garota Sem Nome!

– Samael! Me escute! Não tem ninguém aqui! Você teve apenas uma alucinação! E eu já lhe disse mil vezes que aquela garota tem um nome! Ela se chama…

– Como? – interrompeu, samael, sem prestar a mínima atenção no que May lhe dizia – como vocês entraram aqui? A porta estava trancada!

O Dr. Hastings manteve-se firme e impassível. Longos anos como psiquiatra mostravam a ele qual a atitude correta a adotar:
 
– A porta estava fechada, mas não trancada, Samael.

– Então ela passou por vocês! Ela… a garota…
 
– Ninguém passou por nós no corredor.
Samael titubeava. Correu para a porta que dava acesso à sacada, mas descobriu que estava fechada por dentro. Correu de volta e olhou embaixo da cama, mas não havia ninguém escondido lá. Por fim, sentou-se com a cabeça entre as mãos, dizendo:
– …mas eu vi… ela estava aqui… eu… eu…

O Dr. Hastings sentou-se ao lado do amigo e o consolou:
 
– Tenha calma! Ninguém está livre desse tipo de problema, meu amigo! Você precisa de uma clínica e de repouso adequado! Preferencialmente, longe daqui! Venha! Coloque-se sob meus cuidados e eu garanto que você vai ficar bom!

Apenas May e o doutor acompanharam a busca que Samael realizou no recinto. Logo após ter gritado, Strix saiu correndo do quarto. Somente agora, ela retornava, chorando muito. May a abraçou com força, murmurando:

– Coragem… coragem… falta pouco agora…

Samael levantou-se, dizendo:

– Você está certo, doutor! Eu… eu não sei o que está acontecendo comigo, mas isso não pode continuar assim. Estou em suas mãos!

O Dr. Hastings segurou o amigo pelo ombro e disse:
 
– O melhor é retirá-lo daqui o quanto antes. Eu o espero lá embaixo, pois vamos partir para a clínica de repouso agora mesmo.

May soltou Strix e agiu de modo prático, como sempre:

– Coragem, mano! Você está coberto de suor! Tome outro banho para se recompor enquanto eu preparo suas roupas.
 
Ao ouvir isso, Samael lembrou-se de algo:
 
– O closet! Eu não procurei no closet! Talvez ela esteja…
 
May  conteve o movimento de Samael, berrando e ameaçando esbofetear o irmão:

– Não tem nenhuma garota aqui! Nunca teve! Você está tendo alucinações! Pare com isso!

Samael voltou a baixar a cabeça, concordando com a irmã. Só lhe restava aceitar os fatos.
 
 
 

Capítulo Três – Cria Cuervos
 
Samael já estava dentro do carro do Dr. Hastings. Strix derramava ainda algumas lágrimas. O psiquiatra, antes de entrar no veículo, voltou por um momento até a porta de entrada da Mansão Darcangelo e falou com May:
 
– Não se preocupe! Vamos afastá-lo de tudo o que pode estar causando seu problema. Entenda apenas que o tratamento pode ser longo e complexo. Acho que vou transferi-lo imediatamente para fora do Brasil, para a clínica que tenho em Londres. Lá, ele terá mais condições de se recuperar.

May esboçou um sorriso:

– Não poupe despesas para curá-lo, doutor! Acho que um tempo fora do Brasil será mesmo o melhor para ele. Mas… e quanto aos negócios?
– Samael está visivelmente perturbado demais para continuar gerenciando qualquer tipo de negócio. Vou conversar com ele para que assine amanhã mesmo os documentos necessários para abdicar de sua parte na empresa, passando o controle total para vocês duas. Por favor, entrem em contato imediato com seus advogados para preparar toda a papelada necessária…

Os olhos de May brilharam, mais verdes do que nunca. Ela respondeu:
 
– Já me antecipei ao senhor, doutor. Falei com nossos advogados na semana passada e já tenho aqui comigo toda a documentação necessária. Basta que Samael assine esses papéis. Posso lhe garantir que eu e Strix estamos preparadas para assumir essa responsabilidade! Tudo ficará bem, Dr. Hastings! Por favor, faça com que meu irmão assine a documentação agora mesmo! Não há mais tempo a perder!
 
O doutor apanhou os papéis que May lhe estendeu e entrou no carro onde estava Samael. Quinze minutos depois, os papéis estavam assinados e os negócios da família estavam agora totalmente em poder das duas irmãs.
 
***

Cinco minutos depois da partida do doutor e do seu novo paciente, May e Strix estavam de volta ao quarto de Samael. Elas não haviam trocado uma palavra até aquele instante. May abriu a porta do closet de Samael.
 
A Garota Sem Nome saiu lá de dentro, exclamando:
 
– Ele quase me procurou aqui!

May olhava para a garota como alguém da alta sociedade olharia para uma dançarina de bar. Havia um certo desprezo em sua voz, quando respondeu:
 
– Você cronometrou tudo muito bem e agiu rapidamente assim que me ouviu tossir nas escadas. Eu não deixaria ele procurar no closet de modo algum. Enfim! Tudo deu certo. Tome! Pegue aqui o seu pagamento e lembre-se de desaparecer desta cidade. Que eu nunca mais veja você por aqui!

A Garota Sem Nome recebeu um cheque no valor de R$ 10.000,00. Era exatamente essa a quantia combinada como a última parte do pagamento por aquele serviço que ela vinha fazendo. A garota guardou o cheque e saiu da casa rapidamente, corada de vergonha.
 
A sempre sonhadora Strix, reclamou com sua irmã:

– Você a tratou muito mal! A pobre criança precisa desse dinheiro para estudar e…
 
– Strix! Minha boa e ingênua irmã! Agora nós estamos no comando da situação, não percebe? Chega do racionamento daquele maluco! Ele que cure suas loucuras longe daqui! Agora nós temos coisas mais importantes para decidir: quais carros vamos comprar? Quantos criados vamos recontratar? Decoração nova! Salão de Beleza! E festas! Muitas festas! Como sinto falta das festas que havia nessa casa!
 
Strix animou-se. Enfim, tudo havia dado certo.
 
– Seu plano foi mesmo brilhante, Mayzinha! Contratar aquela pequena estudante, fazendo-a alugar a casa em frente ao quarto do Samael! E as danças para atrair a atenção de nosso irmão galinha? A garota realmente sabia dançar muito bem a tal Dança do Ventre!
 
May, orgulhosa e sem falsas modéstias, respondeu:
 
– Você também foi muito útil, escondendo sempre a escada pela qual a garota subia para entrar no quarto de Samael pela sacada. Aliás, quando você berrou daquele jeito histérico eu até fiquei com medo que você tivesse esquecido de fazer sua parte hoje!
 
– Ora! Você nunca confia em mim! Confesso que fiquei chocada ao ver nosso irmão sem roupas. Mas logo a seguir saí correndo do quarto, removi e escondi a escada que a garota havia usado para subir até a sacada!
 
May acariciou o cabelo da sua irmã e disse, entusiasmada:
 
– Muito bem, Flipper! Mas o mais importante mesmo, assim que percebemos que Samael estava ficando louco, era fazer com que ele se convencesse disso rapidamente! E o nosso pequeno estratagema funcionou perfeitamente. Agora, nosso irmão vai ter o tratamento adequado para suas loucuras e nós podemos voltar a ter o padrão de vida que merecemos.

De um modo malicioso, May acrescentou:
– Ele sempre se gabou de ser o “leonino esperto”. Papai sequer nos colocou na presidência junto com ele, nos relegando ao segundo plano. Bem… agora todo o patrimônio da família está em nossas mãos e Samael depende de nossa boa vontade para continuar seu tratamento! Quem é mais esperto agora? Ele ou nós?

***

No dia seguinte, a Garota Sem Nome já havia abandonado a casa laranja. Ela caminhava a pé até os limites da cidade. A paisagem de Barbacena, cheia de campos e bosques, era magnífica. Um verdadeiro cenário de sonhos. Ela reparou em um enorme plátano perto de uma curva da estrada. Uma sombra seria adequada agora, pois a sua mochila já estava ficando pesada.
 
O céu estava lindo, sem nuvens, com pássaros voando livres pelo ar. Naquele momento, amparada pela sombra da árvore, a Garota Sem Nome queria tudo, menos pensar no que havia feito. Agora ela tinha o dinheiro que antes lhe faltava para iniciar seus estudos. Tudo pelo sonho de uma vida melhor do que aquele inferno que ela conhecera até então. Ela deveria estar feliz, no entanto, a sensação de culpa parecia crescer a cada instante. A culpa crescia como uma sombra… aliás, era exatamente uma sombra que crescia na relva que a garota estava fitando. A sombra de alguém se aproximando dela naquele exato instante… a sombra de…

– Samael!
A garota gritou aquele nome com um misto de surpresa e medo na voz. Ali estava ele, vestido em um elegante terno preto, olhando para ela com olhos negros e brilhantes. O leonino ser falou em tom jovial:
 
– Então, finalmente tenho o prazer de escutar a tua voz.
 
A garota estava confusa:
 
– Você… você fugiu do sanatório? Como? Como você me localizou? Você…
 
Um medo repentino se apoderou da Garota Sem Nome. Ela esboçou um gesto como se fosse começar a correr, mas Samael rapidamente colocou uma das mãos no bolso do terno e disse:
 
– Nem tente!
Apavorada, a garota ficou imóvel, olhando para ele. Dessa vez, ela o fitava nos olhos, buscando alguma informação sobre o destino que a aguardava, mas logo a vergonha do que havia feito tomou conta do seu ser e ela baixou novamente a cabeça. Samael ordenou:
– Venha! Volte a sentar aqui na sombra dessa árvore. Tenho uma historinha para te contar:
“Meus negócios na companhia exportadora de café não iam bem. A crise no setor é enorme e eu vi, pela primeira vez na vida, que havia possibilidade da nossa fortuna acabar. Tive que tomar medidas drásticas. Vender patrimônio e fazer um severo racionamento na mansão, buscando economizar o máximo possível para salvar a empresa”.
 
“Acima de tudo, havia minha responsabilidade para com minhas irmãs. Eu não podia falhar ante os olhos delas. Como contar que estávamos correndo perigo de ficarmos sem nada? Então, para minha grande decepção, elas começaram com aquelas insinuações sobre minha sanidade mental. Fiquei magoado e resolvi só contar sobre o que estava ocorrendo assim que tudo estivesse resolvido”.
 
“Tão logo você apareceu, eu vi que era obra delas. Um golpe sujo para alegar que eu estava insano! Ah! Malditas! Eu me matando para salvar a empresa e elas tramando algo contra mim! E algo ridículo e sem cabimento, ainda por cima! Desde quando eu me deixaria enrolar por um plano desses? Só mesmo se eu estivesse louco de verdade! Elas devem me achar um tipo muito estúpido para cair em um conto do vigário como esse!"
 
Com um olhar altivo, indicando a presença de um ego enorme, Samael continuou:
 
– Decidi que, por tamanha ousadia, elas mereciam uma lição. Uma grande e inesquecível lição!
 
"Eu fingi entrar no jogo delas. Comprei um binóculos e até levei flores para você, fingindo ter virado um admirador sem juízo. Enquanto isso, preparei meu esquema. Eu sabia que logo elas iriam procurar meu velho amigo, o Dr. Hastings, para que ele corroborasse a história da minha loucura. Por isso mesmo, já deixei-o preparado…”
 
Pela primeira vez, a Garota Sem Nome interrompeu a narrativa de Samael:
 
– O doutor? Ele está envolvido nisso?
 
Samael sorriu:
– Não é só você que tem um preço, garota. Tiago exigiu uma boa quantia para “acreditar” na minha insanidade. Ele também providenciou os papéis da minha suposta transferência para a clínica no exterior. Os advogados da empresa também vieram me avisar que May havia mandado preparar papéis cujo teor literalmente transferia todos os bens da família para ela e Strix. Pedi que levassem atendessem o pedido de minha irmã, com urgência… e pedi também que me ajudassem a realizar algumas transferências ilegais de fundos. Advogados também tem o seu preço… bom, disso todo mundo sabe.

“Eu já estava esperando por alguma aparição especial sua quando Hastings viesse visitar minhas irmãs na hora marcada por May. A senhorita dança admiravelmente bem, se me permite o elogio… e foi um grande prazer me deixar "enlouquecer" por você.”
 
Samael estava sorrindo. A Garota Sem Nome estava corada.
 
– Você já pode imaginar o resto, não? Ao invés de tentar capitalizar a empresa, desviei todas as suas verbas restantes para uma conta que tenho na Suíça. Deste modo, daqui a alguns dias, quando minhas doces irmãs assumirem os negócios, encontrarão apenas uma companhia falida e cheia de dívidas. Quando isso ocorrer, eu e mais alguns poucos milhões de dólares vamos estar muito bem instalados em algum paraíso fiscal.

Samael ria alto, se divertindo ao imaginar a cara das irmãs. A Garota Sem Nome ergueu-se, sentindo-se de certo modo aliviada com aquela nova situação.
– Você… você é maquiavélico! O teu plano foi perfeito, mas… porque você veio ao meu encontro? Você… vai… me matar?
Samael, ainda com a mão no bolso, aproximou-se da garota e falou em um tom suave:

– Você nunca olhou nos meus olhos de verdade. Se tivesse feito isso em algum momento, teria visto o quanto você realmente me envolveu com a sua dança. Porém… você ainda é jovem demais para perceber esses detalhes. É como se você fosse um sonho bom para mim. Mas eu percebo que jamais daria certo tentar transformar esse sonho numa realidade…
 
"Todavia, isso não me impede de te dar um presente de despedida…"
 
Com um gesto teatral, Samael retirou a mão do bolso, estendeu-a e entregou para A Garota Sem Nome uma apólice ao portador. O valor da apólice era dez vezes maior do que a quantia que ela cobrara das irmãs Darcangelo.
 
– Rasgue o cheque que você recebeu da minha irmã! Muito embora nem mesmo ela saiba disso, esse cheque é tão frio quanto um cubo de gelo.
 
Samael começou a se afastar do local. Nada mais foi dito. Um tardio rolo de capim passou pelo cenário enquanto a Garota Sem Nome derramava lágrimas de emoção, observando aquele leonino exótico que desaparecia em uma curva da estrada.
 
 
***
 
Alguns dias mais tarde, estamos na sala da diretoria da Cia. Darcangelo Exportadora de Café Ltda.
 
As novas responsáveis pela companhia, srta. Strix e srta. May, acabaram de tomar conhecimento da contabilidade da empresa.
 
Strix encontra-se desmaiada no chão, onde caiu dura tão logo escutou as palavras "falência imediata" e "miséria absoluta". Enquanto tentam reanimá-la, May grita histericamente, com a razão abandonando sua mente na velocidade do som:

– NÃÃO!!!! NÃÃÃÃÃÃOOOOOO!!!!! NÃÃÃÃÃOOOOOOOOO!!!!!!
 

*** FIM ***
 
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