XII Fenavinho

Desde o dia 28 de janeiro até o próximo dia 11 de fevereiro, está ocorrendo aqui na minha cidade a décima segunda edição da Festa Nacional do Vinho – FENAVINHO. A última vez em que ocorreu tal festa foi em 2000, quando misturaram a Fenavinho com a ExpoBento. Enfim, uma série de estandes com diversas empresas locais que apresentam os seus produtos. Enfim, nada demais.
 
Foi por isso mesmo que eu nem dei muita bola para a festa deste ano. E este foi um erro lamentável. Se eu soubesse a reformulação que prepararam para a XII Fenavinho, teria convidado todo mundo, ou melhor, intimado todo mundo do mitatório para vir para cá. Garanto que melhor opção do que essa para se livrar do modorrento Carnaval, não há. Deixem-me contar como foi minha experiência na visita ao Parque da Fenavinho para ver se consigo convencê-los.
 
Levei as tias (duas) e mais a Pi (minha mãe) para visitar a festa na sexta-feira à noite. Era início de carnaval e eu julguei, acertadamente, que não iria ter muito movimento, porque detesto multidões e achei que seria melhor visitar a Fenavinho em uma noite agradável de movimento apenas médio.
 
Lá chegando, tive a primeira surpresa agradável: as Embaixatrizes do Vinho estavam à minha espera na porta de entrada. Todas lindas, sorridentes e adequadamente vestidas em trajes italianos típicos. Um pianista fazia um pequeno espetáculo ali, antes mesmo da compra do ingresso. Naquele momento eu senti que havia no ar aquele presságio de coisas mágicas ocorrendo. Sabem do que estou falando, não é? Havia uma aura em torno do local e, mesmo após um dia exaustivo de trabalho, eu já comecei a me animar naquele exato momento.
 
Dentro dos pavilhões da Fenavinho, outra enorme surpresa. Aquele conceito de estandes e barraquinhas uma do lado da outra havia sido abolido. Dei de cara com uma Cidade do Vinho, toda construída no estilo da Bento Gonçalves primordial. Ao invés de barraquinhas, havia casas onde você podia entrar e conhecer as vinícolas, provar o vinho, etc. Mas não era só isso. Decidimos começar a visita pelo setor de Agroindústrias, onde eu acabei conhecendo uma fábrica de produtos feitos com leite de cabra, o "Paraíso das Cabrinhas". Provei, aprovei e comprei o queijo de leite de cabra com Curry e castanhas de caju. E o mais importante, anotei o endereço da fábrica que fica em uma cidade vizinha (esse queijo é bom demais para ser provado apenas a cada dois anos).
 
Enquanto as tias e a Pi experimentavam os queijos, eu olhei mais adiante e vi algo que me agradou muito. Uma das casas era uma marcenaria. E o marceneiro estava lá, trabalhando como faz normalmente todos os dias. Achei a idéia excelente, nada mais autêntico para demonstrar as profissões típicas da região do que colocar um marceneiro de verdade, trabalhando de verdade no local. E a mesma idéia, como vocês verão, iria se repetir por todo o pavilhão!
 
Seguimos adiante com a visita e logo me deparei com uma fábrica de "arte em vidro". Fiquei impressionado com o artesão trabalhando com o vidro ainda quente, recém tirado das fornalhas. O barulho das chamas dentro daqueles fornos chegou a me assustar. Ou melhor, chegou a assustar um cara que estava do meu lado, porque um Samael nunca se assusta com nada.
 
Mais adiante, após passarmos pela seção de artesanato local, chegamos na região onde era fabricado o pão colonial. Lá estavam muitas nonas e mães tipicamente italianas amassando, surrando e mexendo a massa, enquanto nos fornos de tijolos, dava para ver os pães assando lá no meio das brasas. O cheirinho de pão quente me fez ficar água na boca. E isso foi antes mesmo de eu reparar nas cucas que estavam assando logo ao lado. Ah! Como é dura a vida de alguém de dieta! Malditos carboidratos!
 
Obviamente, minhas tias e a Pi "estacionaram" na ala dos pães coloniais e eu segui um pouco mais adiante, chegando a um dos cantos do Pavilhão. Neste canto, ocorreu o primeiro evento surreal da noite. Um velho gaiteiro, provavelmente pago para ficar tocando seu instrumento durante o dia, estava descansando em um dos mini-palcos. Falarei sobre esses mini-palcos mais detalhadamente logo a seguir. Ocorre que naquele momento, aquela região estava quase vazia e, tendo visto eu me aproximar olhando curioso para a gaita, aquele senhor abriu um gaitaço somente para mim.
 
Fiquei lá parado, escutando com prazer aquela boa música, até perceber que o gaiteiro estava tocando apenas para mim! Imediatamente, agradeci o gaiteiro antes que ele terminasse a música e me afastei do local. Fiz isso porque eu já estava imaginando o momento em que o gaiteiro iria terminar sua apresentação e me agradecer por estar lá ouvindo. Naquele momento, fiz um gesto amigável para o músico e me afastei, pensando: "Mas que coisa feia, Samael! Se intrometendo nas histórias dos outros…" 😉 Btw – eu adoro fazer isso e todo mundo sabe desse detalhe, não?
 
A decisão de abandonar uma história que não era minha foi realmente a mais acertada, pois logo a seguir, encontrei a cutelaria. Talvez muitos aqui já saibam da minha paixão por facas e adagas. Sou um colecionador e em menos de um ano, posso dizer que tripliquei o número de itens da minha coleção. E lá estavam os funcionários e o dono da cutelaria, uns amolando lindas facas, e um outro mais ao fundo, forjando uma!  Que emoção! Quando vi o ferro em brasa, lembrei na hora da cena em que a espada é forjada logo no início de Conan, o Bárbaro! Até a música do filme começou a tocar na minha cabeça 🙂
 
A Pi teve que ir até a cutelaria me "arrastar" do local, porque eu não estava com a menor vontade de ir embora dali. Passamos mais adiante por uma tecelagem, na qual algumas mulheres estavam utilizando aqueles equipamentos de palavras cruzadas, os "teares", e logo a seguir, passamos por uma fábrica de violinos. O artesão estava fabricando alguns violinos e haviam outros em exposição. Achei interessante, mas eu nem suspeitava do que iria acontecer ali, momentos mais tarde.
 
Enquanto as tias iniciavam as visitas as vinícolas, eu acabei reparando em mais um mini-palco. Explicando do que se trata: são tablados com cerca de um degrau de altura, no qual gaiteiros, mágicos, músicos e atores fazem performances durante o dia. Felizmente, naquele momento o mini-palco estava sendo ocupado por uma casal que fazia um número de sapateado. Lembrei do filme Angel Heart, mas nada de mais sinistro ocorreu.
 
Chegando nas vinícolas, vi minha tia Hilda com um pequeno cálice de vinho na mão. "Mas que marmota é essa?", pensei eu, pois minha tia toma fortes remédios e não pode beber álcool. A explicação era simples. Eu havia recusado as provas de vinho porque estava com dor de garganta. Minha tia achou que eu estava na verdade com vergonha de aceitar as provas e decidiu pedir um copinho para ela e trazer para mim! Essa minha tia Hilda não é um barato?
 
E foi assim, meio contra a vontade, que eu participei da sessão de provas de vinhos por todas as cantinas do setor. E meio há uma dezena de pequenas vinícolas, todas a grandes casas estavam lá: Cordelier, Valduga, Aurora, Miolo, Dom Cândido… e o Don Samael por lá, enchendo o tanque.
 
As vinícolas competem para ver quem monta a casa mais bonita e também competem em um quesito mais agradável ainda: quem coloca as atendentes mais belas! 🙂
Dos vinhos que eu provei, devo dizer que o Cabernet da Reserva Miolo foi o melhor. É um vinho que custa em torno de R$ 22,00 e deixa muitos taninos na boca logo após cada gole. Dá para aproveitar ao máximo esse sabor. Mas tomem cuidado, que é vinho forte.
 
Após a sessão de provas, decidi que precisa levar as tias e a Pi para a cantina, ou seja, a praça de alimentação, porque beber de estômago vazio não é recomendável. No caminho, descobrimos que havia uma versão em miniatura da Cidadela da Vinho, a Piccolá Cittá, feita só para as crianças poderem ficar se divertindo, enquanto os pais ficavam provando os vinhos. Como diriam as ppg’s, "uma coisa fofa".
 
Na praça de alimentação, outra surpresa agradável: para combinar com o tema da festa, a praça era toda como se fosse um desses salões paroquiais tradicionais do interior do município. Você podia se servir e ia comer numa dessas imensas mesas feitas com tabuões que estavam espalhadas por toda parte. No centro daquilo tudo, um dos palcos principais. A banda que estava se apresentando era uma chamada "Intimitá". Guitarrista, baixista e uma loirinha que era uma gracinha nos vocais. Foi um prazer comer o meu sanduíche light escutando "bem que se quis, depois de tudo ainda ser feliz…", de autoria de algum desconhecido, mas que ficava muito bem na voz da loirinha bem vestida.
 
Terminado o lanche, subimos de volta para o pavilhão principal e, na saída da praça de alimentação, encontramos um réplica da Bento Gonçalves dos tempos antigos. Havia até uma reconstituição da primeira igrejinha e todas as casas estavam decoradas com objetos típicos da época. A igrejinha tinha até obras raras de arte-sacra em seu interior. No meio daquilo tudo, estava a Casa da Imperatriz! Por que vocês sabem, as melhores candidatas no concurso de beleza e conhecimento viram as Embaixatrizes do Vinho e embelezam toda a festa, andando sorridentes pelos corredores e ajudando os turistas. Mas existe aquela que é a mais bela entre todas e ela se torna a Imperatriz do Vinho e a deste ano estava lá, na sua casa no meio do pavilhão. 🙂
 
Não deu tempo de ver muito mais. Perdi a chance de visitar o setor de bisca e mora e também não pude conhecer a área de La Pissota (uma espécie de bingo temático que conta a história dos nossos imigrantes). Antes de ir embora, minha tia queria passar de novo na casa High-Tech da Aurora, onde serviam o novo sabor de Keep Coller, o sabor Citrus, que estará no mercado a partir de março. Gente! O sabor é muito bom, eu aprovei.
 
Estávamos quase nos encaminhando para a saída do pavilhão quando eu reparei em algo ocorrendo lá na Casa dos Violinos. Um senhor de cabelos brancos e ar muito simpático estava segurando um dos violinos. Eu fiz sinal para as tias e nos aproximamos. E foi então que o maior espetáculo da noite aconteceu, bem aí, sem ter sido programado nem nada… apenas aconteceu e eu estava lá para ver.
 
O senhor simpático, que levava uma espécie de mini-mochila nas costas, pediu uma vareta para o jovem fabricante. Pediu não em português, mas sim em italiano. Alias, a festa estava cheia de italianos que vieram conhecer e prestigiar a região. O italiano começou então a tocar! E ele tocava maravilhosamente bem. Começou a juntar gente ao redor e eu sem uma câmera (juro que comprarei uma digital porque nunca mais quero perder algo assim! Nunca mais!)! O italiano tocou uma música profunda, cheia de sentimento (violinos são maravilhosos) e eu nunca me esquecerei dele tocando e do jovem fabricante olhando e escutando aquela bela apresentação. A emoção nos olhos do artesão ao ver a sua obra sendo utilizada para gerar algo tão magnífico é algo que eu não tenho como descrever. Mas basta dizer que ela contagiou todos ao redor. Olhei para as tias, olhei para Pi e vi lágrimas caindo.
 
E então chegou um amigo do italiano. Chegou rindo, pegou um outro violino e eles se prepararam para fazer um dueto. E eles começaram a tocar uma música juntos… e foi aí que eu desabei. De todas as músicas no mundo que eles podiam ter tocado naquele momento, quis o destino que a escolhida fosse aquela irlandesa do "duelo de violinos".
 
Fiquei estático, paralisado. Uma dor imensa se abateu sobre mim e eu olhei para o meu lado, onde não havia ninguém, mas deveria haver uma pessoa ali, vendo e escutando aquilo. Naquele momento, eu compreendi exatamente como se sentiu aquele personagem do Poe, olhando para o coxim de veludo onde Lenore não estava. "Por quê?" – eu pensei revoltado – "por quê uma coisa linda dessas está acontecendo para mim? Isso está errado! Eu não sou a pessoa que merece ser agraciada pela fortuna com um espetáculo desses!"
 
Na saída do parque, ganhamos os nossos brindes, garrafinhas de vinho (bom vinho) do evento XII Fenavinho. Olhei no verso para saber quem era o fabricante da cortesia: Aurora. É… é bom ver que certas coisas nunca mudam. 🙂
 
E foi assim que eu fui para casa feliz, com a alma leve e embalada pelo vinho e pela música. Certamente, Lenore tinha muitas coisas boas para ouvir… 🙂
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1 comentário

Arquivado em Entretenimento

Uma resposta para “XII Fenavinho

  1. Unknown

    grande descrição do passeio, me senti como se estivesse conhecendo o local também…e eu emocionei muito lendo a passagem do violinista e jovem fabricante…(não sei se conta, pois eu choro até vendo filhote de panda na tv); e realmente, é muito dolorido passar por uma uma situação tão importante comoessa e não ter com quem compartilhar….seja uma música, uma passagem de livro, uma cor \’especial\’ do céu…abraços

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