Jangada Amarela

Jangada Amarela

 

um conto de horror (ou um horror de conto) de Lorde Samael Darcangelo

dedicado a Lisa, Sabrina, Luciana (todas elas), Raquel, Daniel, André, Manoela e a todos os demais fãs…

 

 

 

"The fool on the hill sees the sun going down

And the eyes in his head sees the world spinning round…"

  

 

  

  

 "Um mistério digno dos livros de Agatha Christie".

  

Era desta forma que os jornais estavam tratando o intrigante caso do Homem do Piano. Tudo havia começado há algumas semanas, em uma estrada praiana da ilha de Sheppey, no condado de Kent (sul da Inglaterra). Já era fim de tarde quando George, o guitarrista aposentado, avistou um homem seminu saindo do mar. Pensando tratar-se de um naufrago, o ex-guitarrista se apressou em socorrer o sujeito. No hospital da cidade, os médicos que o examinaram diagnosticaram estafa devido a um profundo esforço físico. O naufrago tinha uma aparência mista entre o latino e o inglês clássicos. O tom de sua pele indicava que ele havia passado bastante tempo sob efeito do sol.

  

O mais estranho, contudo, era que o homem não falava uma palavra sequer. Apesar de reagir a estímulos e mostrar que tinha reflexos e compreendia o que estava ocorrendo a sua volta, nem mesmo a famosa equipe de psiquiatras liderada pela Dra. Luthien Bertiniel fora capaz de arrancar uma palavra sequer da boca do pobre coitado. Claro que a equipe da Dra. Bertiniel não se esqueceu de deixar o taxímetro ligado enquanto tentava fazer o homem falar. Deste modo, os psiquiatras é que não saíram no prejuízo ao final das frustradas tentativas.

  

O caso rapidamente ganhou os jornais do país. Que estranho homem era aquele, que surgira quase nu em uma praia remota do país? Por que não falava? Que estranhos horrores haviam ocorrido com o mesmo? E os farrapos de roupa que ele vestia? Por que as etiquetas de tais peças de roupas haviam sido cortadas? Nada fazia sentido.

 

Por uma feliz casualidade do destino, Paul, o famoso empresário do mundo musical, responsável pela descoberta das Spice Girls, estava justamente de férias naquela região e, como todo mundo, correu para o hospital a fim de ganhar uma publicidade gratuita ao lado do homem desmemoriado. O encontro foi registrado por jornalistas do Daily Mirror e, num momento de inspiração, Paul se ofereceu para tocar uma canção ao piano para ver se amenizava o semblante perturbado do estranho paciente. Foi uma sorte. Bastou avistar o piano na sala de música do hospital, que o naufrago se atirou a ele e começou a tocar uma melodia que logo foi reconhecida pelos presentes: Fool on the hill.

 

No dia seguinte, estava estampado em todos os jornais: "Homem do Piano se comunica somente através da música".

 

As mais fantasiosas teorias surgiram em todos os cantos. A que ganhou mais força foi logicamente a que fazia mais sentido para os telespectadores (em sua maioria fãs de Big Brother Inglaterra). A teoria afirmava que o homem era um inglês que havia sido abduzido por alienígenas há mais de 150 anos. Viajando na nave espacial, ele só conseguia se comunicar com os seres extraterrestres através da música de um piano. Agora, quando os ET’s o haviam devolvido à Terra, o homem do piano só conseguia se comunicar através da música. Tal teoria foi corroborada pela descoberta de que um piano de cauda havia desaparecido no condado de Blackburn, Lancashire, há exatamente 150 anos. Foi feita até uma missa em desagravo à memória do pároco local daquela época, que havia sido acusado de sumir com o tal piano em troca de dinheiro para as reformas da sua igreja.

  

O empresário Paul não perdeu tempo e adquiriu todos os direitos de reprodução e distribuição das músicas produzidas pelo desmemoriado. Enquanto isso, a teoria da abdução por alienígenas sofreu um grande abalo. O mesmo George que havia encontrado o homem resolveu investigar o caso mais profundamente e acabou localizando na mesma praia, a apenas algumas centenas de metros do local, destroços de uma jangada amarela.

  

Foi então que uma carta anônima chegou ao Daily Mirror, esclarecendo todo o caso. A carta estava assinada pelo Sr. U. N. Owen, que afirmava ser um ex-agente secreto cubano e que preferia permanecer incógnito devido à dramática revelação que iria fazer.

  

Segundo o Sr. Owen, havia mais de uma década que o ditador cubano Fidel Castro ordenara a construção de uma área 51, altamente sigilosa, em sua ilha. Tal área secreta se destinava à criação do "super socialista", o homem perfeito e fiel ao regime. Durante todo esse tempo, crianças haviam sido seqüestradas de todos os cantos do mundo e levadas para tal área secreta, onde sofriam todo tipo de experiência. O tal pianista desmemoriado fora seqüestrado de Portugal quando criança e desde então tinha sido forçado a se comunicar com o mundo somente através do piano. A esperança de Castro era produzir um ser geneticamente capaz de igualar as composições de Mozart e de Beethoven, só que em ritmo de Salsa.

  

Em desespero, o homem do piano havia conseguido arrancar estacas da cerca amarela que cercava toda a área 51 cubana e, com elas, fez uma jangada para fugir em direção a Miami. Infelizmente, ele era um músico português e não um marinheiro e, por causa disso, errou o caminho, vindo parar na Ilha de Sheppey.

  

O caso provocou então uma comoção nacional! Apesar de os mais céticos acharem a história um pouco inverossímil, a grande maioria dos ingleses, seguidos pelos europeus, seguidos pelo resto do mundo, logo estava idolatrando o homem do piano e sua luta dramática pela liberdade. Fotos de satélite até mostravam que em algum ponto da ilha cubana havia realmente algo amarelo, que poderia ser a tal cerca. No entanto, um pesquisador desocupado notou que um dos pedaços de madeira que fora encontrado na praia inglesa, tinha um carimbo onde se podia ler: "Made In Liverpoo…". Alguns mandaram o desocupado arranjar o que fazer e outros botaram ainda mais lenha na fogueira: "Castro anda roubando nossa madeira!". Já havia até proposta de guerra contra Cuba.

  

Alheios a esse bafafá todo, Paul e George não perderam tempo, marcando logo uma série de shows com o pianista cubano, que sairia em turnê internacional, apresentando composições de sua própria autoria para se comunicar com o mundo. Alguns compositores de música clássica criticaram o evento, alegando que as composições não tinham nada de Mozart ou de Beethoven. Na verdade, eram até bem ruinzinhas. No entanto, a grande maioria logo censurou tais criticas, afirmando que partiam de despeitados, inconformados com o sucesso de um pobre latino de aparência inglesa.

  

Epílogo:

  

Na madrugada após o primeiro grande concerto em Picadilly Circus, Paul e George se preparavam para abrir um champagne em uma luxuosa sala de um hotel cinco estrelas. O show fora um tremendo sucesso e as vendas dos produtos do Homem do Piano estavam a mil. Naquele momento, alguém bateu na porta do quarto. Era Richard, um amigo de longa data, que estava chegando de longa viagem. Após os abraços e cumprimentos efusivos, Richard quis logo saber:

  

– Que história de Homem do Piano é essa? Acharam uma Mina de Ouro, hein?

  

Paul não conteve o riso:

 

– Alguns acham ouro, meu amigo, outros são sábios o suficiente para pintar estacas de amarelo.

 

Desconfiado, Richard, que não era muito famoso por suas habilidades mentais, perguntou:

 

– Tá! Mas o que aconteceu por aqui enquanto eu estive fora?

 

Nesse momento, saiu do banheiro e juntou-se aos três amigos ele, o Homem do Piano. De banho tomado e tendo tirado através de produtos químicos o tom de bronzeado artificial que um óleo produzia em sua pele, ele parecia mais inglês do que nunca. Richard exclamou:

  

– John!

  

E o Homem do Piano respondeu:

  

– Eu mesmo!

  

O rosto de Richard era só pontos de interrogação. Os outros três se apiedaram e Paul iniciou as explicações:

  

– Após o sucesso artificial que consegui com as Spice Girls, eu conclui que o público aceita qualquer coisa, desde que você ofereça essa coisa envolvida em uma comovente lorota qualquer. Lembra do caso das Spice, não? Cinco modelos que juntei num apartamento e todo mundo acreditou que aquelas beldades haviam se conhecido por acaso e que eram pobres e que a música havia mudado suas vidas, blá, blá, blá… Enfim, eles aceitam qualquer absurdo. Lembra das histórias que inventamos sobre a capa daquele disco antigo?

  

"Pois então. Desta vez eu precisava lançar um tipo de som novo para ganhar mais alguns milhões. A idéia foi usar os conhecimentos ao piano do nosso John aqui. Só que, apesar de ser um esforçado estudante de piano, ele jamais chegará a ser um virtuose. Nesse caso, o que fazer? Bom, com a ajuda do George, armamos a história do naufrago pianista."

 

George interrompeu:

 

– Foi simples. Bastou fazer os contatos corretos para assegurar que a imprensa estivesse presente. John se mostrou um excelente ator e a única parte complicada foi pintar aqueles pedaços de pau de amarelo para lançar a história sobre o refugiado cubano! Caramba! Tanto cuidado e mesmo assim deixei passar aquele carimbo…

  

John sentou no sofá e desatou a rir:

  

– Cara! Ainda não entra na minha cabeça como é que acreditaram nessa história!

  

Richard estava atônito. Lentamente, a explicação entrava em sua mente. Ele disse:

  

– Seus sujos! Nem me convidaram para participar disso! E tiveram muita sorte, ainda por cima! Conseguiram vestir o John com roupas que não o denunciaram!

  

Paul se sentiu ofendido:

  

– Sorte uma ova! Cortamos todas as etiquetas que pudessem revelar que os trapos que preparamos para ele eram ingleses! Sorte uma ova, foi "talento"!

  

– HAHAHAHAHAHAHA!

 

Nesse ponto, todos ergueram suas taças e brindaram felizes. Afinal de contas, era inegável que aquele quarteto tinha um longo histórico de "talento" nesse tipo de negócio.

 

 

*** FIM ***

 


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1 comentário

Arquivado em Causos

Uma resposta para “Jangada Amarela

  1. MARCIA

    olá adorei sua foto lindo rs rs.bjssssssss

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