O Computador que confundiu C com G

O Sr. TS era um paciente relativamente calmo. Nem se percebia que ele estava lá, ocupando a posição mais importante da clínica. Desde a sua última formatação, quando recebeu o nome de Server2005, ele ficou sempre de prontidão, clamo e dócil, servindo para mais de vinte usuários ao mesmo tempo, sem jamais travar ou demonstrar qualquer outro tipo de comportamento psicótico.

 

No entanto, algumas semanas atrás, o sr. TS começou a demonstrar sintomas de que sua saúde já não ia lá tão bem. Começou a apresentar uma síndrome touretica que obrigava os usuários a digitarem suas senhas ao menos três vezes antes de poder logar nele. Tentamos fingir que nada estava ocorrendo, crentes de que um pouco de ar fresco, desfragmentação e scandisk poderiam resolver o problema. Ledo engano!

 

Logo, o paciente começou a apresentar uma amnésia progressiva. Ora esquecia que um usuário podia acessa-lo, ora esquecia as permissões de todos os arquivos. Por fim, acabou esquecendo até de como se fazia para se comunicar com o mundo através da linguagem operacional Windows 2003.

 

Naquela altura, não havia mais jeito. Reunimos uma equipe médica e partimos para o tratamento de choque.

 

Tratamento de choque, neste caso, significava lobotomia formatatória. No entanto, o sr. TS tinha dentro de si, armazenado nos intrincados meandros de sua mente (80GB, marca Samsung), todos os arquivos de mais de 20 usuários que trabalhavam com ele diariamente. Era uma cirurgia de alto risco. A mente esquizofrênica do sr. TS estava dividida em várias partições e, numa delas, denominada G:, armazenamos cópias de todos os dados dos usuários, num procedimento conhecido na área médica como “backup de dados”.

 

Começamos a cirurgia. Era necessário apagar todos os dados da unidade C:, eliminando assim todas as psicoses do paciente, deixando sua mente limpa e pronta para receber logo a seguir os dados da linguagem que permitiria ao sr. TS voltar a ser útil para a sociedade. Essa linguagem é conhecida na área médica como sistema operacional Windows Server 2003.

 

Durante a lobotomia formatatória, mantívemos um breve contato com o paciente e foi assim que ele nos indicou “aqui é minha unidade C:”. Agradecemos pela informação e formatamos a unidade psicótica.

 

O passo seguinte exigia o reinício de todas as funções vitais do sr. TS, a fim de iniciar a sua readaptação ao mundo moderno. Foi aí que notamos algo estranho. O sr. TS continuava apresentando as mesmas anomalias de antes da formatação, o que era algo surpreendente, pois ninguém poderia supor que, após eliminarmos todos os dados da unidade C:, o sr. TS ainda pudesse se lembrar da linguagem Windows 2003,  como se nada houvesse ocorrido. Suando frio, a equipe médica se entreolhou e uma pergunta surgiu no ar, meio que engolida em seco: Se a unidade C: ainda está aqui, então qual foi a parte da mente do sr. TS que nós excluímos?

 

Ocorre que em sua psicose esquizofrênica, o sr. TS acabou confundindo a unidade C: com a G:, fato inédito na história da medicina moderna. E foi assim que o lugar seguro onde armazenamos os dados de todos os usuários acabou indo para o espaço. Se empirulitou! Kaputz!

 

Epílogo:

·         Os dois cirurgiões já estavam de malas prontas para o Timbuctu quando o residente Josué os alcançou. Ocorre que o residente teve a boa idéia de gravar os dados dos usuários em um DVD…

·         A cirurgia prosseguiu e o sr. TS passa bem, atendendo agora pela alcunha de Server2007, o que já deixa claro para ele o tempo que esperamos que ele continue livre de psicoses!

·         Um porrete de espinhos foi pendurado na parede ao lado do sr. TS, para que ele se sinta estimulado a jamais confundir novamente C com G.

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