QUEM MATOU VIRGINIA WOOLF?

QUEM MATOU VIRGINIA WOOLF?

 

Um conto de Lorde Samael Darcangelo,

Dedicado ao amigo Luis Bianchi

 

Aquele trecho do pequeno rio Ouse estava particularmente sombrio no dia 28 de março de 1941. O céu cinzento, a ausência absoluta de vento e a vegetação tipicamente inglesa, com sua coloração outonal, davam ao cenário um clima de A Lenda do cavaleiro Sem Cabeça, de Tim Burton. A diferença é que tinha uma moita no canto do caminho, no canto do caminho tinha uma moita.

 

Era uma moita estrategicamente bem situada, de onde era possível ver a estrada que levava até a margem do riozinho.

 

Atrás dessa moita estavam agachados, de tocaia, três homens, todos eles vestindo longos capotes cinzentos e chapéus de Sam Spade. São os heróis desta história, os bravos e valentes Detetives do Tempo, que trabalham para a S.P.Y.©. Talvez o leitor nunca tenha ouvido falar dessa agência, justamente porque é algo tão secreto e poderoso que praticamente o mundo inteiro desconhece seu poder e sua influência na sociedade moderna. No entanto, o fato é que a agência existe e é paraguaia. Isso mesmo! Por décadas são eles, os paraguaios, que estão no comando, determinando os rumos que o mundo deve seguir. Enquanto que, abertamente, os Estados Unidos surgem como grande potência mundial, na verdade são os paraguaios quem ficam dando as cartas por debaixo dos panos, usando os americanos como testas-de-ferro, para que esses ingênuos ianques recebam todo o ódio mundial que deveria ser destinado ao Paraguai.

 

A base da S.P.Y.© fica em Ciudad Del Est, que recebe a visita diária de milhares de agentes disfarçados de sacoleiros brasileiros. Eles vão lá, entregam seus relatórios, recebem novas missões e logo partem para todos os cantos do mundo. Liderada por cientistas, a S.P.Y. Sentral Paraguaya de Ynteligência – é a organização secreta mais poderosa do planeta. E a prova de que são cientistas brilhantes que estão no comando da organização pode ser obtida reparando no precário domínio de ortografia e gramática apresentado pelos mesmos.

 

Um grupo sob o comando da S.P.Y.©. são os Detetives do Tempo, agentes especialmente preparados para viajarem ao passado, com a missão de observar importantes fatos históricos, descobrindo assim se a História contada nos livros está de acordo com a realidade ou não.

 

Os três agentes atrás da moita, naquele dia cinzento, foram enviados pela S.P.Y.© para descobrir se a escritora inglesa Virginia Woolf havia mesmo cometido suicídio. A princípio, parecia não haver dúvidas a respeito disso. Porém, ninguém conseguiu explicar claramente como alguém conseguiu se afogar num rio de águas rasas, onde bastaria ficar em pé, no meio do rio, para que a água batesse na cintura. A missão dos detetives do tempo era justamente observar atrás da moita, sem jamais interferir na História, e averiguar se a escritora realmente cometera suicídio ou se um crime acontecera naquele local sem ninguém jamais ter tomado conhecimento do fato.

 

O agente do meio, líder do grupo, era um tipo alto, forte e metido a galã. Tirando do bolsinho do colete um relógio de bolso (compatível com os anos 40), ele consultou as horas, pois já estava ficando impaciente. O jovem a sua esquerda não parava de se mexer, excitado. Foi o jovem quem quebrou o silêncio:

 

– Samael! Mal posso esperar para saber o que ocorreu de verdade com a grande escritora Virginia Woolf! Sou o maior fã dela, sabe? Li todos os seus livros e tenho certeza que uma escritora desse calibre jamais se mataria assim, num rio raso. Estou convencido que foi assassinato e vamos poder fazer justiça para ela, revelando em nosso tempo a identidade do criminoso! Mal posso esperar! Eu sei tudo sobre Virginia Woolf porque eu vi aquele filme…

 

Samael interrompeu:

– Tá bom, tá bom, Luis. Agora, fique calmo e lembre-se que não podemos mudar a História. A S.P.Y.© manda sempre dois agentes para investigar o passado, justamente para que um impeça o outro de interferir.

 

Aproveitando a deixa, André Lopes, o detetive que estava a direita do todo-poderoso, exclamou em um tom um pouco exaltado:

– Pois então! A agência manda sempre dois agentes! Então, que diabos eu estou fazendo aqui? Eu estava lá, andando feliz da vida na minha autobahn, quando fui abduzido e cai de pára-quedas nesse conto! Não é justo!

– Ora, ora, my old friend. Não se lamente, pois eu já expliquei. Você veio aqui para receber de volta aquilo que lhe foi roubado.

 

Pairou o silêncio no ar. Nada acontecia, exceto os pulinhos de excitação de Luis. Samael perguntou:

– Está vendo alguma coisa, Luis?

– Nada! Tem muita vegetação verde entre nós e a estrada, não consigo ver ninguém chegando ao longe.

 

Samael tirou um par de óculos de lentes verdes do bolso e passou-os para Luis, ordenando que os colocasse e observasse novamente o caminho. Luis colocou os óculos e ficou maravilhado. As cores do mundo desapareceram. Tudo o que ele enxergava eram variações na intensidade da luz. Ao mesmo tempo, tudo ficou mais nítido. E assim, ele olhou novamente para o caminho e exclamou:

– Incrível! Estou vendo o nariz de Virgínia Woolf apontando lá na curva, há mais de duzentos metros daqui!

– Hmmm. – ponderou Samael – Logo, logo o restante do corpo dela também estará chegando aqui. Vamos nos preparar para observar tudo!

– Que óculos incríveis! – exclamou Luis – mas o que aconteceu com a cor do mundo?

– Simples. Os óculos Oliver Sacks©  cortam a comunicação entre as células T2 e T4 do cérebro. Graças a esse corte, o cérebro não processa mais as cores do mundo, deixando-o cinza e extremamente nítido.

 

Luis retirou rapidamente os óculos e devolveu-os para Samael. O tempo passava. Virginia se aproximava lentamente das margens do rio. Incapaz de segurar sua língua, Luis cochichou:

– Que escritora! Linda! Formidável! Sabiam que foi ela quem primeiro defendeu os direitos trabalhistas das mulheres, afirmando que elas mereciam condições humanas para trabalhar?

 

Samael comentou:

– Engraçado! Mercedita Dolores não devia saber disso.

– Quem?

– A empregada da srta. Woolf, que trabalhou com ela por mais de vinte e cinco anos. Sabe, Mercedita escreveu um livro contando que sua patroa era uma mulher temperamental, que tratava com muito rigor todos os empregados. Não lhes dava folga, xingava-os o tempo todo e mantinha todos os quatro trancados em um quartinho minúsculo.

 

Luis ficou abalado. A cabeça pendia de um lado para o outro:

– Ué… Eu não sabia disso. Não estava naquele filme…

 

André interrompeu:

– Samael! O nome da empregada não é Mercedita Dolores! Agora você deixou uma cratera enorme, onde cabem você e todos os ursos polares da Ilha de Lost!

 

O líder dos detetives retrucou:

– Viu? Eu não disse que você estava aqui por um bom motivo?

 

A escritora inglesa estava na beira do rio, olhando a paisagem, de costas para a moita. Luis, ainda abalado, olhava para ela. Ele comentou:

– Bom, todo mundo tem um ou outro defeitinho. Felizmente, as palavras que ela deixou escritas para o marido revelam que ela era capaz de despertar o amor nas pessoas. Ele certamente a idolatrava! Eu vi naquele filme…

 

Samael interrompeu, irritado:

– Ô Luis! Se você vai ter outro fluxo-de-consciência, procure outra moita! Quanto ao sr. Leonard Woolf, é bom você saber desde já que ele escreveu um livro relatando a história de uma mulher frívola, mesquinha e mandona, que era uma verdadeiro horror. Toda sociedade inglesa reconheceu na personagem uma caricatura de sua esposa. Virginia ficou tão desolada com a critica pública do marido que tentou se matar. Para encobrir o escândalo, do qual era culpado, o marido trouxe a escritora para esse fim de mundo aqui. Veja então que nem a empregada, nem o marido, devem ter assistido aquele filme

 

O jovem detetive calou-se, perplexo. Uma vida inteira admirando alguém e, de repente, no momento em que iria descobrir a verdade sobre a morte de sua “deusa”, essas revelações terríveis vinham à tona.

André distraiu Samael, perguntando:

– Não tem mais ninguém aqui além de nós. Parece claro que ela vai se matar dentro em breve e que não houve assassinato algum…

– Vamos esperar até o fim! E vamos esperar quietos! E isso vale, sobretudo, para você, Lui…

 

Era tarde demais. Luis já não estava mais atrás da moita. O jovem detetive, com lágrimas nos olhos, vendo que sua deusa tinha pés de barro, catou uma pedra no chão, aproximou-se rapidamente da escritora e aplicou-lhe uma vigorosa pedrada na cabeça. Encheu os bolsos dela com pedras e jogou-a no riacho. Foi este o fim de Virginia Woolf.

 

– Ay, Caramba! – gritou Samael.

– Ai, Jesus! – exclamou André.

 

Os detetives se reuniram na margem do riacho, enquanto o corpo ia sendo levado pela correnteza. Sem perder tempo, Samael acionou um botão escondido na lapela do capote. Uma luz azul envolveu os três e eles sumiram do local.

 

 

Epílogo

 

Parte Final do Relatório de Samael Darcangelo Sobre os Eventos Ocorridos em 28 de Março de 1941

 

… E então o detetive Luis, fã ardoroso de Virginia Woolf, enlouqueceu ao descobrir que ela era humana como todos nós. Antes que pudéssemos impedi-lo, ele deu vazão a sua ira, matando-a. Fugimos do local rapidamente, retornando aos dias de hoje para traçar um plano de ação, uma vez que o passado havia sido adulterado, quebrando a lei.

 

Eu e André decidimos que o melhor era simular um suicídio da escritora. Então, voltamos novamente no tempo e o André Lopes escreveu uma carta de despedida falsa que foi plantada na casa de Virginia Woolf para corroborar a história de que ela se matou.

 

Luis continuava catatônico, sem dizer coisa com coisa. O que fazer com ele? Decidi apagar sua mente e soltei o jovem nos anos 70, com uma identidade falsa. Creio que assim, ele terá oportunidade de reconstruir sua vida da melhor maneira possível.

 

 

Na cafeteria da S.P.Y.©, Samael e André bebiam xícaras de chocolate quente. Passado todo o sufoco, restava esperar pela decisão dos chefões sobre se eles continuariam sendo detetives do tempo ou se apareceriam boiando em algum açude qualquer.

 

André, fitando o fundo de sua xícara, disse:

– Acho que eles vão perdoar nossa falha…

– Espero.

– Pobre Luis. Sua primeira missão no tempo! Ele jamais deveria ter ido conosco sendo um fã tão ardoroso de Virginia Woolf! Espero que encontre seu caminho na nova vida que você lhe deu.

– Também espero.

– A propósito! Qual foi o nome falso que você arranjou para ele?

 

Naquela corrida toda para consertar as coisas, Samael nem tinha parado para pensar naquilo. De repente, começou a rir sem parar. André o fitou, atônito.

Quase sem fôlego, Samael revelou a nova identidade de Luis:

– Michael Cunnigham!

 

 

FIM

 

 

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2 Comentários

Arquivado em Contos

2 Respostas para “QUEM MATOU VIRGINIA WOOLF?

  1. Jana

    hehehe…não sei nem oque te dizer agora!Mas uma coisa eu te garanto, agora tudo faz sentido! ^^
     

  2. Laís

    Faltava um comentário meu, né? Nem sabia que esse conto tava aqui, mas vim visitar e aqui estava! É incrível como vc consegue juntar tantas pecinhas aparenetemente diferentes pra formar, no final, uma história tão engraçada, de verdade… O final me fez rir sozinha na frente do pc (imagina quem passou por aqui e me viu fazer tal cosiaisa)… Espero que essa não seja a última história da SPY… Beijoe a abraço!

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