Exit Light, enter night…

A festa estava preparada para que Sandman tomasse seu lugar de direito. Eu já tinha comprado a cerveja e contratado a banda, tudo na expectativa de que Sandman iria fechar a minha trilogia de obras perfeitas, que estava assim:

Cavaleiro das Trevas – Watchmen – (espaço reservado para Sandman)

Então, eu li a obra máxima de Neil Gaiman e descobri que a cerveja era Kayser, a banda era Calypso e, pior de tudo, Sandman jamais poderia fazer parte da trilogia.

Neil Gaiman, o autor, é um injustiçado. Sandman foi um de seus primeiros trabalhos e é marcado pela inconsistência da juventude. Desde que largou as páginas do Rei Sonho, Gaiman já criou obras melhores, mas está marcado, suspeito que para sempre, como "o autor de Sandman".

Sandman, por sua vez, foi rotulada como a obra que mostrou ao mundo que quadrinhos podem ser coisa para adultos. Quanta ignorância por parte do brasileiro que disse isso. Simplesmente ignoraram um certo Alan Moore, que já criava histórias para adultos uma década antes de Sandman. Ignoraram também toda a banda desenhada da Europa, onde quadrinhos para adultos é algo mais velho que eu. Enfim, o Brasil, como boa colônia americana, só conhecia Marvel e DC e daí concluiu que não havia mais nada de bom no resto do mundo…. Pfffff!

Sandman conta a história de Sonho e de sua família. São sete entes sobrenaturais (os perpétuos) que representam aspectos formadores do universo tal qual o conhecemos. Assim, Sonho é o mestre da dimensão do Sonhar, ou seja, ele comanda tudo o que não acontece, tudo o que não é, e cria os sonhos e os pesadelos das pessoas. A irmã mais velha (e mais forte) é uma gata gótica que atende pelo nome de… (pausa sotúrnica)… Morte. Esses são os irmãos principais, mas como Gaiman precisava encher linguiça até fechar sete participantes, criou ainda: Destruição, Delírio, Desejo, Desespero e Destino (esse é um chato de galochas).

Cada perpétuo tem seu reino e dita as regras que afetarão seus súditos. O mundo do Sonhar é cheio de personagens interessantes. Alias, não me entendam mal, a obra de Neil Gaiman é muito boa, apenas peca por alternar demais bons e maus momentos.

Bons momentos como Sandman indo ao inferno buscar algo que perdeu e tendo que confrontar Lúcifer num duelo de inteligência. Foi o primeiro grande momento da série.

Maus momentos como o excesso de violência do Sr. Destino e a falta de punição aos psicopatas.

Bons momentos como Sandman voltando ao inferno para conseguir o perdão de uma antiga amante que ele havia jogado lá dez mil anos atrás e, ao chegar lá, surpresa! Lúcifer armou sua vingança da forma mais original que já se viu.

Maus momentos como a troca de desenhistas a cada arco da série, uns ótimos, outros horríveis, a culminar com Marc Hempfel, que ficou responsável pelo principal arco da série, "Entes Queridos", e nos presenteou com os desenhos mais toscos da história.

Mas, no computo geral, Sandman se salva, sobretudo pela criatividade de algumas histórias. Tem um arco chamado Espelhos Distantes que é o máximo: são histórias clássicas recontadas para encaixar a presença de Sandman nelas. A melhor de todas, para mim, é "Um Sonho de Mil Gatos", na qual a vida desses simpáticos felinos é contada pelo ponto-de-vista der uma gatinha branca. Genial!

Eu poderia escrever muito sobre o personagem de Sandman, mas prefiro resumir da seguinte forma: ele é chamado de Rei Sonho, bom, digamos que ele é muito mais Rei do que Sonho, se é que vocês me entendem. E, hoje em dia, ele seria facilmente confundido com o Rei Emo.

Por fim, anos atrás, Neil Gaiman retornou a série para escrever mais sete histórias, cada uma ilustrada por um artista consagrado. É a prova do que eu digo, pois essa publicação posterior mostra um escritor mais maduro, contando pelo menos seis histórias impecáveis e todas magistralmente desenhadas por monstros sagrados do mundo dos desenhistas. Em especial, e até apontado por Neil Gaiman como o motivo da empreitada toda, tem uma história sobre o(a) Desejo ilustrada por Milo Manara. É imperdível! O desenhista original que criou Desejo deve estar com um saco de papel enfiado na cabeça até hoje, depois de ter visto como Milo Manara soube realmente desenhar um(a) Desejo.

Não entrou para a minbha trilogia de grandes obras dos quadrinhos, mas mesmo assim, é altamente recomendável. Leiam e divirtam-se!

P.S. – O título é um trecho de Enter Sandman… Pode não ter nada a ver com a resenha, mas eu lá ia perder uma chance dessas?

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