Incidente com o Incidente em Antares

Essa é das boas!

Vejam o perigo de se confiar numa enciclopédia livre como a Wikipedia. Quem for pesquisar, vai encontrar por lá uma sinopse do livro Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. A Globo até fez uma minissérie em 1994 baseada nessa obra. Agora, o mais interessante é que a sinopse do livro foi escrita por alguém que não leu o livro! Sério! Simplesmente copiaram trechos da sinopse da minissérie e colaram como se valessem também para resumir o livro! Não servem! É outra história! 😀

Incidente em Antares é livro desses que pedem para ler porque vai cair nos vestibulares do país afora. Essa prática deveria ser proibida! Strix me contou que teve que ler o Incidente antes de enfrentar as provas do seu Vestibular. Bom, o que posso dizer? Não, ela não leu Incidente em Antares, ela apenas pensa que leu. É impossível que se cobre de um estudante de Vestibular a leitura de um catatau de mais de 700 páginas! Peraí, "catatau"? Acho que é "calhamaço"… Maldita reforma!

Visualizem a cena! Strix, com um olho no Incidente e com o outro olho na Tabela Periódica, ao mesmo tempo, sua mão direita lê, em braile, um livro de História e a esquerda faz o mesmo com um de Geografia. Enquanto isso, com a boca ela recita as fórmulas mais comuns da Matemática e com as bocas auxiliares (aquelas que toda mulher tem embaixo de cada cotovelo), ela entoa fórmulas de Química e Física… Nessas condições, como é que ela pode ter apreciado/entendido/analisado direito uma das obras mais complexas da literatura nacional? Impossível!

Minha sinopse sobre Incidente em Antares:

A obra conta a história de uma cidade localizada na fronteira sul do país, Antares. O escritor aproveita para descrever a formação da cidade e o tenentismo que existiu do final do século XIX até mais ou menos a década de 30. Duas famílias rivais comandam um povo inculto com mão de ferro, mas tanto Campolargos, quanto Vacarianos são descritos como um bando de corruptos e gente da pior espécie.

O escrito afirma que existia gente boa aos montes na cidade, mas que a História só registra as personalidades mais importantes. Érico é cínico nessa parte porque a intenção dele não é destacar a " gente boa da cidade", mas apenas criticar a História tradicional, fazendo a apologia da Nova História, aquela que se preocupa com o povo e não com as maiores personalidades de uma época. O problema é que não aparece, no livro, quase ninguém que preste em nenhuma época da história de Antares! Na verdade, a obra é apenas uma desculpa para que o escritor possa baixar o cacete em toda a sociedade. Sério! Ele praticamente joga uma bomba atômica de insultos sobre todos os cidadãos abastados que moram na fronteira sul do Rio Grande: iletrados, cafonas, corruptos, interesseiros, infiéis… A Lista de criticas é enorme…

O livro serve basicamente para analisar a História do Brasil (mais corrupção, obviamente) e criticar a sociedade gaúcha da época de 1960, quando ocorre o incidente. O que é que ocorre, afinal? Simples, os mortos voltam a vida e desfiam, em praça pública, todo um rosário contando os podres dos ilustres moradores locais. Devo salientar que o humor é ácido e o estilo de Érico é de encher os olhos, mas nem isso salva o livro de ter muito mais páginas do que deveria.

Por fim, é interessante notar que, no final do livro, Érico ataca duramente a ditadura militar! Um jovem é morto, metralhado por um militar,  por estar pichando uma parede com um palavrão. Uma criança tenta ler o palavrão: "LIb… Liber… Liberdad…" PAFT! Leva um tapaço do pai para aprender a não dizer bobagens por aí afora. O livro foi publicado em 1971 e… Não foi censurado! Realmente, a história dos nossos Anos de Chumbo anda mal contada… Se fosse lá na terra do Fidel, Érico e toda a sua família teriam ido conhecer El Paredón.

Akira Kurosawa deixou como sua última obra "Ran", uma visão pessimista da humanidade e do que viria a seguir. Érico fez o mesmo, pois Incidente em Antares é uma visão pessimista, onde, mostrando o que aconteceu até então, o escritor delineia um futuro negro pela frente. Mas, Veríssimo cometeu o mesmo erro que já havia cometido antes em "Noite". Sabem qual é o problema dele? Simples, o humanista nunca deixa de acreditar num "outro mundo possível". Por isso, Incidente tem heróis que jamais deveria ter! Eles são o professor universitário, o padre militante e o sindicalista. Claro que Érico não é primário, esses personagens sofrem uma que outra crítica durante a história, mas são, sem dúvida, os heróis do livro.

E é essa a tragédia! Érico acreditou no:

– Professor Universitário de Sociologia, que hoje não passa de um fanático esquerdista que defende terroristas e ditaduras.

– Padre militante: que criou a Teologia da Libertação e fez (faz) a Igreja perder milhares de fiéis todos os anos.

– Sindicalista: Lu-lá, lá…

Érico não viveu para ver no que deram sua esperanças, o que me faz pensar que a morte não deixa de ser uma benção em certas ocasiões.

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