O Baú de Davi Jones – O Relato de um sobrevivente

Barcos de papel – Guilherme de Almeida
Quando a chuva cessava e um vento fino
Franzia a tarde tímida e lavada
Eu saía a brincar, pela calçada
Nos meus tempos felizes de menino
Fazia, de papel, toda uma armada
E, estendendo o meu braço pequenino
Eu soltava os barquinhos, sem destino
Ao longo das sarjetas, na enxurrada
Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles
Que não são barcos de ouro os meus ideais
São feitos de papel, são como aqueles
Perfeitamente, exatamente iguais
– Que os meus barquinhos, lá se foram eles
Foram-se embora e não voltaram mais

 

Minha anunciada pescaria (vide post antigo aqui neste blog) entre a praia do Campeche e a da Joaquina quase acabou privando o mundo da minha genialidade.

Eu escolhi o ponto perfeito para jogar o anzol, lá onde a profundidade parecia maior naquela esquisita praia de tombo. Como eu já disse, é um tipo de praia diferente, onde você nem dá três passos dentro da água e já cai num buraco, conhecido como primeiro canal.

Resolvemos, eu e Lisa, tomar um banho antes da pesca, e entramos no buraco, seguros de que logo em seguida havia um banco de areia. Não havia!

A água começou a bater no meu peito quando notei que Lisa estava se afastando muito para dentro do mar. Reclamei e chamei ela de volta:

– Não vai tão para dentro assim! Volta aqui!

A resposta dela não poderia ter me assustado mais:

– Mas eu não estou indo de propósito!

Ela estava sendo levada pela correnteza, conhecida como repuxo. Nesse instante, eu tomei a decisão que fez de mim um herói ou um tolo, como queiram, porque acho que não existe diferença entre os dois. Eu nadei para dentro, ultrapassei a Lisa e comecei a tentar, de modo desesperado, empurrar ela para fora da água.

Não logrei êxito! Não conseguíamos sair e a água estava agitada e já não dava pé nem para mim. Começamos a gritar por socorro. Na areia da praia, apenas um casal de bocós nos olhava com ar parvo, sem saber o que fazer.

Eu comecei a engolir água porque ao agitar demais os braços, eu não conseguia me manter com a cabeça fora da água. O mesmo ocorria com Lisa.

Então, o mar fez sua escolha. A distância, naquele momento, entre eu e Lisa, era de não mais do que dois metros. Lembrem-se, eu havia ultrapassado ela e tentado empurrá-la para fora. Ela começou, lentamente, a conseguir se aproximar da areia da praia e eu… Eu fui levado embora.

Lisa conta que, assim que chegou na areia, só conseguiu se virar para o mar e me observar. As ondas eram altas, a cada onda, eu desaparecia por alguns instantes e depois reaparecia, cada vez mais longe da costa.

Eu, lá dentro daquele turbilhão, quando comecei a ser arrastado, tive que esquecer da Lisa, tive que esquecer de tudo. A última coisa que pensei foi que os salva-vidas haviam nos visto e estavam a caminho, mas eu não podia mais olhar para a praia, não podia mais procurar pela Lisa. Naquele momento, tudo o que eu podia fazer era me concentrar em me acalmar e observar atentamente a próxima onda que vinha. Eu tinha que boiar, eu tinha que sobreviver.

Respirar fundo, esperar o mar passar por cima de mim, voltar à tona, ver se não vinha mais nenhuma onda, soltar o ar e tragá-lo novamente… Tudo o que eu podia fazer era isso.

E foi assim que comecei a me acalmar. Passados alguns momentos, chegou até onde eu estava um surfista que, passando pela areia da praia, viu os acenos e se atirou no mar sem hesitar. Quando ele me alcançou, o diálogo foi hilário:

– Opa, meu! Precisa de ajuda?

E eu, quase sem folego:

– Pois é… Eu tentei tirar minha esposa da água… Mas não consegui… Será que, por favor (POR FAVOR!), eu posso me apoiar na sua ´prancha para sair daqui?

– Claro, claro!

E eu me apoie na prancha e saímos daquelas águas revoltas. A cavalaria, digo, os salva-vidas, chegaram em seguida, mas eu estava tão afoito para saber se a Lisa estava bem que eles sequer me examinaram. Todos corremos para onde Lisa estava, ainda deitada, exausta, e o salva-vidas a examinou. Tudo bem com ela.

O surfista, herói do dia, timidamente se afastou e eu, bocó que sou, sequer perguntei seu nome, sequer agradeci direito!

O mar me chamou para uma dança macabra e eu quase vi o baú de Davi Jones. Acho que farei aulas de surf no mês que vem…

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