O Enigma do Chaveiro Cronos

Relatório de Samael Darcangelo, detetive da S.P.Y. – Sentral Paraguaya de Ynteligência

Florianópolis – 09/07/2009 – 17:45

Assunto: O Enigma do Chaveiro Cronos

Querido diário…

Não sei porque resolvi começar um relatório dessa maneira, mas já que com a agente Margarida sempre deu certo, aqui vou eu.

Jamais passarei num concurso público. São vãs as velas que a agente Strix queima para que isto aconteça e só não admito publicamente a conclusão a que cheguei porque não quero decepcionar aqueles que torcem por mim. Cheguei a essa fatídica conclusão após analisar minha participação no caso do chaveiro Cronos.

Tudo começou quando eu recebi a missão de fazer uma cópia de um controle eletrônico. A tarefa parecia por demais simples, mas aqui em Florianópolis a simplicidade é a mais traiçoeira das falsas aparências. Sai da base e me dirigi ao chaveiro mais próximo, onde, para minha decepção, fui informado que o especialista só começava a trabalhar a partir das 09:45. Para os padrões dos ilhéus locais, isso ainda é de madrugada. Fiquei esperando por mais de uma hora pelo chaveiro e, como o infeliz não aparecia de jeito nenhum, um outro funcionário do local me passou a dica de procurar outro especialista, que atendia "logo ali, dobrando a esquina…".

"Logo ali" é uma armadilha traiçoeira, pois a percepção de espaço das pessoas pode ser muito variável. No caso, após dobrar a tal esquina, descobri que o chaveiro indicado ficava a mais de duas quadras de distância. Foi assim que comecei a me afastar da base e o caso começou a complicar. Para piorar, o novo chaveiro também não era capaz de clonar controles eletrônicos e me indicou o único lugar do centro da cidade aonde eu poderia conseguir meu objetivo: "Tem que ir na Cronos, fica na Conselheiro Mafra, esquina com a Álvaro de Carvalho, passando a loja da Colombo…".

Esse lugar fica há oito quadras distante de onde eu estava! No entanto, feliz por finalmente ver que o caso tinha solução, ajeitei a lapela do meu capote imaginário e parti com um mote na cabeça: "encontrar o chaveiro Cronos, encontrar o chaveiro Cronos, encontrar o chaveiro Cronos…".

Oito quadras e dezenas de repetições depois, lá estava eu passando pela Colombo e chegando na esquina citada. O Conselheiro estava lá, o Álvaro também, mas nada do chaveiro. Olhei em volta, analisando todas as placas das lojas e nada. Tomei como ponto de referência a maior loja da esquina, uma tal de Khronos Inovações Tecnológicas, e, a partir dela, resolvi circular pelas ruas, perguntando por um chaveiro.

Um camarada me disse conhecer um chaveiro duas quadras acima. Não servia, pois não podia ser o Cronos, afinal, já era em outra rua. Felizmente, uma senhora que vendia paçocas na esquina tinha uma dica mais quente: "sim, tem um chaveiro ali na rua de baixo". Fui quase correndo para a tal rua de baixo e lá estava o chaveiro. Não, não era o Cronos, mas sim um certo Augustinho Monteiro, chaveiro 24 horas, segundo seu cartão de visitas.

Augustinho me disse que podia conseguir a cópia do controle eletrônico, mas que demoraria meia-hora para fazer o serviço, que me custaria sessenta patacas.

Sessenta patacas! Aí surgiu um novo problema. Quando recebi a missão, fui informado que o serviço custava em média 20 patacas e a Sentral é muito exigente no controle de gastos. Além do mais, minha longa experiência com  leitura de livros policiais me dizia que Augustinho não era um sujeito muito confiável. Resolvi voltar duas quadras e meia e ir para o segundo chaveiro indicado.

Chegando lá, já exausto de tanto caminhar pelo centro da cidade, uma bela jovem me deu a informação decepcionante de sempre: "Não, não fazemos cópia desse tipo de controle eletrônico. Mas você pode conseguir isso lá na Cronos…"

Foi aí que eu gritei: "Ahhhhhhhhhhh!" – e assustei a garota. Acontece que naquele momento mágico, fez-se a luz na minha cabeça e eu percebi algo interessante na gramática portuguesa: C = K, sendo que o H é mudo na nossa língua. Ou seja, Cronos = Khronos!

Apostei todas as fichas na minha dedução brilhante, voltei para a esquina do Conselheiro com o Álvaro e lá estava, no mesmo lugar de antes, a grande loja da Khronos Inovações Tecnológicas. Entrei e saí de lá em menos de dez minutos, trazendo comigo uma cópia do controle, obtida por apenas vinte patacas.

Podemos deduzir que o chaveiro Augustinho, se incumbido do serviço, também pretendia usar a meia hora de prazo que pediu justamente para visitar a Khronos.

No entanto, o vilão se deu mal, pois não levou em conta a astúcia deste detetive da S.P.Y.! Cumpri minha missão gastando apenas 20 patacas (e muita sola de sapato). Porém, não sei porque, mas após este caso, fiquei com a sensação de que jamais passarei num concurso público!

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