A Balada do Velho Kadett

Em 1999, minha família comprou o primeiro carro da casa e eu fui escalado como o motorista oficial. Foi assim que conheci o Kadet bordô metálico, ano 97, que meu primo sacana apelidou, tão logo o viu, de Sagu.

"Sagu I" – eu o corrigi, já batizando o veículo.

E assim, ao longo de dez anos – uma década! – eu e o Kadett percorremos juntos cerca de 80.000 quilômetros.

O que dá para transportar num carro? Bom, cabe praticamente uma vida inteira. Foi nele, por exemplo, que eu trouxe toda a minha mudança de Bento Gonçalves para Floripa. Mala, cuia e até uma mesa de jantar de seis lugares. Tudo dentro do bom e velho Kadett, para espanto do fiscal do ICMS que nos parou na estrada.

Falando em transportes importantes, talvez o maior de todos tenha sido quando ele trouxe minha atrasada noiva, às pressas, para o casamento! Naquela ocasião, ele nem mesmo se importou em ser dirigido pela madrinha Sabrina, que achou que viria apenas para uma grande festa e nem imaginou que acabaria tendo que atuar como piloto de Fórmula 1.

Lá atrás, bem no início da história, o Kadett teve que me suportar, pois eu recém tinha aprendido a dirigir e, Caxias como sou, me recusei a andar de carro "ilegalmente" para ir treinando antes da chegada de nosso primeiro carro. Às vezes eu gostaria de ser como o meu primo Rodrigo, que nos sábados ia correndo lavar o carro do padre para depois conseguir do reverendo a permissão de levar o carro para dar uma volta, sob o pretexto de "secá-lo mais rápido". Meu primo tinha muito status, imaginem, ele dava bandas pela cidade no fusca do padre!

Já eu, quando comecei a dirigir, logo fui tentar tirar o Kadett da vaga na garagem e entortei uma porta em uma coluna (argh!). Depois, indo para a praia, pois sempre íamos para a praia no verão, eu achei estranho o modo como o carro, na chuva, ia trocando de pista sem minha autorização. Dudu, o mecânico da família, quase teve um treco quando levei o carro para ele ver. Haviam nos vendido um veículo com os pneus mais carecas que o Esperidião Amin.

No ano seguinte, eu já estava um ásno volante. Tão ás que passei voando por uma fiscalização eletrônica. R$ 128,00 para eu não esquecer mais daquele maldito pardal em São Sebastião do Caí. Mais um ano, mais um show do ásno volante. Mesmo pardal, mais a multa foi de R$ 560,00, pois dessa vez eu estava dirigindo mais rápido.

Nos últimos anos, o Kadett vinha sofrendo comigo. Um estranho numa terra estranha. Não havia estacionamento disponível no centro de Floripa e tive que deixá-lo na rua, pegando o sereno noturno, o sol quente do meio-dia e a maresia constante. Ele suportou tudo com dignidade, mesmo com sua pintura queimando dia após dia, mesmo com um flanelinha marginal riscando sua lataria porque o encontrou repousando em lugar inadequado. Ele suportou tudo isso e, para ser sincero, as únicas vezes em que me deixou empenhado na estrada foram quando eu me esqueci de colocar gasolina nele. Alias, isso era uma manha constante: sem gasolina, ele se recusava a andar.

Ano passado, Gabriel, meu priminho de seis anos, enquanto eu dava carona para ele e sua mãe, comentou com o Bruninho que estava ao lado:

Bruninho: "Que legal, um Kadett!"

Gabriel: "Ah! Tu gosta de carro velho?"

Chegou a me dar uma dor no coração. Percebem como a inocência das crianças pode ser cruel? Dizer uma coisa dessas sobre o Sagu, dentro do Sagu!

Ora, o vermelho podia já ter doze anos de idade, mas quando estava na estrada, mostrava para todos os Unos Milles, como o do pai do Gabriel,  o que era ter um motor 2.0 de Vectra. Eu pisava no acelerador e o mundo ficava para trás. Bom, ok, é certo que alguns Toyotas, Hondas e Audis passavam por mim, mas Celtas, Corsas, Uno Milles, Clios, Kas? Jamais! Era só acelerar e logo o Kadett alcançava os 120Km. Nessa velocidade, ele até economizava mais gasolina. Era a sua velocidade favorita, e ele ia nela feliz e contente. Essa era a balada do velho Kadett.

Nos últimos tempos, admito que ele já andava dando sinais de sua longa vida. Ele parecia se sentir melhor nos 100 Km/h e uma série de outros detalhes mostravam sua fadiga. Foi então que finalmente fomos sorteados no consórcio do carro zero. No dia em que fomos na concessionária pegar o carro novo, nem chegamos a ver o momento em que o Kadett foi recolhido para o fundo do pátio. Num momento, ele estava lá, brilhando ao sol, bonito como sempre, no seguinte, não estava mais.

Já faz um mês que estou conhecendo e dando as boas-vindas ao novo carro. Ele é preto, pensei em chamá-lo de Jabuticaba II, mas Lisa observou que ou era Jabuticaba I ou Sagu II e que ela não gosta nem da fruta, nem do doce. Aí, inspirado em uma famosa canção gaúcha, lancei: "Que tal Vento Negro?". Lisa respondeu: "Vento Negro? Mas é um carro com motor 1.0! Eu acho que vi até um Fusca nos ultrapassando!". Senhores, dêem as boas vindas ao meu novo carro, o Brisa Negra!

Quanto ao Kadett. Sabem de uma coisa? Ele é apenas um bem material. Levar meu tio para a praia no último ano de vida dele, saber que minha madrinha dirigiu bravamente para trazer minha esposa até o altar, tudo isso são recordações da minha vida que não foram e não serão jamais vendidas.

O Kadett será reformado, será revendido e, certamente, fará a alegria de mais uma família por aí afora. Feliz de quem o comprar. E, quem sabe um dia, quando ele não tiver mais como rodar por esse mundo, talvez venha comigo para andarmos juntos por outros campos.

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1 comentário

Arquivado em Causos

Uma resposta para “A Balada do Velho Kadett

  1. Marcio

    Meu, só quem te conhece mesmo sabe da capacidade de lidar com as palavras… muito bom o texto, já estou encaminhando para meus camaradas… 🙂

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