Rio, centro…

Logo após cumprir todas as minhas obrigações relativas à execução de my old friend, restou-me um dia livre para passear pelo Rio de Janeiro.

Estávamos, eu e Lisa, hospedados no Hotel Íbis em frente à Praça Tiradentes, na região central da cidade. Durante o fim de tarde de domingo, ficou por conta da Lisa elaborar, com ajuda do Google Maps, nosso roteiro de passeios para o dia seguinte.

Antes, porém, minha com sorte cismou que deveríamos conhecer os agitos da noite carioca, uma vez que estávamos ao lado dos Arcos da Lapa, região onde a vida cultural fervilha.

Quem faz a fama, deita na cama – é o que mais ou menos diz o ditado. Pois, então, ao sair do hotel para irmos até uma casa noturna chamada “Scenarium”, eu estava num estado de alerta que parecia o Capitão Nascimento incorporando Chuck Norris!

Antes da viagem, ainda em Floripa, montei o meu “Kit Rio”. Foi uma ideia típica de gênio que consistiu em comprar uma carteira nova, pequena, discreta e de couro. Nela, pus minha carteira de motorista que serve como comprovante de CPF e de Identidade, um cartão de crédito e o dinheiro.

Enquanto que essa carteira discreta ficou camuflada em um bolso interno da calça, minha gigantesca, estufada e antiga carteira ficou no bolso tradicional, cheia de trocados e com alguns cartões de plástico muito valiosos, tais como o do Clube Angeloni. Complementando o disfarce, coloquei nela minha carteira de identidade do Pato Donald. Pronto: Kit Rio preparado para assaltos.

Qualé, rapaziada? Malandro é malandro, mané é mané… Quem disse que gaúchos não podem bancart os ishhpertos de quando em vez?

Bueno, então, voltando aonde eu estava. Aonde eu estava mesmo? Peraí, deixa eu ver…Ah, claro, estávamos indo para o tal Scenarium. Minha cabeça corria o risco de cair no chão, desatarraxada do pescoço, de tanto que eu a estava girando para todos os lados. Qualquer um que se aproximasse, pensava eu, era a deixa para uma luta corporal, o que permitiria que a Lisa escapasse na corrida.

(Super mouse o seu amigo, vai salvá-la do perigo…)

Felizmente, nada aconteceu nas três quadras que percorremos. Sim, essa era TODA a distância que nos separava do local  da festa!

Lá chegando, uma surpresa desagradável. O tal Scenarium devia (talvez ainda deve) ser um lugar da moda. Isso significava uma fila de pelo menos quarenta pessoas aguardando para entrar!

Toda a extensão da rua estava tomada por barzinhos e percebemos que, ao lado do local aonde queríamos ir, havia um outro, menos cheio, chamado Santo Scenarium. Foi um achado espetacular! Um casarão antigo, repleto de estátuas e quadros sacros. Ali, no meio desse ambiente santificado, rola o samba de raiz e você nem precisa ir muito longe para dar um golinho de sua cachaça preferida para o santo. Foi uma noite muito agradável.

No dia seguinte, Lisa pegou seu roteiro  googolizado e partimos para explorar as atrações do centro do Rio. Logo de saída, alguma quadras adiante, apareceu um escorredor de espaguete gigante.

“Olha, Sam! Aquela é a Catedral de São Sebastião. É considerado o prédio mais feio do Rio!”

Eu olhei aquilo e tive que concordar. Estava prestes a dizer algo como: “é um conjunto arquitetônico muito pesado e…”, só que Lisa cortou meus pensamentos com uma dessas perguntas afirmativas que as mulheres fazem quando na verdade não estão fazendo uma pergunta e sim dando uma ordem:

“Vamos lá conhecer?”

Ok. É o prédio mais feio do Rio, vamos lá conhecer… (e o passeio começava a se transformar numa aventura pelo País das Maravilhas).

Visto o interior da catedral, que até que nem era tão feio – apenas lúgubre e mal iluminado, chegou a hora da minha guia me levar para um outro ponto da cidade. E anda para lá, anda para cá, parecia que o Real Palácio de Literatura Portuguesa (ou alguma coisa assim) estava muito, muito longe. Tive a impressão que estávamos chegando em Niterói, quando a Lisa exclamou:

“Chegamos na praça!”

“Ufa!” – eu disse – “Caramba! Que longe! Em que praça estamos?”

“Na Praça Tiradentes!”

“Ah, bom, na Praça Tirad…” – Espere um minuto!

Sim, sim. É exatamente isso que vocês estão pensando. Minha guia imprimiu o mapa certo, apenas saímos andando para o lado errado.

Então, com o barco de volta à sua rota, fomos explorar o centro do Rio.

Eu tenho uma opinião sobre essa cidade tão cantada em prosa e verso: é a capital do país.

Não importa que lunáticos tenham inventado Brasília lá no meio do deserto. Não importa que São Paulo tenha poder econômico suficiente para colocar o Rio no bolsinho do colete. Tudo o que importa é que o coração do país pulsa nessa cidade e ela acaba refletindo o que há de melhor e o que há de pior no Brasil. Tudo junto, misturado, bem como somos em nossa essência.

Alias, lá estava eu, acho que no fim de tarde da segunda-feira, visitando os domínios de my old friend. Logo que entrei em território inimigo, fui para a sacada e fiquei olhando a paisagem e vendo a história que aquele cenário tinha para me contar.

Lá longe estava um morro cheio de barracos. Do outro lado, imponente no alto de uma montanha, uma igreja enorme, parecida com o Castelo de Greyskull. No meio do caminho, algum idiota estava construindo um prédio enorme, provavelmente um shopping, que, se continuasse a crescer, encobriria a vista daquela igreja deslumbrante.

Como que lendo meus pensamentos, o Senhor daquele espaço se materializou ao meu lado e começou a explicar:

“Ali é o Morro do Alemão. Desse outro lado, lá no alto, você pode ver a Igreja da Penha. Aquele shopping que está subindo ali é da Universal”.

Sabem, acho que da sacada de sua casa, my old friend pode ver claramente TUDO o que está acontecendo no Rio hoje em dia. É de arrepiar.

Ok, me perdi de novo, onde é que eu estava mesmo? Ah, sim! Eu e Lisa, na rota certa, chegamos ao centro propriamente dito.

Tinha de tudo lá. Casarões caindo aos pedaços ao lado de lojas que eu só costumo visitar em sonhos. Entramos em uma chamada O Lidador. Gente! Na placa estava escrito “Desde 1927”, ou algo antigo assim. É uma loja de bebidas e iguarias finas, daquele tipo que ainda tem as escadas para o vendedor subir e pegar o produto que você quiser lá do alto. Eu só tinha visto isso em novela de época.

O licor de Rosas italiano foi logo adquirido e, mesmo sem ter em estoque a tão procurada Angostura, a vendedora SABIA do que se tratava e até informou que vendera a última garrafa no mês passado.

Depois do Lidador, veio o Arlequim. Uma maldade, minha gente, uma maldade! Uma loja inteira de CDs e DVDs clássicos! Organizados por Diretor! Tinha o Fellini, o Kubrik… Tinha seções de Blues e Jazz. Minha única queixa foi não achar a prateleira do Sérgio Leone! Gronf…

Pausa para o almoço. Como é fácil achar um bom restaurante português que sirva um Bacalhau às Natas decente no centro do Rio. Pena que também se acha muita coisa que não deveria estar ali. Por exemplo: a visão do inferno.

Agora eu sei o que vai estar me esperando no inferno se eu não me comportar!  Foi numa das esquinas do centro do Rio que eu as vi. As três fúrias, ou melhor, as três gordonas de microshortinho, dançando funk de modo libidinoso, agarradas ao poste da esquina. Brrrr… Juro que vou me comportar bem e tentar ir para o céu!

Então, chegamos a Livraria da Travessa. Mais compras! Não pude resistir à “Platão e um Ornitorrinco Entram Num Bar…” – mas essa é outra história…

O Real Gabinete de Leitura Portuguesa (não, ainda não é assim…) foi um dos primeiros lugares que conhecemos na expedição, mas, por incompetência de minha parte, ficou aqui quase no final do email. Um lugar imponente e indispensável  como roteiro para turistas que são ávidos leitores. Tinha um povo lá, lendo esquecidos tomos de artes imemoriais e fazendo anotações enigmáticas. Quase pirei imaginando o que estavam tramando!

Também li em painéis espalhados pelo Gabinete alguma coisa que um tal Alexandre Herculano escreveu no século passado. Era sobre política. Bom, digamos apenas que Herculano está mais atual do que nunca.

De volta ao centro do Rio, foi a vez de descermos até as margens da Baia de Guanabara. Ok, estou ousando aqui, mas acho que aquele mar na nossa frente, com Niterói do outro lado DEVE ser a famosa Baia. Por ali, a visão mais empolgante ficou por conta de uma espécie de castelo na beira do mar. Estávamos perto do local onde se pegam as balsas para o outro lado e o tal castelo estava distante, à esquerda.

Infelizmente, nem o São Google nos ajudou a descobrir que raio era aquilo. Pior que estava inacessível para uma visita (naquela altura da caminhada, qualquer coisa além de duzentos metros estava longe demais).

Na volta para o hotel, encontramos o Escritório do Pixinguinha! Um bar, claro, com uma estátua homenageando o compositor. Fotos, fotos, claro.

Ah! Falando em fotos, quero fazer uma denúncia: Lisa perdeu uma foto histórica!

Lá estava eu, posando ao lado da vitrine da Confeitaria Colombo, esperando Lisa tirar uma foto. Nisso, passou por mim um senhor, óculos de aro redondo, barbona castanha meio encaracolada…

Comecei a acenar para a Lisa, querendo dizer: “Rápido, rápido, tire uma foto!”

Cheguei a dar uns passos para o lado, tentando seguir o barbudo, mas Lisa não se tocou. E, assim, perdeu-se a foto histórica mostrando o encontro casual de Samael com Machado de Assis, ambos ao lado da Confeitaria Colombo!

Por fim, passamos por uma mulher vendendo um determinado tipo de fruta numa banquinha. Eu comentei com a Lisa:

“Essa daí sim que é a legítima MULHER-PERA!”

“Sam, do que você está falando?”

“Ora, da mulher vendendo peras ali atrás…”

“Aquilo são goiabas.”

“Bah! Não seja absurda!”

Falei as palavras erradas e fiz a Lisa empacar.

“Vamos voltar!”

Topei a parada e resolvi apostar:

“Vale um capuccino. Vamos lá ver as peras da mulher!”

Gente, eu devia ter suspeitado desde o princípio que, pelo aspecto, a vendedora não podia ser a Mulher-Pera. O diálogo que se seguiu foi mais ou menos assim:

“Boa tarde, minha senhora. Que frutas são essas?”

A mulher me olhou com uma cara que só faltou me perguntar em voz alta onde eu havia pousado do disco-voador:

“São goiabas.”

Depois dessa, só me restou juntar a bagagem no hotel e abandonar a Cidade Maravilhosa. Porém, como diz o Anonymous Gourmet lá da minha terra, uma coisa eu posso garantir:

“Voltaremos!”

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