Contos em Dupla

Então, conforme o explicado na lista ACBR, a brincadeira é simples. Segue abaixo o primeiro capítulo de um conto. Quem quiser continuar, basta escrever o próxim o capítulo e passá-lo para mim.
 
Mais tarde eu publicarei o primeiro resultado dessa maluquice! 🙂
————————
 
Capítulo I – No Bar
por Samael
 
Samael, o nerd, espetou uma azeitona com o palito que segurava nas mãos. Olhou por alguns instantes para ela com uma cara desconfiada e, por fim, decidiu que valia o risco. André, o novato na UFRJ, suspirou aliviado, pois, ao menos enquanto mastigava, Samael dava uma folga para os ouvidos de quem tinha a duvidosa honra de escutar suas teorias mirabolantes.
 
Ambos estavam tomando cerveja e roendo alguns aperitivos em um dos mil e duzentos quiosques existentes na Barra da Tijuca. Se por acaso você é um et, talvez lhe interesse saber que a Barra da Tijuca fica no Rio de Janeiro, Brasil. O convite para um happy hour – já eram quase dez da noite – partiu do mineiro André que, apesar de ter chegado à cidade naquele semestre, já tinha fama de ser um notório boa-vida, do tipo que procura fazer amigos influentes para conseguir vantagens e um pouco de mordomia grátis.
 
Samael era o pior tipo de nerd que pode existir: o nerd cheio da grana e ultra convencido de seus próprios talentos. Acostumado pelo pai desde cedo a olhar para as mentes dos pobres mortais como quem analisa a mente de uma cobaia, Samael quase não tinha amigo nenhum dentro da Universidade e, apesar de ter a mesma idade de André – 26 anos -, Samael já estava perto de concluir o Doutorado em Física, enquanto que o outro fazia o primeiro semestre de Turismo na universidade.
 
A azeitona foi digerida mais rapidamente do que André gostaria e logo Samael estava voltando a carga, com seu blá-blá-blá interminável:
 
– Muito pitoresco este lugar! Realmente, é a primeira vez na vida que visito um legítimo bar de pé-sujo, não é assim que dizem?
 
– Bem, na verdade, quiosques da Barra não são propriamente barzinhos de quinta…
 
– Entendo, entendo, é um lugar para um povo, digamos, chinelo-mais-sofisticado. – cortou Samael – Mas está agradável aqui. Faz com que eu recorde um pouco minhas últimas férias na Riviera. Se retirarmos o povinho e deixarmos apenas o mar e esse calçadão até que dá para o gasto…
 
A conversa rapidamente evoluiu para “como remover o povo da favela do Canta Pavão” que ficava próxima dali e, seguindo um curso não muito natural, desembocou na possível mineração em asteroides, com Samael listando as rochas e respectivas composições que poderiam ser obtidas dos corpos celestes. André tentava acompanhar tudo sem bocejar, mas desistiu de tentar entender algo lá pela metade da explicação e se concentrou em terminar seu copo de Bohemia Weiss. Afinal de contas, sair para tomar um chopinho com um ricaço tem lá suas vantagens…
 
– … Mas o melhor de tudo seria poder viajar à velocidade da luz para trazer esses minérios para cá. Pense só! Os astronautas não envelheceriam nem um ano sequer!
 
– Opa! – André quase engasgou com a cerveja. Finalmente, uma chance de falar! – Peraí que disso eu entendo um pouco. Tenho uma amiga conterrânea que faz pesquisa lá no laboratório de Física da UFRJ, a Strix, você certamente deve conhecer…
 
– Hmpf… Claro que conheço, esforçada, mas mediana. Nada além disso.
 
– Bom, ela me parece genial – André ignorou a careta que Samael fez e prosseguiu – Pois ela me deu uma aula outro dia sobre viagem no tempo. Inclusive, se não me engano, ela deve estar fazendo alguns testes hoje à noite, lá no pé da Canta Pavão, olha o perigo! Nunca vi uma garota tão empolgada com uma bobagem dessas…
 
– Bobagem? Que bobagem?
 
– Ora, ela discutiu comigo quase uma hora inteira, jurando que é possível viajar no tempo! Sabe, aquele lance de De Volta para o Futuro?
 
– Não vejo porque o seu espanto. A viagem no tempo é uma possibilidade real que eu defendo desde o tempo em que estava no segundo grau!
 
– Ah! Qualé! Você também?
 
Eu, Einstein e meu pai, entre outros notáveis de menos vulto! Alias, neste momento, papai está em Londres dando uma série de palestras sobre a possibilidade de quebrar o continuum espaço-temporal. Mal posso esperar para me juntar a ele em janeiro próximo, quando o gigantesco Colisor de Hádrons do CERN for finalmente ligado em sua potência máxima!
 
– Ora, pois para mim essa história de viagem no tempo é pura balela. Se é possível viajar para o passado, você poderia me provar isso facilmente…
 
– Não o entendo, André Lopes…
 
André não podia perder essa chance. Percebendo o ar atônito de Samael, ele prosseguiu, triunfante:
 
– É elementar, meu caro. Se algum dia, no futuro, você tiver condições de viajar para o passado, então volte exatamente para cá, nesta hora e neste lugar e apareça aqui do nosso lado para dizer que é possível viajar no tempo! Ou aparece aqui agora e diz isso ou, então, nunca pode viajar no tempo! Touché!
 
Como por um passe de mágica, uma voz surgiu ao lado dos dois debatedores, dizendo:
 
– É possível sim!
 
Era André Lopes, vestido com a mesma roupa branca de pai-de-santo, quem falava. Em sua testa havia muito suor e, do lado esquerdo do rosto, algo que parecia uma ferida ainda suja de sangue.
 
O André sentado na cadeira saltou meio metro para trás, caiu no chão e rastejou sobre o traseiro mais alguns metros antes de falar, com os olhos esbugalhados:
 
– Gahhhhhhh! Que diabo é isso!
 
Samael estava perplexo, mas anos vendo seriados como Star Trek o treinaram para agir como um bom Dr. Spock. Por isso, aparentando calma, ele dirigiu-se ao André que estava de pé.
 
– Quem é você? O que faz aqui?
 
Ofegante, André II respondeu:
 
– Não há tempo! Não há tempo! Venho do futuro, nem eu acredito ainda que isso aconteceu, mas precisamos correr para evitar a tragédia!
 
O André original levantou-se do chão e se aproximou lentamente do segundo. Esticou um dedo e foi se aproximando do rosto do outro. Quando o tocou, saltou novamente para trás e gritou, esquecendo-se que havia dito mais cedo que era ateu:
 
– Valei-me nosso Senhor Jesus Cristo! Eu não estou sonhando!
 
Samael cortou:
 
– Deixe de bobagens, homem! Não vê que estamos perdendo tempo? Por favor, André do futuro, explique-se…
 
Retomando o fôlego, o visitante prosseguiu:
 
– Vocês precisam vir comigo, ainda dá tempo de evitar o desastre. Strix vai ligar o equipamento em (consultou o relógio) menos de 45 minutos. Vamos!
 
Já correndo em direção ao carro, seguido por André I e Samael, André II prosseguiu:
 
– Eu, você e ela estávamos lá no momento em que seria feito o experimento. Ela estava tão frenética com os preparativos que se esqueceu das normas de segurança. Foi quando bandidos invadiram o local… Foi confuso, houve luta. Na confusão, a máquina foi ativada e eu corri para o feixe de luz e, então, tudo ficou calmo, todos desapareceram, percebi que eu estava sozinho no meio de um mato sem cachorro, literalmente! Gastei um tempo precioso antes de perceber que eu havia voltado quase duas horas no tempo! Só pode ter sido obra de Deus!
 
– Eu sou ateu! – lembrou André I.
 
André II nem lhe deu bola e prosseguiu:
 
– Agora temos que chegar lá em (nova consulta ao relógio) 40 minutos, antes que os traficantes invadam!
 
Eles já estavam dentro do carro de Samael, um potente BMW. Concentrado na ação, ele fez uma pergunta que era óbvia para si mesmo:
 
– Não entendo porque você, André, viajou no tempo para vir nos avisar. Teria sido mais lógico e mais produtivo se EU tivesse vindo.
 
André II suspirou e respondeu:
 
– Acontece que os caras que fizeram esse corte no meu rosto são os mesmos que te mataram… Sério, não faz nem meia hora que eu vi você levar um tiro no peito. Meus pêsames por antecipação!
 
Samael pisou fundo no acelerador. Os pneus cantaram e eles partiram rumo ao pé da favela Canta Pavão.
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2 Comentários

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2 Respostas para “Contos em Dupla

  1. haahahha “o nerd cheio da grana e ultra convencido de seus próprios talentos”…”doutorado em fisica”. Po rod essa auto imagem ta phoda hein.
    Gostei da trama, so nao cometa o mesmo erro que Heroes e Lost. Time travel nao eh facil de encaixar numa historia nao hein

    • Bom, se eu não for rico e inteligente em minha própria história, aí sim, né? 😀

      Olha, não perde o resultado do primeiro pingue-pongue com uma amiga minha que sabe participar desse tipo de jogo. Ficou muito hilário!

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