As Cinco Patinhas

AS CINCO PATINHAS

um conto de Samael Darcangelo,

para a professora Raquel Parrine,

por sua dedicação ao gênero policial.

 

Capítulo Um – O Último Chá em Petrolina

O repicar distante dos sinos da Igreja do Sagrado Coração de Jesus fez-se ouvir na aconchegante sala-de-estar do número 60 e tantos da rua Bahia. O gato que dormia numa grande e macia almofada onde se lia “The Boss” achou aquele som, como sempre, um incomodo. Já para Elisabet, aquele som significava que tudo estava em ordem em Petrolina. Afinal, era parte da ordem natural que os sinos tocassem pontualmente às 17:45, avisando que faltavam quinze minutos para o começo da missa vespertina.

A professora de Filosofia aposentada, elegantíssima em seu chambre de seda, já estava preparando sua segunda xícara de chá de capim-limão. Apesar da erva ser uma escolha bem brasileira, Elisabet orgulhava-se de manter a tradição inglesa do chá das cinco, porém servido um pouco atrasado para lembrar a todos seus amigos que Petrolina era cidade brasileira.

Ao menos num ponto, Elisabet e o gato concordavam: os sinos tinham um tom agudo irritante. De longe, os vitrais e a arquitetura neogótica da Igreja do Sagrado Coração eram a sua principal atração, o ruído dos sinos, porém… No mínimo, faziam a professora recordar uma fúnebre citação literária que ela gostava de repetir com a xícara em punho, imaginando-se dentro de um antigo filme hollywoodiano. E foi o que ela fez. Tomando cuidado para não erguer o dedo mindinho (afinal, ela era uma dama), ergueu a xícara e recitou solenemente:

– Por quem os sinos dobram?

Em resposta, para desespero do gato, foi a campainha da casa que tocou. Pela janela entreaberta, Elisabet percebeu que era o carteiro, trazendo encomenda de SEDEX. Intrigada, ela recebeu a encomenda, um embrulho grande, parecendo uma dessas caixas de ventilador, porém, estranhamente leve, leve demais até mesmo para um desses ventiladores de plástico vagabundos que são vendidos hoje em dia. Era como se a caixa estivesse cheia daqueles pasteis de vento vendidos para incautos no Bodódromo.

Ela pensou que pudesse ser encomenda de seu marido, mas o nome do destinatário não deixou dúvidas: “Elisabet Gonçalves Moreira”. Seu nome ali, no borderô dos Correios, apenas isso e nada mais.

Após despachar o carteiro, a professora de filosofia colocou o pacote sobre a mesa de jantar, ao lado de sua xícara de chá ainda fumegante, e, com a testa franzida, começou a desembrulhá-lo. Ao livrar-se do papel pardo, deparou-se com uma caixa cheia de pontos de interrogação onde estava escrito em inglês: “Tannen’s Magic Mystery Box”.

Havia um pequeno bilhete sobre a caixa. Numa caligrafia do tipo “mãe, fugi da escola!”, lia-se:

“Cara Elisabet;

A verdade está aqui dentro.

                                   D.”

Elisabet abriu um sorriso, finalmente compreendendo o que se passava. Murmurou para si mesma:

– Só pode ser coisa de… Será possível? Mas ele é louco! Ha, ha, ha, ha! HAHAHAHAHAHAHA!

Ansiosa, ela abriu a misteriosa caixa e… Nada!

Não, esperem! Inclinando-se sobre a caixa recebida, Elisabet notou que havia algumas palavras rabiscadas no fundo. Quase enfiando a cabeça lá dentro, ela conseguiu ler: “A curiosidade matou a patinha”.

De repente, a professora percebeu que estava ficando mais leve, como se a gravidade estivesse abandonando o planeta. Contudo, não era a gravidade que estava de partida. Elisabet tentou se apoiar na mesa, mas tudo o que conseguiu foi desabar ao chão, levando a xícara de porcelana consigo. Aquilo foi demais para o gato.

“Ah inferno pra ter cão! Vou armar minha rede é na cozinha!”

E o gato partiu para a cozinha, enquanto que Elisabet, de olhos arregalados, terminava de partir desta para outra, se melhor ou pior, é questão que algum outro professor de filosofia, vivo, terá que especular.

 —————————————————-

 Capítulo Dois – Raquel Scully & Fox Parrine

No Brasil, quando uma série bizarra de crimes é cometida e deixa a Polícia Civil embasbacada, chamam a Polícia Federal. E, quando essa série de crimes ultrapassa as fronteiras do racional, ao ponto dos policiais não fazerem ideia nem que quem devam torturar em busca de informações, a Polícia Federal então aciona uma dupla de investigadores especializada naquilo que se convencionou chamar de “pensar fora da caixa”.

Por isso, menos de 24 horas após a primeira morte ocorrida em Petrolina, os detetives Raquel Scully e Fox Parrine já estavam com a batata-quente nas mãos. Os dois pareciam não pertencer ao mundo real, sendo mais provável que tivessem saído ou de um seriado americano ou de alguma universidade brasileira. Suas habilidades sequer eram similares.

Raquel, uma morena pernambucana de 28 anos, cabelos compridos, fartos e encaracolados, era a praticidade e o racionalismo encarnados e bem representados na sua segunda pele, ou uniforme, como preferirem, composta por botas e jaqueta preta de couro e um jeans claro e justo como a Lei de Deus.

Por sua vez, Fox Parrine, que devia seu nome ao fato da mãe ser funcionária de um tabelionato, era um gaúcho com a mesma idade de Raquel, mas a semelhança parava por aí. Alemão de corpo esguio e alto, olhos azuis e barba sempre por fazer, sua personalidade ficava muito bem definida pelas roupas que vestia. Calças largas de xadrez feitas com fibra de bambu reciclável, casaco decorado com lhamas feito por índios bolivianos e alpargatas confortáveis cuja renda da compra havia sido revertida para a ONG “Amigos do Ibirocai”.

Fox acreditava em terapias holísticas, extraterrestres, política econômica nacional e homeopatia. Onde Raquel optava pelo racional, Fox embarcava na maionese. Por algum estranho motivo que só o destino (ou a audiência) explica, a parceria entre os dois funcionava.

Raquel já estava no escritório da Polícia Federal em Porto Alegre desde cedo, lutando bravamente contra o frio do inverno que estava começando e aguardando a chegada do “Como-Sempre-Atrasado” Fox. O caso que estava em suas mãos era espinhoso e tinha tudo para se tornar o próximo a ocupar quase todo o espaço dos noticiários nacionais. Raquel lia os resumos que lhe haviam sido entregues, erguendo as sobrancelhas.

Até aquele momento, nada menos do que cinco mulheres já haviam morrido em decorrência de terem recebido, pelos Correios, uma misteriosa caixa cheia de pontos de interrogação. Ao que tudo indica, uma vez aberta a caixa, a vítima morria em seguida. Contudo, até aquele momento, não havia sido detectado nenhum dispositivo ou animal venenoso que pudesse estar dentro da caixa e provocar a morte.

O remetente havia utilizado um nome e endereço em São Paulo mais falsos que promessas de político, de modo que, de concreto, havia apenas o texto dos bilhetes, dando a entender que o autor dos homicídios conhecia suas vítimas. As equipes de análise forense ainda estavam trabalhando nas autopsias, mas o tempo era fator fundamental, pois mais caixas poderiam estar chegando a outros destinatários naquele exato momento.

Raquel sorvia o último gole de seu café quando o detetive Parrine, esbaforido, entrou correndo na sala. Ela sequer o cumprimentou:

– Já não era sem tempo, detetive! Acabei de receber direto de Brasília a lista com o nome das vítimas identificadas até o momento e…

Fox a interrompeu, puxando um bilhete que parecia ter sido escrito em papel de pão do seu bolso. Ele limpou a garganta e listou:

– Elisabet Gonçalves Moreira, Heluiza dos Santos Bri, Joanile Guimarães Verdugo, Ana Luiza Vianna Valente do Couto e Maria Carolina Reichmann Rodrigues.

– Hein? Brasília já tinha lhe enviado esses dados?

– Não, Raquel, não recebi nenhuma documentação oficial. Essa lista foi entregue para mim agora a pouco pelos Correios. O remetente é um vidente carioca…

—————————————————-

Capítulo Três – Corra, Parrine, Corra!

Tempo era fundamental naquele caso, deste modo, menos de três horas após a entrada dramática de Parrine, os detetives já estavam dentro de um táxi no Rio de Janeiro, dirigindo-se para a Avenida Treze de Maio, no centro, onde, segundo constava no endereço do remetente, atendia o vidente Samael Darcangelo.

Enquanto o taxista lutava para atravessar a Cinelândia e se aproximar do local solicitado no endereço, Fox Parrine mal continha a sua excitação no banco de trás do veículo. Pela quarta vez, releu a carta recebida:

“Prezado detetive;

Ontem à noite, antes de dormir, fitando a água cristalina vertida dentro de uma bacia de prata, vi acontecimentos terríveis. Vi a Caixa de Pandora ser aberta. Vi mulheres caindo mortas em Petrolina e em São Paulo. Vi um gato ser incomodado em seu sono. Vi o terror que estava por vir. Vi tudo isso e ainda mais!

Sei que não acreditarás em mim, então, seguem os nomes de parte das vítimas dos horrores que vi: Elisabet Gonçalves Moreira, Heluiza dos Santos Bri, Joanile Guimarães Verdugo, Ana Luiza Vianna Valente do Couto e Maria Carolina Reichmann Rodrigues.

Sugiro que apresse-se, detetive! Sei que teu criador te deu uma mente aberta e capaz de acreditar que há algo no universo além do que crê nossa vã filosofia. Corra, Parrine, Corra!

Com afeto;

Samael Darcangelo”

A carta estava datada em 17 de junho, portanto, cinco dias antes das mortes. Era de uma infelicidade só explicada pela lerdeza dos Correios que a carta tivesse chegado às mãos de Fox somente um dia após terem sido feitas as primeiras vítimas.

Observando os pedintes espalhados ao redor da Cinelândia, enquanto refletia sobre o conteúdo, Fox comentou com sua parceira:

– Edifício Darke, número vinte e três da Avenida Treze de Maio. Foi esse o endereço que o vidente colocou no cartão de visitas que remeteu junto com o bilhete. Mal posso esperar para falar com um autêntico médium… Imagine as possibilidades se a polícia puder contar com o auxílio de alguém capaz de enxergar o futuro?

Raquel não estava impressionada.

– Olha, sobre esse cartão… “Samael Darcangelo, vidente, ‘maximum’, cartomante, quiromante, piromante e mágico amador. Faço despacho na encruzilhada, trago seu amor e o sinal da TIM de volta. Atendo a domicílio”. Sabe, Fox, é melhor irmos com calma aqui. Está me parecendo um pouco com charlatanismo, sabe?

O congestionamento ao passar pelo Teatro Municipal era tão grande que Raquel e Fox decidiram desembarcar ali mesmo e percorrer o resto do caminho a pé. O antigo edifício Darke estava espremido entre dezenas de outros, todos recheados de pequenas lojas de comércio típicas dos grandes centros.

No sobrepiso da galeria principal do edifício, quase que escondida num canto, os detetives acharam uma plaquinha sobre uma porta onde se lia:

“Samael Darcangelo, O Cartomante. Entre, por sua livre e espontânea vontade”.

Os detetives atravessaram as cortinas de contas e entraram.

A abafada e minúscula sala estava recheada com os mais diversos símbolos religiosos. Tinha de tudo ali: máscaras africanas. Estátuas de Buda, Ganesha, doutores da peste e até de carnaval veneziano. Terços, runas, cartas de tarot, enfim, um sem número de quinquilharias espalhado pelos cantos, tudo com muita cara de lojinha de R$ 1,99.

Porém, no fundo da sala, em uma pequena mesa onde o vidente deveria atender, ao lado de uma bola de cristal, estava uma pequena TV ligada, conectada a um aparelho de DVD.

Havia um vídeo pausado na tela. A imagem parecia muito com a de um desses vídeos do Anonymous que anda infestando a internet. Sob um fundo difuso, um sujeito vestido de capa preta e mascarado estava pronto para falar. A única diferença é que, ao invés da máscara de Guy Fawkes utilizada nesse tipo de vídeo, o sujeito utilizava uma máscara do…

– Mas, mas, mas… Aquele ali não é o…Pato Donald?!! – exclamou Raquel

Sem imaginar uma única resposta decente, Fox limitou-se a dar de ombros e apertar o botão Play. O Pato Donald começou a falar:

– Seja bem-vinda, minha cara Raquel! Eu, logicamente, não estaria na profissão em que estou se não soubesse que você viria até aqui hoje. Peço que me perdoe por não poder atendê-la no momento, pois estou ocupado, trabalhando em um conto onde pretendo sacanear alguns pós-modernistas que conheci neste semestre. Aliás, já te contei que, entre as minhas muitas habilidades, também atuo como escritor amador de vez em quando?

“Bom, mas vamos ao que interessa! Vi o nome das vítimas e vi mais. Vi que o assassino que estão caçando é alguém de recursos ilimitados. Ele é um adversário poderoso e não ousará em mover montanhas se isto for necessário para comprovar o seu ponto-de-vista.”

“Vejo e sei que haverá mais mortes antes do final, portanto, tenham cuidado! Isso é tudo o que posso lhes dizer neste momento. Boa caçada!”

E o vídeo terminou ali.

– E agora? – perguntou Fox, desconcertado.

– Agora, meu caro, vamos nos hospedar no hotel com WiFi mais próximo daqui. Temos coisas demais sobre as quais refletir e tempo de menos!

—————————————————-

Capítulo Quatro – Jack, Jon & Jin

No saguão do hotel Windsor Asturias, Raquel falava sem parar em seu iPhone e também digitava furiosamente em seu Macbook, enquanto que Fox preferia refletir sobre os últimos acontecimentos no American Bar do hotel. Segundo ele, quando um caso estava muito complicado, só mesmo com um auxílio dos amigos Jack, Jon e Jim.

O que estava ocorrendo poderia mudar a forma como as investigações eram conduzidas no mundo inteiro, mas, antes de mais nada, era preciso desvendar o caso, agarrar o assassino, e provar que isto só havia sido possível graças a uma ajuda muito além da Ciência. Uma ajuda vinda de alguém que simplesmente viu o futuro!

“Chupem, Ciências Duras!” – pensou Fox enquanto erguia seu copo em um brinde silencioso.

Ele não pode completar o drinque. Mesmo ao longe, a voz de Raquel trovejou:

– FOX! É aí que você se enfiou? Venha depressa! Creio que o caso está resolvido!

Os detetives voltaram correndo até o saguão. Raquel explicava tudo em linguagem apressada:

– Estou há mais de três horas alternando entre pesquisas na internet e telefonemas! Nossas equipes forenses começaram a enviar os resultados. As vítimas morreram por terem inalado subitamente grande quantidade de gás cianeto de altíssima concentração.

– Cianeto?

– Sim! As caixas eram revestidas de plástico, formando um tipo de bolsa de contenção cheia com esse gás. A vítima, atraída pelo recado macabro escrito no fundo das caixas…

– “A curiosidade matou a patinha”. – lembrou Fox, não conseguindo conter um arrepio.

– Isso! A vítima quase enfiava a cabeça dentro da caixa e inspirava uma dose letal do veneno.

– Caramba!

– E não é só isso! Estive tentando estabelecer uma relação entre as vítimas. Ora, se todas elas conheciam o assassino, então que tal se elas também se conhecessem umas as outras?

– Mesmo morando em lugares tão distintos como São Paulo e Petrolina?

– Essa é uma dificuldade. Porém, em tempos de internet, ora… Não seria justamente esse o catalisador desses relacionamentos distantes? Foi por aí que iniciei as pesquisas. Tive que apelar até para determinado setor da Casa Branca especializado em monitorar conversas via e-mail e Facebook

O detetive Parrine ficava horrorizado com esses métodos de investigação “tipicamente imperialistas”. Preferindo não saber dos detalhes, cortou as explicações de Raquel:

– E o resultado disso?

– Elas se conheciam, Fox! Todas elas frequentaram, durante este semestre, um curso de Ensino à Distância cujo tema era Literatura Policial!

“E tem mais! Consegui acesso ao curso em questão, promovido pela UNIVASF, e estou há duas horas lendo todas as mensagens postadas no fórum do curso.”

Raquel parou para respirar. A cabeça de Fox, não se sabe se pelo uísque, ou se pela quantidade de informações e energia vindas da pernambucana, girava mais que a Roda Viva de Chico Buarque. A detetive Scully continou:

– No primeiro fórum, foi proposta uma Caixa de Tannen, contendo um mistério. Uma caixa cheia de pontos de interrogação que conteria “não se sabe o que dentro dela”. Trataram das maravilhas do mistério acerca de seu conteúdo e a maioria por lá afirmou que não abriria uma caixa dessas, preferindo manter o suspense do que revelar seu conteúdo. No entanto, teve um certo Rodnei-Rodnei afirmando que aquilo era balela e que todos abririam a Caixa!

– Rodnei-Rodnei?

– Não me pergunte! O nome provavelmente é apenas Rodnei. Deve ter sido alguma falha da criadora do curso que, depois disso, se esqueceu de corrigir. Se ela soubesse o quão perigoso é esse infeliz, teria tomado providências para consertar o erro rapidamente!

– Espere aí, você está dizendo que esse Rodnei é o assassino?

– Claro! Fox, é um crime de afirmação! Esse lunático quis demonstrar que todas as moças que o humilharam no curso, dizendo que não abririam a tal caixa, na verdade abririam se recebessem uma caixa dessas na vida real! E foi o que ele fez! Mandou a morte para cinco pessoas que ele jamais havia visto pessoalmente, apenas para provar um ponto-de-vista!

– Que bando de gente louca esse que lê romance policial! Mas, como vamos botar a mão nesse cara?

– Calma que ainda não acabei! No fórum, a cada semana discutia-se sobre uma obra do gênero. Logo após a Caixa de Tannen, debateram sobre A Carta Roubada de Allan Poe e…

– Eu lembro dessa estória! – interrompeu Fox, confessando sem querer que também era um “louco” do grupo que lê romances policiais – Trata-se daquela onde o bandido prevê as ações da polícia, mas o detetive particular acaba vencendo-o por ser mais malandro!

Raquel franziu a testa.

– Um pouco mais de foco, por favor! Logo a seguir, debateram A Cartomante, de Machado de Assis! A CARTOMANTE, Fox, percebe?

A cara de ponto de interrogação do companheiro, fez Raquel prosseguir:

– Um conto de Machado de Assis onde os personagens visitam uma cartomante que atende na Rua da Guarda Velha!

– E..?

– Rua que hoje virou a Avenida Treze de Maio!

O queixo de Fox Parrine desabou:

– Raquel! Então, é isso! Está tudo interligado! O ciclo se fecha, graças às visões de nosso vidente Samael!

A detetive ergueu-se do sofá com cara de “Jesus, Misericórdia!”. Correndo em direção a porta do hotel, ela gritou para Fox:

– Venha! Vamos fazer uma nova visitinha ao senhor Samael Darcangelo, ou melhor, ao senhor Rodnei-Rodnei! Creio que ele não vai gostar de nos ver! Mas, antes, vamos passar na delegacia para pegar uma proteção extra!

  —————————————————-

Capítulo Final – Mais Um Bueiro

No lusco-fusco do final de tarde, já na entrada da galeria do Edifício Darke, Raquel sacou a sua 9mm. Fox ainda estava deprimido, assimilando a ideia de que ainda não fora dessa vez que encontrara algo além da Ciência.

– Tem certeza de que é necessário, Raquel?

– Pelo amor de Deus, Fox! O homem é traiçoeiro! Todo cuidado agora é pouco. Os reforços já estão isolando o perímetro, mas faço questão de por as mãos eu mesma nesse “vidente de meia tigela”. Tome, coloque a sua máscara!

Raquel havia se precavido. Sabendo que o assassino lidava com gás letal, trouxera máscaras anti-gases apropriadas e armas de grosso calibre da delegacia. O vidente não escaparia com mais alguma artimanha.

Chegaram em frente à entrada da salinha onde atendia o suposto cartomante. Ajeitando suas máscaras e, com Raquel de arma em punho, atravessaram as cortinas.

Lá dentro, tudo parecia como antes, até mesmo a TV ligada com um vídeo pausado na tela. Uma ligeira diferença na posição do “Pato Donald” indicava para a detetive que se tratava de um novo vídeo.

E, no lugar onde antes havia uma Bola de Cristal, estava agora uma Caixa de Tannen…

Fox, novamente, porém com muito mais cuidado, apertou o botão Play.

“Minha querida Raquel!

Vejo que você desvendou o mistério, afinal!

Não foi uma obra-de-arte? Sim, sim, eu sei que houve algumas mortes, mas o que é isso comparado à beleza de uma estória bem contada?

Imagino que agora você queira, mais do que nunca, colocar as mãos no artista responsável por essa criação, não é mesmo?

Bem, é o seu dia de sorte! Dentro dessa Caixa de Tannen, juro por minha honra, existe, entre outras coisas, um papel contendo meu nome completo, uma confissão dos crimes por mim assinada e meu atual endereço. Comprometo-me a ficar nesse endereço até às 20:00 desta noite.

No entanto, recomendo cautela! Sabe o que dizem sobre a curiosidade, minha cara?”

Raquel respirou fundo. Felizmente, o assassino não contava que o seu gás letal já havia sido descoberto. Contando com as máscaras, os detetives podiam abrir a caixa e virar o jogo. Ela começou a cortar o lacre que matinha a tampa fechada.

Fox, suando bicas, cochichou:

– Raquel, sabe aquele conto da Carta Roubada?

– Isso é hora, Fox?

– Pois então! Não consigo deixar de pensar que, naquela estória, o bandido previa os passos da polícia…

– Sim, e daí? – Raquel começou a erguer a tampa da caixa.

– Bom, e daí que se esse Rodnei, Samael, sei lá… Enfim, se esse maluco andou prevendo que chegaríamos aqui com máscaras e…

Raquel terminou de erguer a tampa, acionando o mecanismo detonador da barra de explosivo C4 que havia sido armado dentro da caixa.

A explosão foi ouvida a dois quarteirões de distância, mas os transeuntes cariocas de final de tarde limitaram-se a imaginar que se tratava de mais um bueiro explodindo pela região.

Do bilhete escrito por Samael, que também estava dentro da caixa, restou apenas um pedacinho da parte final, onde, apesar dos chamuscados, se podia ler o seguinte:

“…

Um destino tão funesto / Se não é digno de Raquel, / É digno de Parrine.

D.”

 —————————————————-

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Não categorizado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s