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Rio, centro…

Logo após cumprir todas as minhas obrigações relativas à execução de my old friend, restou-me um dia livre para passear pelo Rio de Janeiro.

Estávamos, eu e Lisa, hospedados no Hotel Íbis em frente à Praça Tiradentes, na região central da cidade. Durante o fim de tarde de domingo, ficou por conta da Lisa elaborar, com ajuda do Google Maps, nosso roteiro de passeios para o dia seguinte.

Antes, porém, minha com sorte cismou que deveríamos conhecer os agitos da noite carioca, uma vez que estávamos ao lado dos Arcos da Lapa, região onde a vida cultural fervilha.

Quem faz a fama, deita na cama – é o que mais ou menos diz o ditado. Pois, então, ao sair do hotel para irmos até uma casa noturna chamada “Scenarium”, eu estava num estado de alerta que parecia o Capitão Nascimento incorporando Chuck Norris!

Antes da viagem, ainda em Floripa, montei o meu “Kit Rio”. Foi uma ideia típica de gênio que consistiu em comprar uma carteira nova, pequena, discreta e de couro. Nela, pus minha carteira de motorista que serve como comprovante de CPF e de Identidade, um cartão de crédito e o dinheiro.

Enquanto que essa carteira discreta ficou camuflada em um bolso interno da calça, minha gigantesca, estufada e antiga carteira ficou no bolso tradicional, cheia de trocados e com alguns cartões de plástico muito valiosos, tais como o do Clube Angeloni. Complementando o disfarce, coloquei nela minha carteira de identidade do Pato Donald. Pronto: Kit Rio preparado para assaltos.

Qualé, rapaziada? Malandro é malandro, mané é mané… Quem disse que gaúchos não podem bancart os ishhpertos de quando em vez?

Bueno, então, voltando aonde eu estava. Aonde eu estava mesmo? Peraí, deixa eu ver…Ah, claro, estávamos indo para o tal Scenarium. Minha cabeça corria o risco de cair no chão, desatarraxada do pescoço, de tanto que eu a estava girando para todos os lados. Qualquer um que se aproximasse, pensava eu, era a deixa para uma luta corporal, o que permitiria que a Lisa escapasse na corrida.

(Super mouse o seu amigo, vai salvá-la do perigo…)

Felizmente, nada aconteceu nas três quadras que percorremos. Sim, essa era TODA a distância que nos separava do local  da festa!

Lá chegando, uma surpresa desagradável. O tal Scenarium devia (talvez ainda deve) ser um lugar da moda. Isso significava uma fila de pelo menos quarenta pessoas aguardando para entrar!

Toda a extensão da rua estava tomada por barzinhos e percebemos que, ao lado do local aonde queríamos ir, havia um outro, menos cheio, chamado Santo Scenarium. Foi um achado espetacular! Um casarão antigo, repleto de estátuas e quadros sacros. Ali, no meio desse ambiente santificado, rola o samba de raiz e você nem precisa ir muito longe para dar um golinho de sua cachaça preferida para o santo. Foi uma noite muito agradável.

No dia seguinte, Lisa pegou seu roteiro  googolizado e partimos para explorar as atrações do centro do Rio. Logo de saída, alguma quadras adiante, apareceu um escorredor de espaguete gigante.

“Olha, Sam! Aquela é a Catedral de São Sebastião. É considerado o prédio mais feio do Rio!”

Eu olhei aquilo e tive que concordar. Estava prestes a dizer algo como: “é um conjunto arquitetônico muito pesado e…”, só que Lisa cortou meus pensamentos com uma dessas perguntas afirmativas que as mulheres fazem quando na verdade não estão fazendo uma pergunta e sim dando uma ordem:

“Vamos lá conhecer?”

Ok. É o prédio mais feio do Rio, vamos lá conhecer… (e o passeio começava a se transformar numa aventura pelo País das Maravilhas).

Visto o interior da catedral, que até que nem era tão feio – apenas lúgubre e mal iluminado, chegou a hora da minha guia me levar para um outro ponto da cidade. E anda para lá, anda para cá, parecia que o Real Palácio de Literatura Portuguesa (ou alguma coisa assim) estava muito, muito longe. Tive a impressão que estávamos chegando em Niterói, quando a Lisa exclamou:

“Chegamos na praça!”

“Ufa!” – eu disse – “Caramba! Que longe! Em que praça estamos?”

“Na Praça Tiradentes!”

“Ah, bom, na Praça Tirad…” – Espere um minuto!

Sim, sim. É exatamente isso que vocês estão pensando. Minha guia imprimiu o mapa certo, apenas saímos andando para o lado errado.

Então, com o barco de volta à sua rota, fomos explorar o centro do Rio.

Eu tenho uma opinião sobre essa cidade tão cantada em prosa e verso: é a capital do país.

Não importa que lunáticos tenham inventado Brasília lá no meio do deserto. Não importa que São Paulo tenha poder econômico suficiente para colocar o Rio no bolsinho do colete. Tudo o que importa é que o coração do país pulsa nessa cidade e ela acaba refletindo o que há de melhor e o que há de pior no Brasil. Tudo junto, misturado, bem como somos em nossa essência.

Alias, lá estava eu, acho que no fim de tarde da segunda-feira, visitando os domínios de my old friend. Logo que entrei em território inimigo, fui para a sacada e fiquei olhando a paisagem e vendo a história que aquele cenário tinha para me contar.

Lá longe estava um morro cheio de barracos. Do outro lado, imponente no alto de uma montanha, uma igreja enorme, parecida com o Castelo de Greyskull. No meio do caminho, algum idiota estava construindo um prédio enorme, provavelmente um shopping, que, se continuasse a crescer, encobriria a vista daquela igreja deslumbrante.

Como que lendo meus pensamentos, o Senhor daquele espaço se materializou ao meu lado e começou a explicar:

“Ali é o Morro do Alemão. Desse outro lado, lá no alto, você pode ver a Igreja da Penha. Aquele shopping que está subindo ali é da Universal”.

Sabem, acho que da sacada de sua casa, my old friend pode ver claramente TUDO o que está acontecendo no Rio hoje em dia. É de arrepiar.

Ok, me perdi de novo, onde é que eu estava mesmo? Ah, sim! Eu e Lisa, na rota certa, chegamos ao centro propriamente dito.

Tinha de tudo lá. Casarões caindo aos pedaços ao lado de lojas que eu só costumo visitar em sonhos. Entramos em uma chamada O Lidador. Gente! Na placa estava escrito “Desde 1927”, ou algo antigo assim. É uma loja de bebidas e iguarias finas, daquele tipo que ainda tem as escadas para o vendedor subir e pegar o produto que você quiser lá do alto. Eu só tinha visto isso em novela de época.

O licor de Rosas italiano foi logo adquirido e, mesmo sem ter em estoque a tão procurada Angostura, a vendedora SABIA do que se tratava e até informou que vendera a última garrafa no mês passado.

Depois do Lidador, veio o Arlequim. Uma maldade, minha gente, uma maldade! Uma loja inteira de CDs e DVDs clássicos! Organizados por Diretor! Tinha o Fellini, o Kubrik… Tinha seções de Blues e Jazz. Minha única queixa foi não achar a prateleira do Sérgio Leone! Gronf…

Pausa para o almoço. Como é fácil achar um bom restaurante português que sirva um Bacalhau às Natas decente no centro do Rio. Pena que também se acha muita coisa que não deveria estar ali. Por exemplo: a visão do inferno.

Agora eu sei o que vai estar me esperando no inferno se eu não me comportar!  Foi numa das esquinas do centro do Rio que eu as vi. As três fúrias, ou melhor, as três gordonas de microshortinho, dançando funk de modo libidinoso, agarradas ao poste da esquina. Brrrr… Juro que vou me comportar bem e tentar ir para o céu!

Então, chegamos a Livraria da Travessa. Mais compras! Não pude resistir à “Platão e um Ornitorrinco Entram Num Bar…” – mas essa é outra história…

O Real Gabinete de Leitura Portuguesa (não, ainda não é assim…) foi um dos primeiros lugares que conhecemos na expedição, mas, por incompetência de minha parte, ficou aqui quase no final do email. Um lugar imponente e indispensável  como roteiro para turistas que são ávidos leitores. Tinha um povo lá, lendo esquecidos tomos de artes imemoriais e fazendo anotações enigmáticas. Quase pirei imaginando o que estavam tramando!

Também li em painéis espalhados pelo Gabinete alguma coisa que um tal Alexandre Herculano escreveu no século passado. Era sobre política. Bom, digamos apenas que Herculano está mais atual do que nunca.

De volta ao centro do Rio, foi a vez de descermos até as margens da Baia de Guanabara. Ok, estou ousando aqui, mas acho que aquele mar na nossa frente, com Niterói do outro lado DEVE ser a famosa Baia. Por ali, a visão mais empolgante ficou por conta de uma espécie de castelo na beira do mar. Estávamos perto do local onde se pegam as balsas para o outro lado e o tal castelo estava distante, à esquerda.

Infelizmente, nem o São Google nos ajudou a descobrir que raio era aquilo. Pior que estava inacessível para uma visita (naquela altura da caminhada, qualquer coisa além de duzentos metros estava longe demais).

Na volta para o hotel, encontramos o Escritório do Pixinguinha! Um bar, claro, com uma estátua homenageando o compositor. Fotos, fotos, claro.

Ah! Falando em fotos, quero fazer uma denúncia: Lisa perdeu uma foto histórica!

Lá estava eu, posando ao lado da vitrine da Confeitaria Colombo, esperando Lisa tirar uma foto. Nisso, passou por mim um senhor, óculos de aro redondo, barbona castanha meio encaracolada…

Comecei a acenar para a Lisa, querendo dizer: “Rápido, rápido, tire uma foto!”

Cheguei a dar uns passos para o lado, tentando seguir o barbudo, mas Lisa não se tocou. E, assim, perdeu-se a foto histórica mostrando o encontro casual de Samael com Machado de Assis, ambos ao lado da Confeitaria Colombo!

Por fim, passamos por uma mulher vendendo um determinado tipo de fruta numa banquinha. Eu comentei com a Lisa:

“Essa daí sim que é a legítima MULHER-PERA!”

“Sam, do que você está falando?”

“Ora, da mulher vendendo peras ali atrás…”

“Aquilo são goiabas.”

“Bah! Não seja absurda!”

Falei as palavras erradas e fiz a Lisa empacar.

“Vamos voltar!”

Topei a parada e resolvi apostar:

“Vale um capuccino. Vamos lá ver as peras da mulher!”

Gente, eu devia ter suspeitado desde o princípio que, pelo aspecto, a vendedora não podia ser a Mulher-Pera. O diálogo que se seguiu foi mais ou menos assim:

“Boa tarde, minha senhora. Que frutas são essas?”

A mulher me olhou com uma cara que só faltou me perguntar em voz alta onde eu havia pousado do disco-voador:

“São goiabas.”

Depois dessa, só me restou juntar a bagagem no hotel e abandonar a Cidade Maravilhosa. Porém, como diz o Anonymous Gourmet lá da minha terra, uma coisa eu posso garantir:

“Voltaremos!”

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Dieta do Esquilo

Bah!

Quando me disseram que castanhas, amêndoas, pistaches e nozes ajudavam a pessoa a emagrecer, fui correndo comprar uma porção. Antes de correr, eu deveria ter perguntado qual era o sistema pelo qual uma noz faz uma pessoa perder peso.

Cinco minutos após voltar do mercado com quase meio quilo de amêndoas, pistaches e castanhas portuguesas, descobri que era impossível abrir aquelas coisas capeta! A imagem do esquilo pré-histórico da Era do Gelo me veio a cabeça.

A unica coisa que cedeu aos meus esforços com o pinholino (um descascador de pinhôes, já que quebra-nozes não existe aqui no mato) foi a castanha portuguesa. Só que eu não sabia que essa castanha era portuguesa não no sentido gastronômico, mas sim no sentido anedótico da palavra. Por dentro, parecia um amendoim mofado e, ainda por cima, com casquinhas por dentro das dobras. Enfim, nada na anatomia da castanha portuguesa faz o menor sentido.

Mesmo assim, comi uma. Aquele mofo verde tinha um gosto horrível e imediatamente me lembrei de um episódio de House onde alguém quase morreu envenenado por selênio porque havia comido nozes. E se a castanha portuguesa só podia ser comida depois de torrada? Além de morrer envenenado, ainda teria que aturar o meu arqui-inimigo lusitano, André Lopes, rindo da minha cara, ó pá!

Tomei um copão da água e resolvi apelar: torrei tudo! Resultados: as amêndoas viram algo que nem o Hulk conseguiria quebrar, as castanhas portuguesas viraram algo capaz de quebrar até dentes-de-sabre. Já os pistaches, mais discretos, simplesmente viraram pó.

Realmente, esse tipo de comida emagrece!

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O Estranho Causo da Bruxa Envelopada

Atenção, senhoras e senhores, para este causo pedirei a participação especial do fadista André Lopes. Por favor, André, se posicione ali no canto com sua guitarra portuguesa e aguarde instruções.

O Estranho Causo da Bruxa Envelopada

Lá estava eu, no quarto, escutando música através dos fones de ouvido e acompanhando a letra através do aplicativo SongBird. Minha mente indagava sobre o motivo do fracasso da minha série de e-mails Cinco Músicas de Metal para escutar Antes de Morrer. Alias, que título horrível, maldito Famous Grouse. Um dos motivos, pensei eu, era que eu não tinha cinco músicas de metal, sem contar as do Metallica, para indicar. Então, de onde eu inventei esse cinco? Porém, o motivo principal do fracasso foi a minha absoluta incapacidade de transmitir através de palavras a sensação exata que a música me causava.

Por exemplo, Orgasmatron, que eu estava ouvindo naquele momento, era perfeita para constar na minha série. Uma letra que conseguia, em três parágrafos, apontar o lado negro da Religião (1), da Política (2) e da Guerra (3). Porém, como transmitir em palavras o sarcasmo na voz do sensacional Lemmy?

Foi aí que, no meio da música, eu escutei "Sam! Sam! Aiiiiii……". Ora, bolas! Lemmy não grita Sam, Sam com voz fina. Tirei os fones de ouvido e percebi que os gritos vinham da sala. A mocinha estava em perigo e era hora do nosso herói entrar em ação.

(André…)

Super Mouse, o seu amigooooo

Vai salvá-la do perigooooo!

Sem demora, corri para a sala e percebi que a origem da confusão vinha do fato de Nino, o canalha amarelo, estar perseguindo uma mariposa gigantesca que havia invadido o recinto. Nós, gaúchos, chamamos esse tipo de mariposa de Bruxa, mas isso não vem ao caso. A mocinha em pânico gritava:

"Nino! Não come isso que você vai se intoxicar!"

Nino está se recuperando de uma colangio-hepatite que quase o fez bater as patas, de modo que percebi de imediato qual era minha heróica missão naquela noite: Salvar o gato!

E lá fui eu…

(André…)

Super Mouse, o seu amigooooo

Vai salvá-lo do perigooooo!

Dei um salto e me interpus entre Nino e a Bruxa. Ele parou e a mariposa teve tempo de tentar escapar, voando para baixo da mesa. Péssima decisão, pois embaixo da mesa, observando daquele canto escuro e protegido, estava Amélie, a irmã de Nino. A demonstração de elegância foi incrível, pois a gata sequer precisou se levantar, apenas esticou uma de suas patas negras e imobilizou a mariposa, pressionando-a contra o chão. Amélie fez isso e então ficou olhando para mim com aquelas aquelas pupilas ofídicas envoltas nos olhos amarelos que se destacam tão bem na escuridão. Senti um arrepio percorrer minha coluna e só não revirei os olhos porque isso aqui é uma aventura séria e não uma patacoada adolescente.

Naquele momento, acho que a mariposa entendeu que aqui em casa o Perigo veste amarelo, mas a Morte Certa anda de preto. Felizmente para o inseto, eu dei um passo em direção à mesa e Amélie liberou sua presa, afastando-se.

Então, a bruxa voou em direção ao sofá e novos gritos da mocinha em apuros se fizeram ouvir:

"Aiiii! Que bicho horrível!"

Nova missão para o herói e dessa vez muito mais condizente com a bravura do mesmo: Salvar a mocinha! Agindo com a desenvoltura e velocidade de um panda lutador de kung-fu, eu corri para o sofá e…

Super Mouse, o seu amigooooo

Vai salvá-la do perigooooo!

…Pulei e fiquei entre a mocinha encolhida num canto e a bruxa, meio atordoada, caminhando sobre o braço do outro canto. Saquei minha espada emborrachada, também conhecida como Havaianas Surf, e me preparei para executar a vilã.

Nisso, a mocinha, recobrando a calma, pode olhar melhor para a mariposa. Era um espécime daqueles que a natureza achou por bem camuflar. Suas gigantescas asas imitavam perfeitamente, quando abertas, uma grande folha seca, permitindo que o animal passasse despercebido quando pousado nos troncos das árvores. Parte de uma asa estava até meio carcomida, como se as larvas tivessem atacado ali, tornado o disfarce ainda mais perfeito. Hmmm, se bem que esse detalhe da camuflagem me pareceu ter sido uma contribuição do Nino…

A ex-mocinha em perigo deteve minha ação com uma nova ordem:

"Ei! Que animal interessante! Não mate!"

Desta forma, pela terceira vez em um minuto, a missão do herói foi alterada. De salvador do gato, passei para salvador aa mocinha e, agora, me tocava salvar o inseto.

Lá vamos nós…

Super Mouse, o seu amigooooo

Vai salvá-la do perigooooo!

Muito obrigado, André, sua participação se encerra aqui. Senhoras e senhores, este foi o fadista português André Lopes. Por favor, uma salva de palmas.

De alguma forma inexplicável, surgiu um envelope A4 branco na mão da mocinha e minha tarefa então era capturar com vida a bruxa invasora. Eu já fiz muitas coisas com insetos: esmaguei com o chinelo, queimei com álcool, eletrifiquei com mata-moscas elétrico. Porém, nunca na vida, imaginei-me tendo que envelopar uma mariposa gigante. Imaginem que eu sequer tinha o endereço da Sociedade Brasileira de Entomologia…

Consegui cumprir minha missão, não me perguntem como e, depois de alguns instantes, a bruxa estava voando, novamente livre, pelas ruas de Floripa.

Essa foi mais uma aventura fantástica de Samael, o Herói do Cotidiano.

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O Estranho Caso do Pássaro Ren-te-ria

Eu adoro pensar que, por já ter lido centenas de livros com estórias de detetive, acabei me tornando um. Isso tanto é verdade que até casos eu resolvo de vez em quando. Meu último problema solucionado, por exemplo, foi um desafio todo especial e vou contar para vocês como foi.

Lá estava eu, num final de tarde, dentro do banheiro, sentado em um banquinho defronte ao vaso sanitário, envolvido pela difícil tarefa de tentar cortar as unhas dos pés, fazendo com que os pedaços cortados caíssem todos dentro do vaso.

"Eu não quero saber de pedaços de queratina espalhados pela casa!" – foi essa a ordem matrimonial emitida pela minha com-sorte que acabou me colocando com a cara enfiada no vaso sanitário sem sequer ter ingerido álcool em excesso para chegar a este ponto.

Naquela situação um tanto humilhante, fiz o que todo homem faz quando corta as unhas dos pés, ou seja, comecei a me preocupar com grandes questões universais.

"Será que os reforços colorados para essa temporada podem garantir o nosso segundo título da Libertadores?"

Refletindo sobre essa importante questão, foi inevitável chegar ao Renteria. Esse bom jogador colombiano foi uma peça importante no Inter de alguns anos atrás, mas parece que agora anda meio que jogado de lado em algum outro clube.

"Ora, nesse caso, porque o Inter não trata de repatriar o Renteria?"

Nisso, ainda de cara enfiada no vaso, cortando as unhas, escuto um pássaro cantar na rua:

"REN-TE-RIA! REN-TE-RIA! REN-TE-RIA!"

Vocês não acham lindo o canto dos passarinhos? Se acham isso, se mexam e tratem de ir visitar o campo mais de perto, pois é óbvio que não estão escutando os pássaros aí onde estão agora!

O fato é que poucos são os pássaros cantores que não enchem a paciência de qualquer um após a centésima repetição do mesmo piado. E o galo, então? Pelo amor de Deus, o galo… Essa história de que ele canta para anunciar o amanhecer é sempre mal contada. Sabem qual é o verdadeiro método do galo para cantar justamente antes do sol nascer? Ele começa os ensaios por volta das quatro da madrugada!

"CÓ CÓ RI CÓ!" (ou "CÓ CÓ RI CÓRR!", se for um galo do interior paulista) – canta o galo e então dá uma espiada para ver se apareceu o sol.

Não apareceu.

"Xi! Errei! Deixa eu tentar de novo… CÓ CÓ RI CÓ!" – e vai-se embora, cantando até acertar. Durma-se com um barulho desses!

Voltando ao caso, eu concordei com o passarinho:

"É isso mesmo, amigo, REN-TE-RIA! Por que não o REN-TE-RIA?".

Foi quando senti um arrepio na espinha e quase corto um pedaço da carne ao invés da unha do dedão. Em qual universo um pássaro cantor poderia responder aos meus pensamentos com tal precisão? Pior, como ele podia estar piando justamente a onomatopeia perfeita para soar como REN-TE-RIA? Um pássaro com inteligência sobrenatural? E eu ali, imobilizado no banheiro, cara enfiada no vaso, sem poder ver o animal, apenas escutar seu piado-resposta.

Será que eu, um detetive de bolso, conseguiria desvendar o caso, mesmo estando com a cara praticamente enfiada em um vaso sanitário?

"Ordem e método, Hastings" – foi a primeira coisa que lembrei. Depois, recordei também de uma jornalista da Revista Piaui que disse que costumava listar todas as coisas que existem em ordem alfabética, antes de dormir, para que o sono viesse logo.

Ora, eu podia tentar aquele método com pássaros e, talvez, adivinhar qual era a identidade do passarinho mágico. No máximo, minha com-sorte me encontraria dormindo no banheiro.

Foi o que fiz. No entanto, já na letra A vi a imensa dificuldade da tarefa à qual me propus realizar:

"Andorinha, Albatroz, Ave-do-Paraíso (em Floripa, Samael?), Andorinhão… (se bem que andorinhão já me pareceu uma trapaça)".

Nesse ponto, acabaram todas as aves com letra A do meu repertório!

Letra B…

Sucesso! Na primeira ave que pensei com a  letra B, a onomatopéia, de REN-TE-RIA, mudou imediatamente para algo bem mais agradável.

Assim, amigos, esse foi mais um caso resolvido de forma brilhante pelo fantástico Detetive do Cotidiano.

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A Cocoroca Gigante

Uma das coisas que mais me aborreciam aqui nesta ilha era que, desde a minha chegada, eu jamais conseguira pescar um peixe sequer.

Imaginem, cheguei botando banca de pescador e tudo o que consegui foi me perder no meio do mato sem cachorro. Naquela ocasião, só sai do matagal com metade da minha vara de pescar, isso depois de ter rolado uma ribanceira cheia de gravatas.

Tudo o que eu tinha conseguido de peixes eram dois baiacus, ou um baiacu apenas que eu acho que pesquei duas vezes. Enfim, um peixe feio, venenoso e que fica miando quando está fora da água.

Tudo mudou neste final de semana e eu sabia que iria mudar porque era hora e eu estava pronto. Comprei uma vara nova, um molinete novo e escolhi um lugar impossível de se perder: Pontal de Daniela, com vista única para a ponte Hercílio Luz, lá ao longe.

E foi assim que, após duas horas de boa pesca, voltei para casa carregando nada menos que cinco peixes comestíveis! Dois bagres, duas cocorocas e a peça mais nobre da coleção: um papa-terra de tamanho médio!

<momento história de pescador>

Na verdade, fisguei sete peixes, mas dois me escaparam na beirada. Um por estar mal fisgado, o outro… Ah, o Outro! Era um peixão, minha gente! Uma cocoroca gigante que eu trouxe até a beirada. Olha, conforme ela saia da água, o nível do mar ia baixando alguns metros! Infelizmente, a infeliz cortou a linha com uma dentada!

</momento história de pescador>

A Lisa não deu tanta bola assim para o pescado, mas Nino, o gato que andava doente, acamado e sem forças nem para miar, ressuscitou! Foi eu chegar com o peixe e ele imediatamente se materializou na cozinha.

Nino, o bardo, e sua sinfonia em Mi Maior: "Ode ao Peixe", "A Saga do Gato Faminto" e a "Canção em Prol da Generosidade Humana" foram algumas das tradicionais peças miadas por ele em seu show, o Show do Mião.

Óbvio que, no fim da história, Nino e Amélie ganharam quase todo o peixe e eu e Lisa tivemos que ir matar a fome no Festival de Comida Mexicana. Afinal de contas, existem prioridades que não podem ser ignoradas. Quem ia aguentar o canalha amarelo durante a semana, caso ele ficasse sem peixinho? De todo o modo, é muito melhor ver o Nino incomodando do que vê-lo jururu e doente.

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O Causo da Onda Esquisita

Aproveitando o último dia de férias, Lisa me incumbiu de planejar um passeio. Eu tinha várias opções. A primeira que me passou pela cabeça foi uma visita à praia de Pântano do Sul, onde é possível caminhar pela areia e encontrar até estrelas-do-mar e outras coisas exóticas. Porém, e se chovesse?

Pensei então em ir para o meio caminho da Serra, comprar mel num lugar chamado Angelina. Porém, era viagem de quase uma hora e só tínhamos meio turno para o passeio. Foi aí que decidi por visitar Jurerê, uma praia do norte da ilha, local do nosso casório.

O meio-turno logo se transformou em um quarto, devido ao sol forte e calor insuportável. Simplesmente não dava para sair de casa após o meio-dia. Decidimos sestear e sair após a metade da tarde.

No primeiro momento, achamos que tínhamos feito um bom negócio, pois nuvens encombriram o sol e um vento refrescante começou a soprar. No entanto, já quase chegando a Jurerê, percebemos que as nuvens estavam pretas, nem cinza mais elas eram! Uma massa da água gigantesca suspensa sobre nossas cabeças, e quanto aquele vento refrescante… bem:

– Sam, tem um monte de folhas secas nos ultrapassando.

E eu, achando que a Lisa estava novamente de sacanagem com o Brisa Negra, porque ele tem motor 1.0:

– Imagina! Nós estamos a 80 km por hora! Se têm folhas passando a gente, chama o guarda pra multar!

Nisso, uma tampa de plástico atingiu violentamente o carro e os primeiros pingos de água começaram a cair. Nos abrigamos no Trilegal, uma lancheria macanuda que tem lá em Canasvieras e esperamos a tormenta passar, comendo isca de peixe e tomando limonada. Nem chegou a chover muito, mas, observando as nuvens que estavam carregadas mais para o leste e sul da ilha, não pude deixar de comentar com a Lisa:

– Vamos ficar de olho naquele gordinho ali na praia, se ele correr para as montanhas, vamos seguindo ele antes do tsunami chegar.

E foi só isso, voltamos para casa numa boa.

No dia seguinte… Vocês lembram para onde eu queria ir em primeiro lugar, né? Pois então, imaginem minha cara ao ver o Jornal do Almoço e ficar sabendo que os ventos chegaram mesmo aos 110Km por hora! Fui ultrapassado pór um bando de folhas secas!

Já lá no Pântano do Sul, uma Freak Wave resolveu invadir a praia onde eu me imaginei passeando com a Lisa! Sim, uma onda gigante invadiu a praia e levou os barcos para o lugar aonde eu estaciono o meu carro quando lá. Imaginem a minha cara vendo isso:

http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=2&contentID=86746&channel=47

É, meus amigos, Floripa é uma ilha muito mais perigosa do que a de Lost.

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A Balada do Velho Kadett

Em 1999, minha família comprou o primeiro carro da casa e eu fui escalado como o motorista oficial. Foi assim que conheci o Kadet bordô metálico, ano 97, que meu primo sacana apelidou, tão logo o viu, de Sagu.

"Sagu I" – eu o corrigi, já batizando o veículo.

E assim, ao longo de dez anos – uma década! – eu e o Kadett percorremos juntos cerca de 80.000 quilômetros.

O que dá para transportar num carro? Bom, cabe praticamente uma vida inteira. Foi nele, por exemplo, que eu trouxe toda a minha mudança de Bento Gonçalves para Floripa. Mala, cuia e até uma mesa de jantar de seis lugares. Tudo dentro do bom e velho Kadett, para espanto do fiscal do ICMS que nos parou na estrada.

Falando em transportes importantes, talvez o maior de todos tenha sido quando ele trouxe minha atrasada noiva, às pressas, para o casamento! Naquela ocasião, ele nem mesmo se importou em ser dirigido pela madrinha Sabrina, que achou que viria apenas para uma grande festa e nem imaginou que acabaria tendo que atuar como piloto de Fórmula 1.

Lá atrás, bem no início da história, o Kadett teve que me suportar, pois eu recém tinha aprendido a dirigir e, Caxias como sou, me recusei a andar de carro "ilegalmente" para ir treinando antes da chegada de nosso primeiro carro. Às vezes eu gostaria de ser como o meu primo Rodrigo, que nos sábados ia correndo lavar o carro do padre para depois conseguir do reverendo a permissão de levar o carro para dar uma volta, sob o pretexto de "secá-lo mais rápido". Meu primo tinha muito status, imaginem, ele dava bandas pela cidade no fusca do padre!

Já eu, quando comecei a dirigir, logo fui tentar tirar o Kadett da vaga na garagem e entortei uma porta em uma coluna (argh!). Depois, indo para a praia, pois sempre íamos para a praia no verão, eu achei estranho o modo como o carro, na chuva, ia trocando de pista sem minha autorização. Dudu, o mecânico da família, quase teve um treco quando levei o carro para ele ver. Haviam nos vendido um veículo com os pneus mais carecas que o Esperidião Amin.

No ano seguinte, eu já estava um ásno volante. Tão ás que passei voando por uma fiscalização eletrônica. R$ 128,00 para eu não esquecer mais daquele maldito pardal em São Sebastião do Caí. Mais um ano, mais um show do ásno volante. Mesmo pardal, mais a multa foi de R$ 560,00, pois dessa vez eu estava dirigindo mais rápido.

Nos últimos anos, o Kadett vinha sofrendo comigo. Um estranho numa terra estranha. Não havia estacionamento disponível no centro de Floripa e tive que deixá-lo na rua, pegando o sereno noturno, o sol quente do meio-dia e a maresia constante. Ele suportou tudo com dignidade, mesmo com sua pintura queimando dia após dia, mesmo com um flanelinha marginal riscando sua lataria porque o encontrou repousando em lugar inadequado. Ele suportou tudo isso e, para ser sincero, as únicas vezes em que me deixou empenhado na estrada foram quando eu me esqueci de colocar gasolina nele. Alias, isso era uma manha constante: sem gasolina, ele se recusava a andar.

Ano passado, Gabriel, meu priminho de seis anos, enquanto eu dava carona para ele e sua mãe, comentou com o Bruninho que estava ao lado:

Bruninho: "Que legal, um Kadett!"

Gabriel: "Ah! Tu gosta de carro velho?"

Chegou a me dar uma dor no coração. Percebem como a inocência das crianças pode ser cruel? Dizer uma coisa dessas sobre o Sagu, dentro do Sagu!

Ora, o vermelho podia já ter doze anos de idade, mas quando estava na estrada, mostrava para todos os Unos Milles, como o do pai do Gabriel,  o que era ter um motor 2.0 de Vectra. Eu pisava no acelerador e o mundo ficava para trás. Bom, ok, é certo que alguns Toyotas, Hondas e Audis passavam por mim, mas Celtas, Corsas, Uno Milles, Clios, Kas? Jamais! Era só acelerar e logo o Kadett alcançava os 120Km. Nessa velocidade, ele até economizava mais gasolina. Era a sua velocidade favorita, e ele ia nela feliz e contente. Essa era a balada do velho Kadett.

Nos últimos tempos, admito que ele já andava dando sinais de sua longa vida. Ele parecia se sentir melhor nos 100 Km/h e uma série de outros detalhes mostravam sua fadiga. Foi então que finalmente fomos sorteados no consórcio do carro zero. No dia em que fomos na concessionária pegar o carro novo, nem chegamos a ver o momento em que o Kadett foi recolhido para o fundo do pátio. Num momento, ele estava lá, brilhando ao sol, bonito como sempre, no seguinte, não estava mais.

Já faz um mês que estou conhecendo e dando as boas-vindas ao novo carro. Ele é preto, pensei em chamá-lo de Jabuticaba II, mas Lisa observou que ou era Jabuticaba I ou Sagu II e que ela não gosta nem da fruta, nem do doce. Aí, inspirado em uma famosa canção gaúcha, lancei: "Que tal Vento Negro?". Lisa respondeu: "Vento Negro? Mas é um carro com motor 1.0! Eu acho que vi até um Fusca nos ultrapassando!". Senhores, dêem as boas vindas ao meu novo carro, o Brisa Negra!

Quanto ao Kadett. Sabem de uma coisa? Ele é apenas um bem material. Levar meu tio para a praia no último ano de vida dele, saber que minha madrinha dirigiu bravamente para trazer minha esposa até o altar, tudo isso são recordações da minha vida que não foram e não serão jamais vendidas.

O Kadett será reformado, será revendido e, certamente, fará a alegria de mais uma família por aí afora. Feliz de quem o comprar. E, quem sabe um dia, quando ele não tiver mais como rodar por esse mundo, talvez venha comigo para andarmos juntos por outros campos.

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